Oliveira do Mouchão - Pintura em azeite e pigmentos puros de Massimo Esposito. Créditos: mediotejo.net

“Está nas Mouriscas, no fim de uma rua, no começo do campo. É uma árvore que nos fala de transcendência, do tamanho da natureza. Quando olhamos bem para ela, sentimo-nos insignificantes”. Foi desta forma que o escritor José Luís Peixoto falou sobre a Oliveira do Mouchão – com 3350 anos – , frase escolhida por Francisco Lopes para iniciar o livro sobre a referida árvore que faz parte do património abrantino.

Apresentação do livro de Francisco Lopes e Paulo Alves , ‘Oliveira do Mouchão, Monumento Vivo’. Créditos: mediotejo.net

A cerimónia de lançamento do livro ‘Oliveira do Mouchão, Monumento Vivo’, uma edição municipal de autoria de Francisco Lopes (texto) e Paulo Alves (ilustrações) decorreu, na sexta-feira, 28 de outubro, nas instalações da SIFAMECA, em Mouriscas.

Manifestando-se “um grande admirador” do trabalho de Paulo Alves, Francisco Lopes explicou as razões que o levaram a “querer escrever este livro”, desde logo a sua “quase veneração pelos seres vivos que são as árvores. As árvores são a base da vida na terra”, disse lembrando o pensamento de alguns cientistas a propósito das alterações climáticas: “só as árvores nos poderão salvar”.

Defendeu que, “quando olhamos para a árvore podíamos tentar compreender a floresta e perceber que o conjunto das árvores é um super organismo que sustenta a vida na terra. E é por isso que de discute nomeadamente a desmatação das florestas tropicais etc. Mas há mais questões essenciais”.

As instalações da SIFAMECA – Sociedade Industrial de Fabricação Mecânica de Ceiras e Capachos, em Mouriscas, recebeu, na sexta-feira, a cerimónia de lançamento do livro ‘Oliveira do Mouchão, Monumento Vivo’. Créditos: mediotejo.net

Francisco Lopes, que confessou ter “uma paixão” por árvores, considerou que a sociedade tem “uma visão do mundo muito influenciada pelo darwinismo, quer da evolução das espécies animais e vegetais quer mesmo em termos sociais. Somos pela educação, conduzidos a um sistema de competição por vezes extremamente excessiva e por vezes muito prejudicial, quer em termos individuais para as nossas crianças e jovens em processo educativo, mas inclusivamente para o progresso das sociedades. Essa visão do mundo tem promovido a ideia, não tanto o Darwin mas aqueles que se apropriaram das suas teorias, que é apenas pela competição que conseguimos evoluir. Na realidade sempre houve cientistas que contrapuseram; existe uma outra maneira: a cooperação. E as árvores cooperam, ajudam-se entre si. Provavelmente sabemos muito menos do que as árvores sobre o ecossistema e sobre o ambiente em que estamos. Isso devia levar-nos a tentar compreender melhor o nosso papel na natureza”, refere.

ÁUDIO: FRANCISCO LOPES

A Oliveira do Mouchão, hoje propriedade pública, é património de todos e foi classificada como Árvores Monumental. Francisco Lopes referiu ainda outros exemplos de património como a Anta da Foz do Rio Frio, o Canal de Alfanzira, a Capela da Nossa Senhora da Guia, a Capela de Nossa Senhora dos Matos, a Cerâmica Tejo ou as pesqueiras e azenhas, com ligação à Oliveira.

Apresentação do livro de Francisco Lopes e Paulo Alves , ‘Oliveira do Mouchão, Monumento Vivo’. Créditos: mediotejo.net

Na sessão foi ainda apresentado o quadro ‘Oliveira do Mouchão’ obra de Massimo Esposito, pintada com pigmentos puros de azeite e foi exibido o documentário ‘Esparteiros: a arte de entrelaçar’, uma produção do Município de Abrantes com o apoio da EDP, no âmbito do Programa Tradições 2018-2020, realizado por Miguel Dinis.

Para pintar a Oliveira do Mouchão, Massimo Esposito utilizou o azeite e o pigmento puro, existente em várias cores. “Misturando. Os pigmentes puros têm um leque maravilhoso de cor e sendo pigmentos puros uma produção muito mais brilhante. Quando pintamos a óleo – os pigmentos eram puros – , o que faz bonito é o óleo de linho. Com o azeite, pintado sobre um tipo de cartolina especial, é bonito e dá esta evidência porque realmente é pigmento puro”.

ÁUDIO: MASSIMO ESPOSITO

No desenho, além da árvore pintada em várias tonalidades de verde, pode observar-se uma escorrência de azeite. O artista explica que fez “uma conta” de quanto azeite, provavelmente, poderia ter sido produzido com a azeitona daquela árvore durante 3350 anos. “São dezenas de milhares de litros, uma criação maravilhosa, silenciosa de um produto maravilhoso que é o azeite que está a escorrer, a base dela está a refletir neste azeite”.

As instalações da SIFAMECA – Sociedade Industrial de Fabricação Mecânica de Ceiras e Capachos, em Mouriscas, recebeu, na sexta-feira, a cerimónia de lançamento do livro ‘Oliveira do Mouchão, Monumento Vivo’. Créditos: mediotejo.net

A árvore já muitas vezes visitada por Massimo Esposito, um pintor italiano há mais de duas décadas a viver em Abrantes, mesmo quando para junto dela leva amigos vindos de Itália, foi agora pintada mas o artista, quanto ao tempo, não fez contas e desconhece as horas que demorou em frente à tela. “Não sei, porque pinta-se durante um período depois tem de se deixar absorver o azeite que não é como o óleo de linho” que seca em três dias, diz.

Trata-se de uma “experiência nova” para Massimo Esposito que referiu ao nosso jornal integrar “um projeto que a Câmara [de Abrantes] me tinha apresentado em 2019. Pensámos em fazer uma série árvores importantes da zona. Mas depois chegou a pandemia e bloqueou tudo”. No entanto, o projeto “é para seguir” com a vontade de aliar o património natural à arte. “As árvores são sempre bonitas”, afirma.

Exibição do documentário ‘Esparteiros: a arte de entrelaçar’, realizado por Miguel Dinis, com o apoio do Município de Abrantes e da EDP, no âmbito do Programa Tradições 2018-2020. Créditos: mediotejo.net

Por seu lado, Miguel Dinis, realizador do documentário ‘Esparteiros: a arte de entrelaçar’, falou sobre o desafio “muito interessante” numa área que “não costumo trabalhar”, que passou pela exigência de “haver uma documentação em vídeo da atividade” do Programa Tradições 2018-2020. Na altura o desafio foi basicamente o formato desse registo”.

Em declarações ao mediotejo.net disse que “o segredo deste documentário tem a ver com a emoção e a capacidade de contar histórias das pessoas que falam no documentário e que têm uma vida carregada de emoção e de trabalho. Nota-se nas palavras deles o peso dessa história, dessa evolução, dessa preocupação com o facto de talvez ser uma arte em vias de extinção”.

ÁUDIO: MIGUEL DINIS

Para Miguel Dinis “essa emoção acaba por transparecer e levar-nos a ser imbuídos nessa nostalgia de que falam, de umas Mouriscas com muitas gente a trabalhar na arte e que agora está reduzida a três pessoas”. O realizador já conhecia os capachos mas admitiu desconhecer “a complexidade que transmite esta arte de entrelaçar, uma atividade física que é muito exigente. Aprendi a descobrir e conta uma história do passado que se quer futuro que tem dificuldade em desenhar essa futuro. Foi muito interessante”, garantiu.

As instalações da SIFAMECA – Sociedade Industrial de Fabricação Mecânica de Ceiras e Capachos, em Mouriscas, recebeu, na sexta-feira, a cerimónia de lançamento do livro ‘Oliveira do Mouchão, Monumento Vivo’. Créditos: CMA

“É uma mais valia estes artistas darem a conhecer as nossas raízes, o nosso ADN”, disse por seu lado o anfitrião Pedro Matos, presidente da Junta de Freguesia de Mouriscas.

O presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, também falou da identidade, raízes e da história dos abrantinos fazendo uma referência ao espaço que caracterizou de “simbólico”. Referindo-se ao projeto desenvolvido em parceria com a EDP disse ser “de grande sensibilidade”. Lembrou que a cerimónia estava agendada há dois anos e meio, com a pandemia a interromper esta apresentação.

As instalações da SIFAMECA – Sociedade Industrial de Fabricação Mecânica de Ceiras e Capachos, em Mouriscas, recebeu, na sexta-feira, a cerimónia de lançamento do livro ‘Oliveira do Mouchão, Monumento Vivo’. Créditos: mediotejo.net

No final porque a apresentação envolveu oliveira, ceiras e capachos, foi feita uma prova de azeite novo, de azeitonas igualmente novas e por ser Mouriscas não faltaram as famosas passas fritas.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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