O vereador Vasco Damas considera que mesmo com a requalificação e ampliação do Cineteatro S. Pedro fica a faltar um espaço em Abrantes que sirva eventos culturais, feiras, congressos e outros. Perante a abertura de procedimento para classificação do Cineteatro como Monumento de Interesse Municipal, Vasco Damas disse crer que a antiga Praça de Abrantes também é válida para a mesma classificação por responder a múltiplos critérios, nomeadamente pelo seu valor histórico e patrimonial.

Aludindo na passada reunião de Câmara a uma visita do executivo municipal, decorrida a 25 de junho, em que foram incluídos os vereadores de oposição, às obras do Museu de Arte Contemporânea (MAC) Charters de Almeida e do Cineteatro São Pedro, o vereador eleito pelo ALTERNATIVAcom na Câmara Municipal referiu-se a uma oportunidade para conhecer de perto “o desenrolar das obras e fazer projeção em relação ao resultado que os abrantinos irão descobrir dentro de alguns meses”.

Cineteatro S. Pedro, em Abrantes. Foto: mediotejo.net

“Confesso que gostei muito daquilo que vi, e fiquei particularmente entusiasmado com o aumento da oferta museológica e com a requalificação e reconversão do antigo Edifício Carneiro [futuro MAC]”, disse, acrescentando ter de “concordar com o vereador Vítor Moura e com as palavras ditas em determinado momento pelo sr. presidente da Câmara de Abrantes, quando afirmou que temos ali mais um forte candidato a ganhar um dos prémios anuais atribuídos aos museus nacionais”.

“Haja depois capacidade e dinâmica para rentabilizar e dinamizar aquele espaço, porque acho que ficamos com mais uma oferta muito interessante ao nível da tal oferta museológica dentro do concelho de Abrantes”, declarou.

Quanto ao Cineteatro São Pedro, “e apesar de ter ficado surpreendido com o que está a ser feito, nomeadamente com o aumento do palco, construção de uma antecâmara antes da plateia, a reconversão dos camarins, a construção de salas técnicas de apoio, a inversão do sentido na climatização da sala e – isto, para mim, é o mais relevante naquelas obras – a construção de um acesso lateral para pesados, adaptando aquele espaço dentro das normativas legais em vigor aos tempos atuais, considero que Abrantes, mesmo depois da inauguração do Cineteatro São Pedro, continua a ficar em défice neste tipo de espaços de oferta cultural e que continua a haver necessidade na construção – e aqui não me refiro a um multiusos, porque não dará resposta a esta nossa ambição, ou este desafio ou desejo – de um centro cultural e de congressos para projetar Abrantes para fora de Abrantes”.

“É opinião do movimento ALTERNATIVAcom, e assumo o compromisso de trazer dados mais objetivos em futuras reuniões para fazermos uma análise conjunta, se assim estiverem de acordo”, terminou.

Por ocasião da ratificação de um despacho do vereador e vice-presidente da Câmara, João Gomes, que determinou a abertura do procedimento administrativo de classificação do edifício do “Cineteatro S. Pedro” como Monumento de Interesse Municipal, na reunião de Câmara de 5 de julho, o vereador Vasco Damas assumiu votar favoravelmente, mas fez declaração de voto perante o tema, defendendo que também o antigo Mercado Municipal deve ser classificado como tal, por responder a um conjunto de critérios que o tornam elegível.

Foto: Jéssica Filipe/mediotejo.net

Depois de o presidente de Câmara referir que, com esta classificação, “em causa está o facto de dar ênfase ao equipamento cultural e categorizar de forma a potenciar o investimento feito e a visão dos quadros de apoio comunitário que lhe estão afetos”, Vasco Damas sublinhou que a iniciativa “peca por tardia”.

Reconhecendo, ainda assim, a pertinência desta classificação “por razões históricas, patrimoniais, memória e de identidade consideradas política e tecnicamente válidas, como largamente consensuais e apoiadas pela comunidade”, Vasco Damas aproveitou a ocasião lembrar que também o antigo Mercado Municipal merece esta classificação como Monumento de Interesse Municipal.

“Antes tardia do que nunca, a classificação do edifício-berço do Mercado Municipal de Abrantes a que se usa chamar de antigo Mercado”, sugeriu.

Entende o ALTERNATIVAcom que este património edificado abrantino é elegível “como monumento de interesse municipal pelas mesmas razões genéricas admitidas como válidas para a classificação do Cineteatro de S. Pedro, nomeadamente o interesse do bem como testemunho simbólico e notável de vivências ou factos históricos, o valor estético, técnico ou material intrínseco do bem, conceção e singularidade arquitetónica, urbanística e paisagística, manutenção de caraterísticas construtivas de origem incluindo a sua traça modernista e os seus singulares painéis de azulejos, a preservação dos espaços e ambiências interiores, a extensão do bem e o que nela se reflete do ponto de vista da memória coletiva, a importância do bem do ponto de vista da investigação histórica ou científica, as circunstância suscetíveis de acarretarem diminuição ou perda da perenidade ou da integridade do bem, a relevante função comercial, cultural, recreativa e social para os abrantinos, e a materialidade e imaterialidade do património, constituindo uma referência incontornável para a cidade de Abrantes, a qual deve ser protegida”, defendeu.

Refira-se que a primeira proposta de classificação foi submetida a 15 de janeiro de 2004 pela Câmara Municipal de Abrantes, altura em que deu entrada o processo de classificação de âmbito nacional, enquanto Imóvel de Interesse Público, tendo o procedimento caducado em outubro de 2009 após revogação do despacho de abertura do processo de classificação, por o imóvel não ter valor nacional, e tendo sido enviado à Câmara Municipal de Abrantes para a ponderação da classificação como de Interesse Municipal.

Após comentário do vereador do ALTERNATIVAcom sobre o facto de o processo ter demorado 20 anos a resolver-se, o socialista João Caseiro Gomes, vice-presidente da Câmara, frisou que tal não se deve a “inoperância do município”.

“Foi um processo iniciado em 2004, na altura foi submetido o pedido junto do IPPAR e depois as entidades foram mudando o nome/designação, e na altura até estava em causa o pedido de classificação a nível nacional. Em 2010 foi-nos dito que não reconheciam esse interesse desse imóvel. Em 2017 demos novamente entrada com o processo, na altura a DGPC não desenvolveu prorrogação do pedido e voltou a cair novamente, e o edifício não era nosso. Agora sendo edifício municipal, achámos que era altura”, argumentou João Gomes.

Também o presidente da Câmara, Manuel Jorge Valamatos, lembrou que o município promoveu o processo de compra do Cineteatro para propriedade municipal, tendo adquirido a infraestrutura à Sociedade Iniciativas de Abrantes, recordando ainda a concretização do projeto de reabilitação e ampliação, bem como o arranque da obra e o assegurar de financiamento para a mesma. Segundo o autarca, a inauguração deverá ocorrer brevemente,sendo há muito aguardada, dado que a única sala de espetáculos da cidade se encontra de portas fechadas desde 2018.

Quanto a uma potencial categorização de Monumento de Interesse Municipal (MII) do antigo mercado municipal, Vítor Moura, vereador eleito pelo PSD na autarquia, que na mesma sessão já havia comentado que “lhe causa arrepios o multiusos de Abrantes ser instalado no Mercado Municipal”, reconheceu que a classificação como MII do “antigo mercado, a antiga praça de Abrantes, merece total acordo e não parece passível de qualquer discussão, tal a tradição e o interesse que os abrantinos historicamente sempre tiveram por aquele edifício”.

No meio do debate, o presidente de Câmara acabou por assumir, de forma inusitada, não querer associar o termo multiusos ao projeto de reconversão do antigo Mercado… que ao longo dos últimos anos assim tem sido apresentado pela autarquia, mesmo aquando a divulgação do projeto vencedor assinado pelos arquitetos José Maria Cumbre e Nuno Sousa Caetano.

“O antigo mercado… nunca pensámos que tenha de ser um multiusos. Eu falei num multiusos mas não é bem um multiusos. Precisamos de um espaço capaz, para termos feiras, a Feira Nacional de Doçaria, um espaço para ter congressos, eventos desportivos”, assumiu, para depois ir mais longe sobre esta sua nova visão quanto ao conceito que usualmente tem sido utilizado.

“Multiusos é uma palavra que acho que temos de riscar desta linguagem, precisamos reabilitar o nosso mercado e que ele cumpra esta função cultural e social importante”, declarou.

O autarca reconheceu que há necessidade de um novo espaço cultural em Abrantes que sirva instituições e entidades para realização de eventos e iniciativas, algo que tem sido reivindicado ao longo dos anos.

“As associações de estudantes muito reclamam e os nossos serviços de cultura reclamam muito um espaço. O Cineteatro S. Pedro não responde a eventos de maior dimensão. Não se consegue fazer uma Feira de Doçaria no cineteatro. Precisamos de um espaço indoor capaz”, reiterou.

Na ocasião, Manuel Jorge Valamatos mostrou grande crença no projeto vencedor da reconversão do mercado municipal antigo.

“O projeto que nós temos de requalificação do mercado é absolutamente extraordinário, que resulta de uma convocação dos arquitetos ao mais alto nível em Portugal, que teve dezenas de concorrentes, e acho que o projeto vencedor é absolutamente extraordinário. Também conseguimos com muito esforço e dedicação ter financiamento para essa grande obra, agora estamos nas fases processuais e vamos cumprir com aquilo que me tinha comprometido, que é levar à Assembleia Municipal para tomarem conhecimento e as pessoas poderem manifestar-se”, deu conta.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *