A primeira vez que colocaram uma alcachofra grelhada à minha frente perguntei a mim mesmo como se degustava e o que seria degustável naquela coroa de folhas verde-escuro. Aguardei, no intuito de verificar o modo de proceder. No entanto, os restantes comparsas de mesa também sustiverem os talheres na mesma ideia de espera.

A juventude é ignorante, todos éramos rapazes de queixos ainda longe de estarem completamente barbados, por isso atacou-se o problema desbastando as folhas carnudas até encontrarmos uma intumescência ou massa cremosa que, provada, agradou ao palato, por essa razão apreciada com torradas amanteigadas. As folhas mais chegadas também mereceram aprovação no tocante a tenrura e gosto.

Não sei se por receio de outras pessoas serem atingidas de igual modo na sua apreciação, não a encontro nos restaurantes que frequento, tal como fugitiva das grandes superfícies de venda de produtos vegetais. No entanto, possui grandes virtudes vitamínicas, caso das vitaminas A, B, e C, sendo rica em proteínas, fibra, potássio, magnésio, fósforo e cálcio.

Detentora de tantos atributos, não causa espanto que nutricionistas de várias latitudes lhe concedam o máximo apreço no universo das dietas, pois também facilita a digestão e o trânsito intestinal, ainda beneficia o fígado, reduz colesterol e faz regredir o nível de açúcar no sangue.

Planta vivaz originária da Sicília é muito requestada na cozinha italiana, não só cozida, também gratinada e coadjutora de nutrido número de criações culinárias, revelando suculência de maior amplitude nas comidas cruas, preparadas no vapor ou grelhadas na brasa. Pessoalmente prefiro-as cruas depois de terem recebido salpicos de sal e pingos de manteiga sem outras alcavalas, embora um fio de azeite e esparsas gota de vinagre casem bem com ela.

As alcachofras foram introduzidas em França pela opulenta gourmet Catarina de Médicis, ela levou o requinte e as boas maneiras para a mesa das terras gaulesas. A amiga das boas comidas bem temperadas é uma das personalidades que mais influenciou a cozinha francesa colocando-a num patamar de nacionalismo gastronómico de alto significado simbólico e económico. Inúmeros historiadores assim a consideram, grandes cozinheiros criaram receitas indicando o seu nome como matriz baptismal no pleno reconhecimento da sua acção.

Alguns memorialistas são menos expansivos nas considerações relativamente à rainha e às alcachofras, preferindo acentuar a condição de afrodisíaca da planta em forma de pinha.

Armando Fernandes

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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