Rui Anastácio discurso no 108º aniversário da elevação de Alcanena a concelho. Foto: mediotejo.net

No domingo, dia 8 de maio, completaram-se 108 anos desde que Alcanena foi elevada a concelho. A data é assinalada pelo município com um mês recheado de atividades, mas foi no domingo que decorreram as cerimónias oficiais, as quais contaram com uma sessão solene no salão nobre da Câmara Municipal, ocasião aproveitada pela oposição e pelo executivo para fazer um balanço da atividade no concelho, apontar aspetos negativos e positivos, e equacionar por onde pode passar o futuro de Alcanena.

Foi com a guarda de honra dos Bombeiros Municipais, que a sessão solene se desenrolou durante o final da manhã do dia 8 de maio, onde representantes da oposição (PS e CDU) e do Cidadãos por Alcanena (PPD/PSD – CDS/PP – MPT) foram convidados a intervir publicamente. As críticas foram variadas mas um assunto central foi a saúde, ou, mais em concreto, a falta de médicos de família.

Câmara de Alcanena ornamentada para as cerimónias. Foto: mediotejo.net

Depois de uma primeira intervenção de Duarte Fonseca (Cidadãos por Alcanena) – em representação da presidente da Assembleia Municipal, Teresa Sampainho – onde o deputado municipal abordou o estado do concelho e diversas temáticas a ele associadas, desde educação, economia, saúde ou cultura, interveio depois Jorge Batista, representante da CDU.

Duarte Fonseca (Cidadãos por Alcanena) em representação de Teresa Sampainho, presidente da Assembleia Municipal. Foto: mediotejo.net

Em nome da Coligação Democrática Unitária concelhia, Jorge Batista começou por ler um texto descritivo de Alcanena da autoria de Maria Manuela Mateus Henriques, tecendo depois diversas críticas ao estado do concelho, afirmando que nas últimas décadas se assiste a uma “recessão”, sublinhando o facto de Alcanena ter perdido visibilidade e 14% da população, sendo que 10% foi perdida só na última década.

Jorge Batista, representante da CDU. Foto: mediotejo.net

A saúde foi um tema evidenciado por Jorge Batista, tendo afirmado que Alcanena experiencia uma “situação dramática”, e que é o concelho do Médio Tejo com piores indicadores em termos de assistência à saúde. O representante da CDU criticou ainda a falta de qualidade ambiental e de dinâmica no concelho – apontando os 25 anos que levou a implementação do Plano Diretor Municipal (PDM) e a não existência de uma zona industrial – terminando a sua intervenção com um apelo de união, empenho e trabalho em prol do concelho.

A deputada municipal Carla Batista (PS) realçou na sua intervenção o trabalho feito anteriormente pela gestão socialista, bem como os projetos aprovados e as “contas certas” que o atual executivo herdou, afirmando que o Partido Socialista deixou a Câmara numa situação financeira “confortável”.

Carla Batista, representante do PS. Foto: mediotejo.net

“Na saúde temos um grave problema no concelho de Alcanena”, notou, no entanto, Carla Batista, acrescentando que a situação foi agravada pela saída de mais um médico no início do mês de maio. A deputada apontou também a inexistência de uma unidade de saúde familiar, a qual considera que podia ajudar a inverter a situação.

A representante do Partido Socialista criticou ainda a não descida do IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) por parte do atual executivo, tendo lembrado que era um compromisso eleitoral do movimento que lidera agora a autarquia (Cidadãos por Alcanena). “Palavra dada, deve ser palavra honrada”, disse a deputada olhando Rui Anastácio, presidente da Câmara Municipal.

Tiago Jorge, representante do Cidadãos por Alcanena. Foto: mediotejo.net

Tiago Jorge, intervindo por parte do Cidadãos por Alcanena, afirmou que o primeiro passo para a resolução de problemas passa por precisamente reconhecer a sua existência, afirmando que a “mudança é agora”. O jovem deputado da Assembleia de Freguesia de Minde defendeu ainda que é importante deixar de questionar o que a Câmara pode fazer pelos seus municípios e que estes devem começar a pensar mais no que cada um pode fazer por Alcanena, afirmando que para isso é preciso que haja interesse por parte da população.

“Se as pessoas não mostram interesse no seu futuro, então que futuro pode haver?”, questionou.

Chamado por último a intervir, Rui Anastácio, presidente da autarquia, garantiu que todos têm espaço para darem as suas opiniões, e aproveitou a ocasião para comparar o presente com o passado e fazer um balanço do concelho e dos projetos em andamento ou em perspetiva.

No fundo, “prestar contas”, uma vez que entende que “este é também o grande momento anual” para o fazer, conforme referiu ao nosso jornal no final da sessão.

Rui Anastácio, presidente da Câmara Municipal. Foto: mediotejo.net

“Nós, apesar de cá estarmos há seis meses, já temos muitas contas a prestar, achamos nós, e portanto foi isso que fizemos, hoje é momento também de ouvir a nossa oposição, que ouvimos com muita atenção, mas enfim, pensamos que o nosso trabalho fala só por si, temos um conjunto de projetos muito importantes em marcha, projetos que acreditamos que vão conduzir o concelho de Alcanena ao merecido desenvolvimento”, referiu ainda o autarca.

Relativamente à questão da saúde e da falta de médicos, Rui Anastácio disse ao mediotejo.net que, “em primeiro lugar”, é preciso perceber que os responsáveis por se ter chegado “ao estado a que chegámos” são o Governo e também o executivo municipal anterior “que não foi verdadeiramente reivindicativo quando se avizinhava esta catástrofe”, disse o presidente da autarquia, concretizando a situação em números: 60% da população de Alcanena sem médico de família.

Rui Anastácio fala sobre a falta de médicos, em declarações ao mediotejo.net

“Eu não consigo perceber que no norte haja 3% da população sem médico de família, que em Lisboa e Vale do Tejo em média 20% da população não tenha médico de família – o que desde logo é incompreensível – e que depois no concelho de Alcanena 60% da população não tenha médico de família. Isto é um verdadeiro terror”, disse Rui Anastácio, acrescentando que o município já pediu uma audiência com a ministra da Saúde, uma vez que por parte da Administração Regional de Saúde “não temos as respostas que entendemos dever ter”.

Rui Anastácio garantiu ainda em declarações ao nosso jornal que o executivo municipal não se calará sobre este assunto e tomará atitudes, inclusive no que toca à mobilização da população “se for caso disso”, tendo em conta que “esta é uma causa que nos tem mobilizado todos”, acrescentando ainda que “a oposição neste caso eu acho que seria de bom tom ficar calada, mas enfim, não resistem em dizer alguma coisa, e neste caso dizem basicamente disparates como é óbvio”, disse o edil.

Unânime por parte de todos os intervenientes foram os “vivas” por Alcanena e pelo concelho, bem como o reconhecimento para com todos aqueles que ajudaram a construir o concelho de Alcanena, o qual alcançou assim este ano a marca de 108 anos.

Rafael Ascensão

Licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo. Ávido leitor, não dispensa no entanto um bom filme e um bom serão na companhia dos amigos.

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