Cineteatro S. Pedro, em Abrantes. Foto arquivo: mediotejo.net

Neste contexto, o presidente de Câmara, o socialista Manuel Jorge Valamatos, lembrou a oportunidade de requalificação de um património existente que irá ser devolvido à comunidade, demonstrando dúvidas quanto a outra opção viável no centro histórico para construção de um novo centro cultural bem quanto ao financiamento para tal.

O tema já havia estado a discussão em reunião de Câmara, mas esgotado o tempo do vereador eleito pelo PSD este retomou a palavra e o tema na reunião de 19 de julho.

Vítor Moura (PSD) aludiu à visita à obra de requalificação e ampliação do Cineteatro S. Pedro, para dar conta de uma série de “condicionantes” que enumerou durante a sua intervenção. O vereador disse que o cineteatro “não tem estacionamento” e também “não tem acesso a camiões de grande dimensão”, situações que crê colocarem aquele equipamento em desvantagem.

“As grandes produções hoje fazem transportar o seu material em camiões de grande dimensão que não têm acesso ao cineteatro”, disse, acrescentando outra “grande condicionante” no seu interior, referindo-se à dimensão da boca de cena “que se vai manter, e que é uma condicionante de produções que hoje em dia estão concebidas e acostumadas a bocas de cena de dimensão superior”.

Outra constatação passou pela lotação do cineteatro, que, segundo o vereador social democrata por imperativo legal passa de mais de 400 lugares para 337. “Isto é uma condicionante muito importante porque se de facto ali ocorrerem espetáculos de grande interesse público, 337 pessoas para o nosso concelho é muitíssimo pouco”, alerta.

“E tem uma outra implicação; é que hoje uma boa produção numa sala daquelas cobra vulgarmente mais de 20 mil euros. E cerca de 20 mil euros a dividir por 337 espectadores, dá um bilhete de ingresso do espetáculo entre 60 a 70 euros. Isto é muito seletivo, muitos abrantinos não conseguem lá ir mesmo que tenham esse dinheiro, porque não têm vaga. E depois, aqueles que tinham vontade, também porque custa este dinheiro, desistem de ir lá”, argumentou.

“A Câmara de Abrantes pode resolver isso de uma forma simples, que é perante o espetáculo de 20 mil euros, a Câmara faz na bilheteira só 10 mil euros, baixando o preço do bilhete e paga o restante. Mas aí coloca-se aquela questão que não pode deixar de se colocar: mas então, aquilo que a Câmara está a pagar no défice de bilheteira, está a ser pago também por aqueles abrantinos que não conseguiram bilhete ou porque já estava esgotado, ou porque a sua condição de vida não lhe permite assistir a um espetáculo daqueles”, prosseguiu, referindo ainda ser “discutível se a Câmara deve apoiar ou não o défice de bilheteira nessas circunstâncias”.

Vítor Moura encerrou a conversa demonstrando que o principal interesse é reabrir as portas do cineteatro à população, uma vez que se encontra encerrado desde 2018 – isto é, há cerca de 6 anos.

“O que queremos agora, de facto, é que seja reinaugurado o Cineteatro S. Pedro, o que esperamos com expetativa, até porque já leva muitos anos encerrado”, afirmou.

Por seu turno, o vereador Vasco Damas, eleito pelo ALTERNATIVAcom, retomou a defesa da criação de um novo Centro Cultural e de Congressos e também de um pavilhão multiusos. Na ocasião disse ainda que o movimento independente terá na sua posse pareceres técnicos que revelam ser “um erro” o investimento feito no antigo cineteatro.

Para o eleito, este novo centro cultural seria “complementar ao Cineteatro S. Pedro, um património histórico que está a ser requalificado e que será reinaugurado, presumimos, antes das eleições autárquicas do próximo ano”, considerou.

“De acordo com alguns pareceres técnicos que solicitámos, o investimento no Cineteatro S. Pedro revelar-se-á um erro devido a um conjunto de fatores técnicos, principalmente se quiser fazer de um equipamento projetado em 1946 o equipamento cultural de Abrantes”, começou por dar conta.

“Em primeiro, porque qualquer pessoa de bom senso, sem conhecimento técnico, percebe que Abrantes não é uma cidade propriamente convidativa para andar a pé, muito menos nos dias de hoje, talvez em 1950 o fosse, logo por aí podemos começar pelo estacionamento dos potenciais clientes. De difícil acesso e com falta de estacionamento perto e acessível, começa o primeiro erro deste investimento. Sendo que qualquer estrutura deste tipo tem a sua principal vantagem no abrigo que dá a condições climatéricas desfavoráveis, pois quem está no seu perfeito juízo vai deixar o carro na Tapada do Fontinha ou no Largo 1º de Maio ou no parque do Convento, ou no Castelo, ou onde quer que seja, que não seja nas imediações do equipamento”, referiu.

Por outro lado, disse que “o cineteatro foi projetado numa época em que os equipamentos agregados e as infraestruturas existentes de passagem de cablagens, por exemplo, não têm comparação imaginária sequer com as necessidades dos dias de hoje. Das duas uma, ou ficará mal adaptado, ou ficará mais caro que novo. É impossível ficar bem adaptado aos mesmos custos de novo”, declarou.

“Em terceiro lugar, não parece que haja preocupação com a acústica do equipamento nem com o ruído de vizinhança, uma vez que o estudo de aplicação prática do estudo acústico é um campo que se desenvolveu e se especializou nas últimas décadas. Regra geral, um ambiente projetado desde o início para ser sonorizado pode ser desenvolvido com soluções que favoreçam a acústica, como o piso adequado, isolamento, estofamento, entre outros. É uma situação diferente de um local já construído, e que tem uma característica acústica bem específica”, notou.

Considerando que “o tipo de equipamento escolhido para a sonorização será o fator principal de melhoria na acústica do ambiente, onde mais uma vez caímos na impossibilidade do melhor de dois mundos: ou fica bem feito e de custos muito mais elevados e sem garantia de um resultado como um projeto de raiz, ou fica economicamente igual ao projetado de raiz com equipamentos e materiais desadequados”.

Vasco Damas sublinhou ainda que, apesar de ter sido minimizado o problema no acesso ao local para cargas e descargas de acessibilidade de pesados, também defende que este “não está em conformidade com as exigências dos espetáculos dos dias de hoje”.

“É também devido a estes argumentos que, para o ALTERNATIVAcom, fazem falta a Abrantes – porque o Cineteatro S. Pedro nunca dará resposta a um determinado tipo de espetáculos e eventos – dois outros tipos de equipamentos municipais e nenhum deles deverá situar-se nem substituir-se ao berço histórico do mercado municipal de Abrantes, conhecido por antigo mercado. O qual, em nosso entender, deverá ser simplesmente reabilitado e voltar a receber o mercado diário, podendo ter outras valências compatíveis com e dinamizadoras do mercado municipal”, argumentou.

Deste modo, o ALTERNATIVAcom diz defender um pavilhão multiusos, lembrando que “esta é a designação correta, multiusos – a não se que se queira reverter e anular o assim designado concurso público internacional de conceção para a elaboração do projeto de reconversão do antigo mercado municipal em multiusos – que “servirá algumas das finalidades previstas, como eventos e atividades económicas empresariais, artistas, musicais, desportivas, associativas, de juventude e multigeracionais. Deverá ser espaçoso, dispor de estacionamento suficiente e permanente e situar-se em local isolado, mas não remoto, onde o ruído não constitua problema de maior”.

Já o ambicionado centro cultural e de congressos, crê o vereador, deverá estar “devidamente articulado com a função e atividade do Cineteatro S. Pedro, deverá ter uma projeção externa pelo menos regional, dispor de lotação elevada e estar preparado para receber durante um dia inteiro e com a logística apropriada, participantes em congressos, convenções e conferências, oficinas de dança, música, teatro, artes plásticas e fotografia, entre muitas outras”.

“Como o movimento ALTERNATIVAcom tem dito repetidamente, as nossas propostas são ponto de partida que podem ter vários pontos de chegada. Razão pela qual as fazemos com toda a determinação e coragem, mas humildemente e com a abertura democrática as submetemos a amplo debate público, isto é, à discussão e reflexão de todos os nossos concidadãos pelo tempo que for necessário”.

Em resposta às intervenções dos vereadores de oposição, o autarca Manuel Jorge Valamatos lembrou que o executivo de maioria socialista é “absolutamente a favor da requalificação e da ampliação do Cineteatro S. Pedro”, ainda que tivesse assumido que a certa altura “houve essa possibilidade, de esquecer o Cineteatro S. Pedro e construir um novo”.

“Houve quem achasse que nós devíamos esquecer o cineteatro e que devíamos fazer um novo, num sítio novo, porventura fora do centro histórico”, começou por dizer. “Não há outra hipótese. Diga-me um outro sítio para fazer um cineteatro no centro histórico. Nós precisamos de um centro histórico dinâmico, nós não podemos é querer umas coisas de um lado, e depois querermos coisas de outro”, mencionou, indicando que se não fosse o município a pegar na requalificação daquele património “seria difícil”.

“Veja o que está a acontecer com o cineteatro em Alferrarede. Estamos com muita dificuldade em o adquirir e já manifestámos essa vontade. E acho que tem de ser eventualmente a instituição pública a fazer esse investimento. Vamos ver”, mencionou.

Quanto ao Cineteatro S. Pedro, reconheceu que “foi um espaço cultural que sempre esteve disponível para a cidade e para os cidadãos, e para a região. Obviamente que a sua requalificação tem exigências do ponto de vista regulamentar da atualidade que outros tempos não tinham. Estamos a fazer uma ampliação para dar respostas que o próprio cineteatro não tinha. Mas precisamos muito desta requalificação, porque diz muito aos abrantinos. Ficar ao abandono seria absolutamente terrível”.

O presidente de Câmara ainda falou no suporte significativo em termos de fundos comunitários para a requalificação do cineteatro, duvidando que ao fazer uma sala de espetáculos nova tivesse o mesmo apoio de financiamento europeu. “Não sei com que dinheiro é que os senhores faziam essa obra”, apontou.

“Não tiro prestígio nenhum, nem responsabilidade nenhuma, e até aprecio muitas das suas intervenções. Eu vou acreditando que tudo aquilo que o senhor diz é de boa fé e com vontade de colaborar… mas como é que isso se faz? Onde é que vou fazer um novo cineteatro?”, questionou, dirigindo-se ao vereador Vasco Damas (ALTERNATIVAcom).

Recordou também o processo de negociação e compra do edifício do Cineteatro S. Pedro à Sociedade Iniciativas de Abrantes, e notou que assim “foi devolvido um espaço cultural importantíssimo à cidade, ao centro histórico, ao concelho. Esta reabilitação era importantíssima. Deixávamos o cineteatro ficar ali devoluto como o de Alferrarede?”, acrescentou.

O edil insistiu, então, sobre como propunha a oposição atuar perante a sua proposta. “Digam-me onde íamos fazer um novo cineteatro, quanto é que custa e onde iam buscar o financiamento para isso”, questionou.

Foto: mediotejo.net

Abordando as oportunidades que surgem em termos de financiamento comunitário para obras públicas, caso da nova creche municipal cujo visto do Tribunal de Contas já chegou e se prevê que a obra vai arrancar em breve, o autarca frisou que neste caso “a comparticipação financeira europeia é muito frágil, temos que conseguir mais financiamento para a creche”, disse, dando o exemplo deste projeto.

Também se referiu à busca de financiamento para outras obras previstas, caso da “USF do norte do concelho, para as coberturas das escolas, para a Fonte dos Touros, estamos numa luta todos os dias…”, frisou.

Manuel Jorge Valamatos argumentou ainda que “havendo financiamento disponível quer para a requalificação de edificado antigo, quer para a construção de novo equipamento, poderia ser equacionada qual proposta seria mais vantajosa. Porém, não é isso que se verifica, pois a janela de oportunidade verificou-se no âmbito da regeneração urbana no Portugal2020. Coisa que o Portugal2030 não expressa dessa forma”.

“Relativamente ao [antigo] Mercado Diário, nós precisamos de atacar aquele edifício que é brutal para a cidade, importantíssimo. Tem uma bolsa de estacionamento de 370 lugares, tem aquelas escadas completamente disfuncionais, desadequadas”, prosseguiu, mudando de tema.

“Dos concursos mais vividos e concorridos dos últimos anos por tantas equipas de projetistas, e temos um projeto absolutamente extraordinário, em que se mantém a fachada do edifício, não lhe tira a sua identidade. Onde vamos garantir os azulejos, temos que garantir. Vai ter cerca de 30 garagens de estacionamento para ajudar o centro histórico. Vai ter duas salas extraordinárias, para que nesta fase consigamos ter capacidade indoor, para as associações de estudantes, as associações de pais, a nossa Feira de Doçaria. Queremos reativar o Encontro Ibérico do Azeite… temos tantos eventos. Vamos ficar sem a Quimigal, acreditamos que vamos lá implementar a nova ESTA e precisamos de pôr aquele edifício ali multifuncional. Precisamos de requalificar aquele edifício do antigo mercado”, defendeu.

Para o presidente da Câmara Municipal de Abrantes, “a reconversão do antigo Mercado Municipal em Edifício Multiusos e a requalificação da área envolvente, constituem uma oportunidade ímpar de devolver à cidade um espaço de encontro e de memória coletiva, contribuindo ainda para a qualificação do acesso ao Centro Histórico de Abrantes”. Foto: CMA

“Nenhum abrantino me ia perdoar se perdêssemos a oportunidade de conseguir ir buscar quase cinco milhões de euros para a reabilitação daquele edifício, através do que estou a dizer, deste espaço multifuncional, cultural e social”, notou, indicando que se prevê a “transformação completa de toda a via pública, uma nova vida para a cidade de Abrantes. Só vamos ter oportunidade agora, que porventura nunca mais a vamos ter”, vincou, esclarecendo que “não é este o momento, não é este o enquadramento que temos no âmbito dos fundos comunitários” para construção de novos espaços socioculturais.

Enquanto isto, o vereador Vítor Moura (PSD) pediu que não se misturasse “o Cineteatro S. Pedro com o pavilhão multiusos, a não ser para dizer que as condicionantes naturais que o cineteatro já tem e vai manter, são apenas mais uma justificação para a necessidade que temos há tanto tempo de ter um pavilhão multiusos”.

“A estratégia é uma coisa, o momento da execução pode ser outra. Até aqui, eu ainda não era vereador, e já ouvia o sr. presidente chamar multiusos àquilo que pretende fazer na requalificação do antigo mercado diário. Registo com agrado que há poucos dias o senhor mudou de linguagem. Numa fase seguinte o sr. vai, numa fase seguinte, começar a falar do multiusos”, retorquiu, defendendo que a maioria PS já deveria ter trazido uma proposta para construção de um novo multiusos “que Abrantes já devia ter há tanto tempo”.

“Tem que estar na agenda, já devia estar há anos. E, se estivesse, provavelmente já estaria construída, já terão passado oportunidades para, como outros municípios o fizeram, Abrantes também o ter feito. Claro que, fora da zona histórica, o multiusos de hoje é impensável… mas dentro da zona urbana não faltam locais ótimos para construir um verdadeiro multiusos”, disse.

O presidente de Câmara voltou a insistir que o que se pretende “é o antigo mercado requalificado. Está inscrito na ITI. Reabilitar aquele edifício, devolvê-lo à cidade, devolvê-lo aos abrantinos e à região, transformando-o num espaço capaz de acolher imensos eventos. Aquilo que mais me preocupa são os eventos das associações de juventude, associações académicas, Feira da Doçaria, congressos, tudo aquilo que hoje não conseguimos acomodar. Com a requalificação do antigo mercado isso vai acontecer”, assegurou.

Valamatos parece não ter dúvidas que será um “projeto extraordinário para aquela dimensão e para aquele enquadramento e para aquele valor financeiro” que irá garantir a “transformação do ponto de vista urbanístico, transformar toda aquela zona, dando uma nova linguagem ao coração da cidade, para que as pessoas tenham mais segurança, mais acessibilidade, para que tudo possa acontecer e se desenvolver”, concluiu.

NOTÍCIA RELACIONADA

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

Deixe um comentário

Leave a Reply