Idalina Serafim Lopes é colaboradora da Biblioteca Municipal António Botto/Município de Abrantes e é a responsável pelo SELESE – Serviço de Leitura em Suportes Especiais. Foto: mediotejo.net

Idalina Serafim Lopes é deficiente visual, mas não é a condição que a define. Aos 9 meses de idade, em consequência de uma meningite, perdeu totalmente a visão, mas não baixou os braços e hoje vê o mundo da sua própria maneira. Não é invisual nem é invisível, é cega. Cega numa sociedade ainda mal preparada para permitir a participação ativa destes cidadãos na comunidade.

“Sou deficiente visual, ou seja, sou cega, que é assim que se designa. Não sou invisual, não sou invisível como muita gente diz, até porque a Associação é a Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal, não tem outro nome. Por isso, nós somos cegos ou deficientes visuais”, começa por explicar Idalina.

Atualmente é colaboradora da Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes, sendo também responsável pelo SELESE – Serviço de Leitura em Suportes Especiais. Com a perda da visão aos 9 meses, Idalina descreve uma situação que não foi fácil. Mas os pais, agricultores e com poucos conhecimentos sobre a deficiência, tentaram arranjar forma de lhe permitir o desenvolvimento necessário para o exercício da sua cidadania.

Com a ajuda de vizinhos, procuraram escolas para deficientes visuais e foi em Coimbra que Idalina aprendeu muito do que sabe hoje.

“Nessa altura, não era como hoje em que os meninos vão para a escola igual e são inseridos em turmas iguais. Eu fui para a escola em Coimbra, para um colégio, que era o que havia. Havia em Coimbra, em Lisboa e no Porto”, conta Idalina.

Afastada dos pais, foi onde aprendeu a ler e a escrever Braille, mas muito mais que isso. “Aprendi a andar na rua, aprendi as coisas do quotidiano, desde vestir, a lavar, a tratar de outras crianças que tinham deficiência visual e outras deficiências. Todos os dias nós tínhamos uma pessoa destinada de quem íamos tratar, como se trata uma criança, embora muitos deles já fossem adultos”, acrescenta.

Depois de concluído o ensino primário, a funcionária da Câmara de Abrantes foi integrada no ensino dito regular, tendo contado com o apoio de professores do ensino especial que transcreviam os seus elementos de avaliação para serem posteriormente corrigidos.

“Iam ajudar-nos a conhecer a escola, ensinar os símbolos matemáticos, porque há muitos símbolos que são aprendidos depois de sairmos da escola primária (…) e esses professores do ensino especial iam-nos ensinar como é que eles se faziam em Braille”, refere Idalina.

Terminado o seu percurso escolar, integrou uma associação onde aprendeu o exercício de diversas profissões. Mas o seu trajeto mudou de rumo e acabou por encontrar o seu lugar na Biblioteca Municipal António Botto, onde foi recebida por uma equipa de braços abertos pronta a acolher e a ajudar a integrar.

“Acabei por vir para aqui, por não fazer nada daquilo que fui lá aprender, digamos. Eu pouco percebia de bibliotecas, digo-lhe sinceramente. Hesitei muito em vir, mas depois encontrei colegas que me ajudaram muito. Uns ensinaram-me a catalogar, outros ensinaram-me a tratar os livros, outros ensinaram-me como é que eu deveria fazer quando me pediam um livro e ensinaram-me aquilo que estou a fazer”, contou.

Anos mais tarde, equilibrou o ofício com o regresso aos estudos e foi na Associação de Bibliotecários, em Lisboa, que tirou o curso das Bibliotecas. “Aí foi onde eu aprendi, embora muitas coisas eu já soubesse fazer, já tinha aprendido aqui”.

Desde 10 de junho de 1990 que a Câmara Municipal de Abrantes tem em funcionamento o SELESE – Serviço de Leitura em Suportes Especiais, direcionado para deficientes visuais e outros portadores de deficiência. “A Biblioteca faz intercâmbios com a Biblioteca Nacional, com a Biblioteca Camões, e com a Biblioteca do Porto. Tem livros gravados, em que em vez de a pessoa estar a ler o livro, está a ouvir, porque há pessoas que para além de não conseguirem ler Braille, também não conseguem escrever ou porque têm deficiência nas mãos, ou porque têm outras deficiências para além da visão e então não conseguem usar as mãos para ler o Braille. Alguém está a ler e a pessoa ouve o livro”, explica a responsável pelo serviço.

Durante 10 anos o SELESE, sediado na Biblioteca António Botto, editava em som os artigos da revista “Grande Reportagem”, chegando até a receber pedidos de envio para o Brasil. Este serviço de leitura é uma referência na comunidade e disponibiliza livros em linguagem braille, áudio livros e livros em formato digital. O serviço é gratuito e para usufruto basta a inscrição na Biblioteca Municipal.

Além dos serviços prestados, o SELESE marca também presença na comunidade, com a realização de ações como o Dia da Bengala Branca e o Dia Internacional da pessoa com deficiência. O serviço apoia deficientes do concelho de Abrantes ou de município próximos, ligados aos distritos de Castelo Branco, Santarém e Portalegre. Segundo Idalina Lopes, “essas pessoas vêm pouco à biblioteca, vem uma ou duas, as que são aqui de Abrantes e podem pedir um livro por email, por telefone ou por carta”.

“No caso de a pessoa querer um livro digital, eu mando-lhe por email, no caso de a pessoa querer um livro em Braille eu envio-lhe através dos correios e esses livros são isentos de portes. Nem a Câmara paga, nem a pessoa que o recebe vai pagar, é um serviço prestado gratuitamente a nível nacional pelos correios”, refere.

As dificuldades que ultrapassam o fator mobilidade

Atualmente, em Portugal, 23.396 pessoas não conseguem ver e 3,7% da população tem muita dificuldade em realizar esta tarefa. Com mais de 30 anos de existência, a ACAPO (Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal) procura dar resposta a estas dificuldades, trabalhando em prol da inclusão das pessoas com deficiência visual e da promoção da sua qualidade de vida, de forma a potenciar o exercício da cidadania numa sociedade verdadeiramente inclusiva.

A Associação tem desenvolvido o seu trabalho com o objetivo de habilitar e reabilitar as pessoas com deficiência visual, representando e defendendo os seus direitos e cooperando com todas as entidades e particulares que queiram participar na construção de uma sociedade mais inclusiva e acessível a todos. Apesar de tudo, há ainda um longo caminho a ser trilhado.

“A grande dificuldade que nós temos é quando estamos na paragem do autocarro, passa o autocarro e não sabemos para onde é que ele vai, porque passam uns poucos ao mesmo tempo”

nota Idalina Lopes.

Mas a situação não é igual em todo o território. Em Lisboa, Idalina refere que os autocarros são numerados e “nós já sabíamos que íamos apanhar o 51 ou o 52 e aí o motorista quando parava dizia o número do autocarro. Assim já sabíamos se íamos entrar ou não”.

Comparando com o cenário encontrado em Espanha, Idalina nota alguma desorganização no planeamento urbanístico nacional.

“Em Espanha, todos os postes de eletricidade, sinais de trânsito, caixotes do lixo, tudo aquilo que nós vemos à beira da estrada, eram encostados às casas, do outro lado já sabíamos que estava livre. Não havia nada que nos impedisse de andar”, refere.

“Aqui não, é tudo no meio do passeio, o sinal de trânsito é no meio do passeio, o poste da eletricidade é no meio do passeio. Para a mobilidade e até mesmo para as cadeiras de rodas, é a grande dificuldade que as pessoas têm. Para os deficientes motores até a própria calçada é uma impossibilidade de andar”, acrescenta.

Existem alguns acessórios que permitem amenizar estas dificuldades e auxiliar no dia a dia dos deficientes visuais. Para além da bengala utilizada para identificar obstáculos e o alfabeto Braille, Idalina deu-nos a conhecer um telemóvel adaptado a estas necessidades que opera por voz, identificando chamadas, mensagens e os remetentes. “Este é um telemóvel (…) que diz o que se vê no ecrã”, explicou.

Também no computador Idalina consegue ouvir os emails que lhe chegam. “Isto que eu tenho aqui são uns fones para não incomodar a minha colega, quando estou ao computador estou sempre com os fones nos ouvidos e estou a ouvir aquilo que me escrevem. Para além disso, eu não tenho aqui, mas também existe a linha Braille. Se me mandar um email e se eu tiver a linha Braille ligada, ele escreve em Braille aquilo que foi escrito no email”, referiu Idalina.

Mas nem tudo é fácil e ainda são necessárias diversas inovações para permitir a total autonomia destes indivíduos para quem, muitas vezes, uma simples ida ao supermercado se revela um verdadeiro problema.

“As nossas maiores dificuldades são nas etiquetagens. Quando compramos uns iogurtes aparece a data de validade e nós aí não sabemos quando é que ela termina (…). Ou chego ao balcão e digo que preciso de ajuda e alguém me vai ajudar ou então vou com alguém. Ou então vou às lojas pequeninas, também faço isso”

Idalina Lopes

Na comunidade abrantina regista-se também algum isolamento por parte destes indivíduos que, muitas vezes não são integrados na comunidade. A responsável pelo SELESE conta que existem alguns deficientes visuais, “mas muitos deles estão fechados em casa, porque as pensões são muito boas, mas depois os pais agarram-se a elas e os filhos ficam fechados em casa quase sem sair. Não lhes dão uma profissão porque se valem da pensão e pensam que se arranjarem um emprego esta lhes é retirada. Existem vários que eu tenho conhecimento que hoje estão no isolamento”, afirma.

ÁUDIO | Idalina Serafim Lopes, responsável pelo SELESE – Serviço de Leitura em Suportes Especiais

“Eu acho que há muito a fazer ainda. Eu reparei que quando fizeram a notícia do Dia do Braille, quando meteram a minha fotografia descreveram a fotografia, disseram que eu estava lá e é isso que deve acontecer, é descrever as imagens”, nota Idalina a propósito da notícia publicada pelo mediotejo.net, relativa ao Dia Mundial do Braille.

As paragens de autocarro revelam-se também um perigo para a mobilidade dos deficientes visuais. Por não serem colocadas até ao chão, a bengala não deteta um obstáculo e Idalina explica que se não circular “com atenção, vou lá bater com a cara porque em baixo não tem sinalização nenhuma. É como os sinais de trânsito, nós vamos no passeio e a bengala não chega lá”.

Além disso, também durante as Festas da Cidade e a Feira Nacional da Doçaria, em que o Largo 1º de Maio é transformado para acolher as iniciativas, os deficientes visuais têm dificuldade em localizar o novo local destinado à paragem dos autocarros.

“Muitas vezes, nós temos que pedir sempre ajuda a alguém ou para apanhar o autocarro ou para chegar até à paragem porque nunca sabemos onde é que é”, acrescenta Idalina Lopes.

Na Avenida 25 de Abril, uma das principais avenidas da cidade, Idalina encontra alguns perigos relativamente à segurança dos indivíduos. “Eu acho que aí devia haver uns semáforos. Para além dos deficientes, há muita gente que é atropelada nesse sítio, às vezes há assim uns dissabores. E já tenho estado na passadeira e não param, tenho de ser eu a esperar, mesmo de bengala isso acontece”, aponta a colaboradora da CMA.

“Devia haver uns semáforos, mas não é semáforos iluminados, é semáforos sonoros, (…) em que o semáforo está a apitar para as pessoas cegas saberem que está para elas atravessarem a estrada”, concluiu.

SIBS lança o primeiro cartão inclusivo para pessoas com deficiência visual

Com vista a simplificar o dia a dia dos portadores de deficiência visual a SIBS lançou, na data em que se assinalou o Dia Mundial do Braille, a 4 de janeiro, o primeiro cartão inclusivo para pessoas com deficiência visual certificado pela ACAPO – Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal, para que os seus utilizadores possam ter maior autonomia, segurança e privacidade. Esta solução inclui cartões bancários e não bancários. com identificação e caracteres em Braille e permitirá aos utilizadores cegos e com baixa visão distinguir os vários tipos de cartão por tipo de utilização.

Trata-se de uma tecnologia e solução próprias desenvolvidas pela SIBS, que passam a estar disponíveis a todos os seus clientes e parceiros, em Portugal e no estrangeiro que pretendam incluir esta solução na sua oferta.

“Trabalhamos diariamente para colocar o melhor da tecnologia ao serviço da sociedade, contribuindo para um futuro mais equilibrado e seguro. É com orgulho que, depois de quase dois anos de desenvolvimento e melhoramento do projeto, somos mais uma vez agentes de mudança, assegurando a utilização de cartões de forma autónoma, privada e segura, em terminais de pagamento e caixas automáticos, por parte de um cego ou amblíope”, afirma em comunicado Gonçalo Campos Alves, Diretor Geral da SIBS Cartões.

Exemplo de um cartão com identificação e caracteres em Braille, lançado pela SIBS. Créditos: SIBS

O projeto de identificação de cartões inclusivos para pessoas com deficiência visual responde a um desafio já identificado pela ACAPO, mas para o qual ainda não existia uma resposta eficaz. Este desafio foi assumido pela SIBS, no âmbito do programa de Sustentabilidade “Verde-Código-Verde”, e em linha com o seu propósito de desenvolver soluções com impacto no dia a dia e criar valor para as comunidades onde está presente, promovendo uma sociedade mais justa e equitativa.

“Este projeto é um passo importante não só para as pessoas cegas ou com baixa visão, e para todos os que lhes são mais próximos, mas também para a consciencialização da comunidade sobre a importância do acesso igual e acessível a todos. Desta forma, um maior número de entidades poderão adotar no seu dia-a-dia práticas inclusivas, quer para a informação que produzem quer para o relacionamento com os seus clientes” afirma na mesma nota Rodrigo Santos, Presidente da Direção Nacional da ACAPO.

Com esta solução, qualquer pessoa poderá identificar tanto o tipo de cartão – bancário, de fidelização, de acesso ou outro; débito, crédito, pré-pago, entre outros no caso dos cartões bancários – como a entidade emissora, com plena autonomia, privacidade e segurança. A inclusão do Braille nos cartões complementa assim o cortante lançado em 2018, um corte efetuado no cartão em formato de meio lua que permite às pessoas cegas ou com baixa visão identificarem o lado correto para utilização do mesmo.

Jéssica Filipe

Atualmente a frequentar o Mestrado em Jornalismo na Universidade da Beira Interior. Apaixonada pelas letras e pela escrita, cedo descobri no Jornalismo a minha grande paixão.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *