Ficou ainda o alerta para a falta de alojamento acessível para estudantes e uma reflexão sobre a importância das novas instalações da ESTA que possam ajudar a escola a crescer e a desenvolver-se.
O tema surgiu pela voz dos vereadores do PSD e do ALTERNATIVAcom, no período antes da ordem do dia, na reunião de Câmara do dia 3 de setembro. Após os alertas, dúvidas e preocupações da oposição, o presidente Manuel Jorge Valamatos (PS) admitiu ter as mesmas preocupações dos vereadores, mas deixou claro que à autarquia cabe trabalhar para a concretização das novas instalações da Escola Superior de Tecnologia, enquanto o restante diz respeito à gestão do Politécnico de Tomar, questões de ordem pedagógica, científica e académica.
Para começar, Vítor Moura, vereador eleito pelo PSD na Câmara de Abrantes, referiu-se ao facto de “à semelhança do que vem acontecendo em anos anteriores, a primeira fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior mostra que a nossa Escola Superior é pouco procurada”.
“À exceção do curso de comunicação social, que normalmente é bastante preenchido – é porque ele tem boa reputação a nível nacional – é a conclusão que se tira. De novo ele foi preenchido na primeira fase do concurso nacional em 100% das vagas”, prosseguiu.
Adiantando que nos restantes três cursos das 73 vagas apenas se preencheram 5, deixou ainda a indicação de que apenas uma vaga foi preenchida no curso de Engenharia Mecânica, “que seria aquele que tanto pela tradição, como por aquilo que ainda hoje industrialmente se vive no concelho de Abrantes, seria aquele que mais atividade tem com o nosso concelho, a verdade é que Engenharia Mecânica só teve uma vaga preenchida”, disse, alertado.

“Isto vem dar razão ao que dizíamos já até em campanha eleitoral, há mais de três anos. É importante refletirmos sobre isto. Porque não precisamos apenas de novas instalações para a ESTA, continuamos a achar que é preciso continuar a discutir o ensino superior em Abrantes e, sobretudo, a garantir a qualidade desse ensino superior em Abrantes”, sublinhou Vítor Moura.
De seguida, também o vereador Vasco Damas, eleito pelo ALTERNATIVAcom, quis fazer uma pequena análise às colocações da primeira fase na ESTA, considerando que relativamente ao ano letivo 2024/2025, “os números disponíveis mostram que a ESTA ofereceu este ano menos vagas do que nos últimos dois anos”.
Segundo o vereador do movimento ALTERNATIVAcom “a oferta de vagas de ensino superior em Abrantes caiu este ano cerca de 12%, passando de 126 para 111 vagas”.
Além disso, fez referência ao facto de o curso superior de Cinema Documental não ter aberto este ano. “Apesar de sabermos que este curso está em fase de reestruturação e que é possível que vá surgir um novo curso ligado ao cinema, neste momento e com estes dados, achamos que este cenário é a todos os títulos contraditório com a intenção anunciada pelo Município de Abrantes em 25 de outubro do ano passado, por altura do Congresso da Federação Portuguesa de Escolas de Cinema e Audiovisual, de vir a realizar uma bienal do cinema e audiovisual em Abrantes após a conclusão das obras de requalificação do Cineteatro S. Pedro”, disse.
“A agravar esta realidade, o número de alunos colocados na ESTA nesta primeira fase é o menor nos últimos quatro anos, tendo sido preenchidas apenas 39% das vagas, contra um conjunto de indicadores que tem vindo a decrescer desde 2021”, apontou, com preocupação.

“Esperamos e desejamos que nas próximas fases de colocação se verifique uma recuperação e perguntamos ao Sr. Presidente como interpreta estes números e se à semelhança do movimento ALTERNATIVAcom também está preocupado com este aparente retrocesso no ensino superior em Abrantes”, questionou,
Ligado ao tema, o vereador da oposição apontou ainda que um dos problemas que pode estar na razão da falta de atratividade do ensino superior em Abrantes passa pela “inexistência de habitação para estudantes”.
Aproveitou para sugerir, conforme o que já fazem e estudam outros municípios do país, a “implementação de programas intergeracionais para o alojamento de estudantes em casas de idosos isolados, em parceria com IPSS, ONG, associações académicas locais, e serviços sociais de estabelecimentos de ensino superior”.
Vasco Damas falou ainda da plataforma promovida pela MEO e a funcionar em Lisboa e Coimbra designada Partilha Casa, “que tem como principal objetivo a divulgação de programas que fomentam a partilha de alojamento entre seniores e jovens estudantes universitários em circunstâncias de plena convivência”.
“O que queremos perguntar, e eventualmente uma pergunta com alguma sugestão, é se o executivo municipal já ponderou alguma solução de habitação partilhada com um sénior para mitigar o problema da falta de habitação ou do custo elevado do arrendamento em Abrantes para os estudantes do ensino superior e profissional?”, terminou Vasco Damas.
Perante o exposto pelos vereadores, Manuel Jorge Valamatos (PS), presidente da Câmara Municipal de Abrantes, mostrou estar alinhado com os receios manifestados. “As vossas preocupações são as nossas preocupações. É por isso que nós temos de fazer o nosso trabalho”, começou por responder, defendendo que “temos de fazer o nosso trabalho: uma nova ESTA, mais residência para estudantes, maior capacidade de atratividade dos alunos”.

Manuel Jorge Valamatos não deixou de frisar que o resultado da primeira fase do concurso “está de acordo com os últimos anos”, mas assumiu que ficaria feliz com uma maior oferta formativa em Abrantes e com maior número de alunos colocados.
“Também acho e ficaria todo contente em ter mais cursos e ter mais gente colocada, estamos todos de acordo. Acho que fui bem explícito. Vamos fazer a nossa parte, criar condições para mobilizar uma comunidade inteira para ter ensino superior absolutamente extraordinário no nosso concelho e na região”, notou.
Deixou ainda claro que pelas vozes da presidência do IPT, da direção da ESTA, dos docentes e alunos, as atuais instalações não têm condições que permitam à ESTA desenvolver-se e crescer, mesmo em termos estruturais. Situação que também a associação de estudantes lhe tem apontado, alegou,
“Tenho falado com alguma frequência com a associação de estudantes da ESTA e os alunos sentem esta fragilidade das condições físicas”, embora reconheça que também os vereadores têm razão.
“Todos têm razão também, porque não é só as condições físicas que fazem o seu todo, mas as condições físicas dizem-nos nos respeito a nós. A parte científica e pedagógica da Escola tem muito a ver com a gestão do Politécnico, digamos que é uma parte mais académica e científica”, justificou.
O autarca referiu-se ao projeto criado para as novas instalações da escola superior, no Tagusvalley, que já ronda os 8 milhões de euros e falou na importância de uma nova ESTA “que até nos dava alento para querermos mais. Era a nossa exigência, nós todos dizermos que fizemos a nossa parte, conseguimos fazer uma nova Escola Superior de Tecnologia”.

Não sendo possível crescer e aumentar o edifício no centro histórico, segue para o Parque de Ciência e Tecnologia (Tagusvalley), em Alferrarede, onde já existem gabinetes e laboratórios, e equipamentos tecnológicos que incorporam a ESTA e “é dentro do Parque de Ciência e Tecnologia que tem de se desenvolver”.
“Foi isso que foi desenhado, nós temos estratégia e temos um plano estratégico há muito tempo que se percebeu que a nova ESTA tem que acontecer”, frisou Valamatos, lembrando a recente reprogramação para candidatar a construção das novas instalações ao Fundo de Transição Justa para tentar obter financiamento através da CCDR Centro.
Quanto ao alojamento para estudantes, referiu-se à preparação de uma candidatura para uma nova residência no edifício junto ao Liceu/Escola Dr. Manuel Fernandes, e que no passado já serviu para esse efeito. Caso avance, o edifício poderá ainda contemplar uma zona a ser usada também pela escola.
Além disso, Manuel Jorge Valamatos reconheceu o esforço da autarquia, nomeadamente com através da atribuição de bolsas de estudo já específicas para alunos que frequentem a ESTA. Por outro lado, deu nota de que o CTeSP de Equinicultura e Atividades Hípicas que se estreia na oferta formativa da EPDRA em Mouriscas em parceria com a autarquia e o Politécnico de Santarém tem tido “muitos candidatos”.
Quanto às novas instalações da ESTA, recorde-se que o projeto foi apresentado em abril de 2021, no Tagusvalley (Tecnopolo do Vale do Tejo) – Parque de Ciência e Tecnologia. Em maio de 2022, o projeto para a nova Escola Superior de Tecnologia de Abrantes do Instituto Politécnico de Tomar (ESTA-IPT), recebeu aprovação por parte do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, podendo assim avançar o investimento inicialmente previsto de 5 milhões de euros para concretizar esta obra pública – hoje já rondará os 8 milhões de euros.

O dono de obra será a Câmara Municipal de Abrantes. O projeto incidirá na intervenção de reconversão de parte do edifício E9 (antigos pavilhões da CUF), integrado no conjunto edificado do Parque de Ciência e Tecnologia, em Alferrarede.
A autarquia procura encontrar financiamento para esta obra, cujo custo já aumentou e deve rondar os 7 ou 8 milhões de euros, tendo inclusive sido submetida candidatura pela autoridade gestora do Programa Regional do Centro (Centro2030) à Comissão Europeia para criação da futura Escola Superior de Tecnologia de Abrantes, no âmbito do Fundo de Transição Justa (FTJ).
Recorde-se que o FTJ tem 65 milhões de euros para a sub-região do Médio Tejo no âmbito do fecho da Central a carvão do Pego (concelho de Abrantes).
