Paulo Lourenço, deputado municipal em Abrantes, pediu a suspensão do seu mandato por 120 dias após ser constituído arguido numa investigação relacionada com a venda de um imóvel da Federação Portuguesa de Futebol. A substituição aconteceu na última reunião ordinária da Assembleia Municipal abrantina, tendo tomado posse Rui Gonçalves, enquanto deputado municipal pelo Partido Socialista (PS).
Em comunicado, lido pelo presidente da Assembleia Municipal, António Mor, Paulo Lourenço afirma estar inocente, no entanto, considera que a continuidade do seu mandato poderia prejudicar a imagem das instituições autárquicas de Abrantes.
“Na sequência das buscas efetuadas à Federação Portuguesa de Futebol, a propósito da venda do imóvel sido na rua Alexandre Herculano, em Lisboa, fui constituído arguido. Apesar de estar absolutamente convicto da minha inocência, não seria correto da minha parte deixar que as suspeitas que sobre mim possam, ainda que de forma indireta, afetar o bom nome e credibilidade das instituições autárquicas de Abrantes e dos respetivos titulares”, referiu.
“Acresce que pretendo sentir-me liberto de qualquer responsabilidade para poder preparar convenientemente a minha defesa, para o que suspendo com efeitos imediatos, o meu mandato de deputado municipal”, acrescentou.
O presidente da Assembleia Municipal mencionou ainda que este pedido envolve também questões de ordem pessoal, relacionadas com a necessidade de Lourenço continuar a sua atividade profissional para garantir o seu sustento.
Recorde-se que na sequência das buscas realizadas na Federação Portuguesa de Futebol, a Polícia Judiciária indicou existirem “fortes suspeitas” de crimes de corrupção e fraude fiscal cometidos pelos advogados António Gameiro, antigo deputado e ex-presidente da Distrital de Santarém do Partido Socialista, e Paulo Lourenço, antigo secretário-geral da FPF e atual membro da Assembleia Municipal de Abrantes.
Paulo Lourenço, 65 anos, advogado, é natural de Mouriscas, Abrantes, concelho a que manteve sempre ligação. Atualmente é membro efetivo da Assembleia Municipal de Abrantes, eleito pelo Partido Socialista. Licenciado em Direito, trabalhou como técnico jurista da Direcção-Geral dos Impostos e foi assessor do gabinete do Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, quando Sousa Franco era Ministro das Finanças. Deixou as funções governativas para ser um dos responsáveis pela organização do Euro 2004. Tornou-se depois secretário-geral da Federação Portuguesa de Futebol.
O nome de Paulo Lourenço já tinha sido relacionado no passado com eventuais fugas fiscais. Uma investigação do Expresso, em 2017, no âmbito dos Malta Files, referia que o “antigo quadro do Fisco criou três empresas no país com melhor regime fiscal da Europa”, onde quem não é residente pode pagar apenas 5% de imposto. Na altura, Paulo Lourenço disse ao jornal que se tratou “apenas de um favor” que fez a um amigo.
O abrantino negou ter tido qualquer benefício na venda da antiga sede do organismo, depois de ter sido constituído arguido.
“É para mim inaceitável ver o meu nome envolvido num processo ao qual sou alheio. Não tive influência na decisão de venda do imóvel, não tive influência na escolha da proposta vencedora e não obtive qualquer benefício, direto ou indireto, com este negócio. Nego frontal e absolutamente ter recebido fosse o que fosse com este negócio. Qualquer sugestão em sentido contrário é falsa e profundamente injusta”, garantiu Paulo Lourenço, em comunicado.
Na mesma missiva, o antigo dirigente garantiu não ter “nada a esconder” e que colaborou “desde o primeiro momento com as autoridades”, dizendo não poder aceitar que a sua “honra e reputação sejam postas em causa por suspeitas infundadas”.
“Farei tudo o que estiver ao meu alcance para que esta situação se esclareça com a máxima celeridade, não só para demonstrar inequivocamente a minha inocência, mas também para compreender como e por que razão fui arrastado para esta investigação”, assegurou.
Paulo Lourenço concluiu dizendo confiar “plenamente na justiça” e esperando que “este processo seja conduzido com rigor, imparcialidade e rapidez, para que a verdade prevaleça”.
