O Dia dos Monumentos e Sítios, a 18 de abril, juntou dezenas de curiosos, a par de alunos da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes, que fintaram o calor e fizeram-se presentes na estreia do novo roteiro proposto pela Câmara Municipal de Abrantes, através da sua Divisão de Cultura. O projeto assenta na investigação das últimas décadas do antigo militar e investigador de história local José Vieira.
Este é um roteiro centrado nas defesas e nas portas militares de Abrantes, para defesa da vila de então, não esquecendo detalhes, factos históricos e património com que este roteiro circular se vai entrecruzando. Elaborado a partir dos mapas e plantas militares de Abrantes dos séculos XVIII e XIX, o roteiro “Portas d´Abrantes” mostra as antigas portas e defesas da então vila, num percurso pedestre circular com cerca de 5 km que passa pelas antigas defesas e oito portas da antiga praça de guerra, regressando ao ponto inicial após passar pelo Castelo.
Passe pelo Posto de Turismo de Abrantes, na Esplanada 1º de Maio, peça o seu roteiro e parte à descoberta das antigas portas e defesas de Abrantes.
“Não quisemos deixar de abrir portas para outros motivos de interesse patrimonial, material ou imaterial, que ao longo do percurso são referidos”, explicou ao mediotejo.net Francisco Lopes, o pivô desta caminhada de apresentação, acompanhado da arqueóloga Filomena Gaspar, numa visita guiada aos participantes, ilustrativa daquilo que é referenciado ao longo deste novo percurso lançado, para já, em guião impresso.

O historiador Francisco Lopes explicou que as vilas e cidades fortificadas costumavam ter portas de entrada que eram os únicos sítios pelos quais era possível entrar nessas vilas. “Tinham normalmente um controlo militar, e às vezes, em paralelo, chegaram a ter outras funções como o controlo aduaneiro, para pagar as taxas, aceder às feiras, e outras funções”, indicou.
A ideia é percorrer os vários pontos que permitem recriar no imaginário a totalidade da muralha da fortaleza de Abrantes, que se estende desde a zona alta que circunda o Castelo e que desce até à zona da Esplanada 1º de Maio, passando abaixo da Misericórdia de Abrantes, do Convento de São Domingos, e segue até lá.
Neste roteiro, admite Francisco Lopes, poderíamos “ir em cima da muralha”, à semelhança do que acontece na muralha de Óbidos, caso a muralha não fosse sendo destruída ao longo dos tempos.
Segundo o também investigador de História local e ex-militar, “a vila de Abrantes teve oito portas na sua fortaleza, não considerando as duas portas do Castelo”.
Com este percurso “pretende-se mostrar onde se situavam, dar a perceber por onde subia a muralha e dar a perceber também onde estariam as posições defensivas em termos de artilharia para defender determinados pontos vulneráveis, por exemplo, a segunda porta é a do Cabo, do outro lado do dispensário e, lá, está uma canhoneira para pôr a peça de artilharia em cima”.

Quanto ao processo que proporcionou este novo roteiro que convida a conhecer a cidade e olhar o seu património com outros olhos, Francisco Lopes frisou o trabalho de José Manuel d’Oliveira Vieira, o autor e proponente deste guião, que já em 2022 havia publicado no seu blogue ‘Coisas D’Abrantes’ uma proposta similar pelas “portas históricas da villa de Abrantes”.
Além disso, o facto de ter mergulhado anos a fio nas cartas militares em arquivo, e depois de já ter promovido uma exposição sobre cartografia militar de Abrantes em 2019 na própria Biblioteca Municipal António Botto, ajudou a reunir informação útil para este circuito histórico.
“As cartas militares deram-nos a informação, o José Vieira é um homem ex-militar, e é um curioso e um estudioso da História militar, muito entusiasta, e ele foi pesquisar as cartas que havia sobre Abrantes, e isso é a base do trabalho para que depois outros possam investigar. As cartas têm legendas muitas vezes com um detalhe extraordinário, com montes de informação que precisa depois de ser investigada, confrontada com outra documentação e produzir coisas. Porque tenho o entendimento que a História serve para alguma coisa, não é apenas conhecimento inútil. Serve para alguma coisa, para projetarmos o futuro”, defende Francisco Lopes.
Deixando-se já no ar a possibilidade de novos produtos que ajudem a dar destaque a mais factos e detalhes históricos sobre a cidade de Abrantes, não descurando a valorização daquilo que foi a sua importância a nível militar, até em termos estratégicos na defesa do seu território e do próprio país em diversos momentos.
José d’Oliveira Vieira esteve presente no arranque desta iniciativa, tendo manifestado a sua alegria por ver mais um dos seus quatros projetos a concretizar-se.

“Dos quatro projetos que tenho em mente, dois já foram feitos. Um foi [a exposição sobre] as cartas militares de Abrantes, relacionado com a Real Corte de Engenheiros, e foi concretizado na Biblioteca. Este é o segundo, que realmente espero que venha a ter outros encargos, nomeadamente a sinalização das portas e dos traveses”, declarou.
“Os restantes projetos incidem sobre a História militar de Abrantes desde 1148 a 1834, que espero que um dia venha a sair em livro, e já deixei o repto à Divisão de Cultura da CM Abrantes”, manifestou o autor, que foi aplaudido e alvo de agradecimento público pela sua cooperação, num momento que contou igualmente com a presença do Coronel Luís Albuquerque, ex-diretor do Museu Militar e muito ligado à historiografia militar em Portugal.
Luís Dias, vereador com o pelouro da Cultura na Câmara Municipal, apontou ainda o monumento de homenagem ao Condestável D. Nuno Álvares Pereira, com vitrais produzidos pelo Mestre Gil Teixeira Lopes, destacando o Outeiro de S. Pedro como “um lugar que homenageia a história de todos os abrantinos”, mas também “lugar de excelência, com a monumentalidade da paisagem, um sítio que foi inclusive utilizado para o culto, um lugar mítico”.
O vereador encorajou José Vieira nos seus objetivos, lembrando os “projetos pendentes” com o município há alguns anos e lembrando a exposição da cartografia militar de Abrantes em que o investigador “foi decisivo para o trabalho de pesquisa feito com o apoio do Exército Português”.

Além do roteiro feito sobre a cartografia militar, com apoio dos serviços da autarquia, nomeadamente através do historiador Francisco Lopes e da arqueóloga Filomena Gaspar, o vereador Luís Dias notou um trabalho desenvolvido em que “homenageamos os nossos monumentos, o que constrói as mais belas páginas da história de Abrantes”.
Lembrando a “importância estratégica e geografia de confluência que Abrantes sempre teve ao longo destes séculos de história” e a “centralidade de Abrantes associada ao porto fluvial do Tejo”, o vereador referiu as múltiplas possibilidades em torno deste roteiro, que abre portas a um novo produto de turismo militar.
“Estamos aqui também a criar um produto turístico e a ideia, à semelhança de um outro que é um audiowalk /percurso sonoro, que é importante para quem tem problemas auditivos e quer ter as acessibilidades todas consagrada, é que este é o primeiro passo para algo que estamos a construir com tecnologia, com acessibilidade, com guiões, em que a estruturação do produto turístico ligado ao Turismo Militar é edificado quando se abre a porta. E as portas de Abrantes abrem-se hoje”.


Falando aos participantes, no Outeiro de S. Pedro, “sítio que marca a história de Abrantes desde a batalha de Aljubarrota”, o vereador falou no abrir de portas “a mais uma roteirização, a mais uma estruturação de um produto turístico numa região que é o Médio Tejo”.
“Fazemos parte da Turismo do Centro, mas sobretudo é uma homenagem aos abrantinos e este percurso é para os abrantinos e para todos aqueles que nos visitam e que sabem que, a reboque das tais mais belas páginas da História de Portugal, muitos desses episódios, por exemplo, passaram-se exatamente onde estamos”, frisou.
Percorrendo a História militar da cidade atravessando as antigas Portas d’Abrantes
Este pretende ser um desafio à incursão pela história militar de Abrantes, onde se propõe começar pelo Outeiro de S. Pedro, zona do Forte de S. Pedro, rodeado antigamente por um fosso, dificultando a vida aos inimigos, sendo um local estratégico de defesa, à qual se juntava a Ferradura do Cavaleiro – uma elevação no centro do forte. Dali, altaneiro, destaca-se o monumento a D. Nuno Álvares Pereira, assinalando a presença de outrora do acampamento militar das tropas d’ O Condestável aquando a Batalha de Aljubarrota.

O domínio defensivo, e a importância do porto fluvial pela presença do rio Tejo enquanto “maior autoestrada da Península Ibérica” do passado, conjugam-se com a possibilidade alcançar a vista sobre a paisagem na confluência com diferentes regiões, entre a planície alentejana, as lezírias do Ribatejo, e as serranias típicas das Beiras, que também lembram o encaixe no concelho de Abrantes entre diversas tradições, sabores e saberes, que resultam deste cruzar de culturas.
Dali, desce-se para a Porta do Quinchoso, na entrada da Rua dos Quinchosos, sendo que este topónimo faz referência aos quintais onde se fazia produção hortícola. No dicionário, quinchoso significa “pequeno terreno junto uma habitação”.
O caminho segue pela Ladeira dos Quinchosos, passando a antiga gafaria (ou hospital de leprosos/leprosário), até se voltar a subir pela Rua da Barca, onde são múltiplos os vestígios arqueológicos militares, nomeadamente na parte da muralha que ainda contém uma canhoneira – zona de colocação de peças e artilharia para defesa do Vale da Gafaria, da Estrada do Porto, do Porto do Tejo e da segunda porta do Roteiro, a Porta da Rua da Barca.
Subindo até à Misericórdia e à Igreja de São João – onde se diz ter D. João I assistido à missa antes de partir para Aljubarrota. Em frente até ao antigo Rossio, na zona do atual Jardim da República, onde uma antiga carta militar registava a Ermida da Senhora do Socorro, que serviu de depósito de munições de guerra ao exército invasor durante as Invasões Francesas.
Seguindo o edifício da atual Biblioteca Municipal António Botto e do MIAA – Museu Ibérico de Arqueologia e Arte, no antigo Convento de S. Domingos, caminha-se até ao estacionamento, antiga cerca do Horto de S. Domingos, onde permanecem zonas de muralha que acentuam e comprovam a posição de defesa privilegiada com vista para os pontos iniciais (e estratégicos do ponto de vista militar) deste roteiro.
Descendo até à Loja do Cidadão, na escadaria, e no entroncamento com a Rua Nossa Senhora da Conceição, encontrava-se a Porta da Rua do Cabo. Segue pela Rua Luís de Camões – antiga Rua do Cabo – até ao chafariz, sendo que a cartografia de 1801 ali já referenciava a existência de um poço.
A Porta do Chafariz, a quarta porta da vila de Abrantes, seria na zona do cruzamento entre a Rua do Chafariz e a Avenida 25 de Abril, isto é, na zona onde agora se entra para o parque de estacionamento do Vale da Fontinha, onde também decorre o mercado semanal. Ali ao pé, a Porta de Vale de Judeu, cujo acesso se fazia fora das muralhas, existiria uma gafaria.
O caminho para a porta nº 6, Porta de Santo António, faz-se pela Rua Dr. Manuel Fernandes, a caminho do Alto de Santo António. A porta situava-se ao cimo da rua, antes da rotunda. Ali ainda há vestígios do antigo Convento de Santo António, e as cartas militares fazem referência também à igreja e forte de S. Francisco e à Ermida de Santa de Iria, local onde estariam os paióis. No Alto de Santo António estariam colocadas mais de duas dezenas de peças de artilharia.
Atrás do Edifício Pirâmide ainda resta parte da muralha do Forte de S. Francisco, e mais abaixo, começaria a Cerca dos Frades de Santo António – na confluência da Rua de S. João com a Avenida Defensores de Chaves. A 7ª porta, a Porta de Santana, situava-se no Largo da Ermida de Santana.
Seguindo pela Rua Ator Taborda – antiga Rua da Esperança – passagem pelo Convento da Esperança que antes servia de depósito de presos militares com grilhetas, sentenciados a trabalhos forçados, como o calcetamento. Mas também em 1817 serviu de quartel a companhias da guarnição e de depósito de ferramentas para obras militares.
A última porta militar de Abrantes, a Porta da Ferraria, situava-se como quem desce para a Calçada de S. José a partir do marco do triplo centenário, vulgarmente chamado de pelourinho, na convergência entre a Rua 5 de Outubro de 1910 e a Calçada de S. José.
O roteiro, no entanto, sugere um percurso circular que leva os pedestrianistas até ao ponto de partida, subindo até à porta do Castelo, proporcionando mais uma viagem pela História de Abrantes, onde constam alguns dos pontos de interesse histórico e turístico a não perder, como o antigo Palácio dos Governadores, ou o Panteão dos Almeida na Igreja de Santa Maria do Castelo, bem como a Torre de Menagem, cujo topo permite uma visão panorâmica de 360 graus pelo território do concelho.
Com passagem pela Porta da Traição (habitualmente encerrada), a passagem secreta da fortaleza em situação de crise alcança-se saindo pela porta de entrada do Castelo e seguindo a muralha à direita.
A proposta faz o visitante seguir até ao Jardim do Castelo, construído no século XIX sobre placa artificial, sendo que antes ali existia o fosso envolvente à muralha. Do jardim, pelo pequeno portão existente nos limites murados, desce-se de novo até ao Outeiro de S. Pedro, onde termina o percurso, retornando à casa de partida.
Roteiro Portas d’Abrantes

Ponto de partida: [ I ] Outeiro de S. Pedro
1. Porta do Quinchoso
2. Porta da Rua da Barca
3. Porta da Rua do Cabo
4. Porta do Chafariz
5. Porta de Vale de Judeu
6. Porta de Santo António
7. Porta de Santana
8. Porta da Ferraria
Para mais informações contactar a Biblioteca Municipal António Botto (241330100 / e-mail biblioteca@cm-abrantes.pt) ou através do Posto de Turismo no Welcome Center (966 822 104 / 241 330 100 [tecla 6, seguido da tecla 4] / e-mail: turismo@cm-abrantes.pt).






















