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A partir da memória dos operários fabris da CUF/UFA em Alferrarede, foram dados os primeiros passos no caminho da preservação e divulgação da memória do complexo industrial ali erigido no século XX, numa busca que resultou num documentário que inclui testemunhos de trabalhadores ou familiares da “malta da farda azul”. Um trabalho da Associação Médio Tejo Criativo, com produção e realização de Margarida Cartaxo e Bruno Ganhão, que quis registar o passado e projetá-lo para memória futura, e que levou à comoção de todos quantos passaram pela ‘aldeia’ e recordam as amizades, as condições de trabalho, os tempos livres e as colónias de férias pelo país. A única certeza é que ainda há muito por descobrir e que são os trabalhadores e familiares os detentores do maior tesouro deste império: as memórias, os objetos, as fotografias e documentos que estes são agora convidados a partilhar ou doar, para garantir que não se apague este capítulo da história e da memória coletiva de Alferrarede e do concelho de Abrantes.

Em meia hora se recordam os tempos em comunidade, naquela ‘aldeia’ que à época deu condições acima da média aos envolvidos, onde nada faltava, desde a escola para os filhos, cantina, posto médico, piscinas e polos desportivos, e a saudosa colónia de férias para os miúdos. O desafio reside em levar mais além o trabalho de pesquisa e levantamento do espólio sobre a CUF em Alferrarede, para que possa ser dado à estampa e colocado à disposição dos locais e dos visitantes, demonstrando o significado do legado deixado pelo industrial Alfredo da Silva em Abrantes, a par daquele que construiu no Barreiro.

O documentário exibe o património edificado daquele complexo industrial que vai ruindo na sua maioria. Paredes que se falassem teriam muitas histórias para contar. E foi nisso que os jovens Margarida e Bruno pensaram quando se dedicaram a este projeto, pegando no que resta da “malta da farda azul” e companhia, e registando testemunhos, relatos, episódios, pequenas memórias que ajudam a compor o quadro sobre o que era Alferrarede nos enérgicos anos da CUF (Companhia União Fabril)/ UFA (União Fabril do Azoto).

Indústria determinante para o desenvolvimento da região no século XX, a par da MDF (Metalúrgica Duarte Ferreira), em Tramagal, ou das Fundições do Rossio de Abrantes, em Rossio ao Sul do Tejo, a presença da CUF ainda nos dias de hoje se faz sentir no território, apesar da ausência da atividade fabril. Prossegue o pulsar do povo que dela fez parte e a sentiu como sua.

Alfredo da Silva, considerado o maior industrial português do século XX. Foto: DR

O Grupo CUF remonta a 1865, ano em que lhe foi concedido o alvará de licenciamento para a produção de sabões, produção de estearina (velas) e óleos vegetais. Entre os seus elevados investimentos surge a indústria dos adubos. Na década de trinta, a CUF era detentora de um império com fábricas em Lisboa, Barreiro, Alferrarede, Soure, Canas de Senhorim e Mirandela, e na altura chegou a empregar 16 mil pessoas.

Atualmente o grupo desdobra-se entre a área da produção de óleo e azeite, setor da saúde com hospitais e clínicas, participação na Brisa e as unidades químicas em Estarreja, distrito de Aveiro.

Este documentário, produzido em 2018 e exibido pela primeira vez no DOC Lisboa, faz o resgate ao esquecimento das “histórias que merecem ser contadas, pela voz de quem as viveu”, confrontando o passado com o presente, entre aquilo que ali existia e o que agora resiste e resta. Foi apresentado pela primeira vez em Abrantes, numa sessão pública que decorreu na tarde de domingo, do dia 13, no Tagusvalley (antiga Quimigal), o Tecnopolo do Vale do Tejo – Parque de Ciência e Tecnologia.

Juntando muitos dos trabalhadores, familiares e descendentes de pessoas que viveram na era da CUF em Alferrarede, a sessão permitiu a visualização do filme mas também a conversa e partilha sobre o passado, o presente e o que poderá ser o futuro.

Algumas das imagens do documentário. Foto: DR

O documentário surgiu da confluência de interesses numa conversa entre Sónia Pedro, da Associação Médio Tejo Criativo, e Margarida Cartaxo, Bruno Ganhão e Marta Mendes. Resultou de um projeto financiado pelo FINABRANTES, programa de apoio ao associativismo do Município de Abrantes.

Trata da “memória dos trabalhadores, das gentes, de tudo o que se passou em Alferrarede, em volta da CUF, da UFA, das unidades fabris que existiam neste espaço”, começou por dar conta Sónia Pedro, moderadora da sessão.

“Durante o século passado, a CUF de Alferrarede foi comprada em 1907 e durante todo o século, até final dos anos 80, estas unidades estiveram em laboração e desenvolveram não só a região, como toda a aldeia ganhou muita vida com estas fábricas. Tal como todas as outras fábricas que se desenvolveram à volta”, mencionou.

“Somos filhos, alguns trabalhadores, todos temos memórias e ligações a estes espaços, e todos nos identificamos com estas vivências que aqui vão ser partilhadas”, indagou.

Momentos alusivos à recolha de imagem no complexo industrial em Alferrarede. Foto: DR

O filme aborda o património edificado industrial na freguesia de Alferrarede que se encontra inutilizado e em ruínas, salvo algumas exceções como é o caso do espaço da antiga Quimigal, hoje Tagusvalley – Tecnopolo do Vale do Tejo

O património da CUF era tão extenso que permitia aos trabalhadores e familiares residirem e fazerem vida sem sair dos terrenos da empresa. Daí ser conhecida a área como “a aldeia”, dentro de Alferrarede, que contava além dos edifícios fabris, com o seu próprio ‘quartel’ de bombeiros, um bairro para os trabalhadores, uma escola para os filhos destes, uma cantina, um posto médico, três piscinas e um campo de futebol, entre outras instalações, além de permitir participação em colónias de férias, tudo condições, à época, acima do que era usual.

Os realizadores deixaram uma comunicação em vídeo, estando fora do país. Bruno Ganhão, sendo natural da Margem Sul onde a CUF também teve grande impacto na vida das populações, nomeadamente no Barreiro, associou-se também à história que marcou Alferrarede, numa outra dimensão.

CUF Alferrarede
Antigo espaço industrial a CUF, em Alferrarede. Foto: mediotejo.net

Falando nas várias dificuldades com se depararam na produção deste documentário, começando por salientar a questão financeira que só foi sendo ultrapassada graças a patrocinadores que se associaram, aludindo também, em jeito de curiosidade, às colónias de vespas que estabeleceram morada no edificado da CUF em Alferrarede e que tornaram desafiante a recolha de imagens e obrigaram a ter de vestir um fato de apicultor cedido pelo sogro.

Mencionou que ponto assente foi “respeitar e honrar as histórias que estas pessoas incríveis partilharam connosco”.

Já Margarida Cartaxo, de Abrantes, disse que “este é um documentário sobre ligações, memórias, identidades e impacto num território, que é Alferrarede. Felizmente conseguimos resgatar ao esquecimento estas histórias que merecem ser contadas pela voz de quem as viveu. E agora fazem parte do nosso arquivo coletivo. E isso para nós foi uma grande vitória; e poderem hoje ver essa história e partilharem isso, é para nós o que sempre quisemos. Foi o nosso grande objetivo”.

“Sem vós esta história não teria visto a tela”, garantiu, acrescentando que iriam tomar as “as medidas necessárias para poder disponibilizar na internet este documentário”, ficando disponível o acesso a qualquer pessoa que queira saber mais sobre o património da CUF.

CUF Alferrarede
Foto: mediotejo.net

No auditório, para uma breve conversa alusiva ao documentário, esteve Pedro Saraiva, responsável pelo Tagusvalley – Parque de Ciência e Tecnologia, que disse ser “um orgulho e um honra” o facto de a apresentação ao público desta obra ter sido feita naquelas instalações. Quanto ao impacto do documentário, que viu pela primeira vez, disse ser “o assinalar de uma memória, de uma vida e do desenvolvimento”, além do “registo necessário e importante para não esquecermos o passado, e olharmos para o futuro com os olhos postos naquilo que foi e naquilo que são as nossas raízes”.

Também Luís Dias, vereador da Câmara Municipal de Abrantes com o pelouro da Cultura, foi orador nesta sessão e disse ser um “regozijo” assistir a todos os tributos que enaltecem a memória, “que enobrecem o sentimento de pertença e valorizam a memória coletiva, e de alguma maneira, imortaliza todos aqueles que fizeram a história da CUF/UFA, em Alferrarede”.

O vereador pediu que não se fique por aqui, lembrando o potencial que existe em termos de partilha da memória da CUF no concelho de Abrantes.

Foto: mediotejo.net

“É muito importante que este seja o primeiro passo para valorizar o património de Alferrarede. Eu também sou filho de alguém que andou de farda azul a vida toda, nas Fundições do Rossio, que hoje também existem mas de forma bastante periclitante. E tive oportunidade de participar, enquanto vereador na CM Abrantes, naquele que foi o projeto de musealização do legado da Metalúrgica Duarte Ferreira, em Tramagal. Isso fez-nos perceber que há um longo caminho, não só para perpetuar o património industrial”, disse, lembrando o caso do Museu MDF, considerado em 2018 Museu Português do Ano.

“Homenageia seguramente as memórias de todos os que fizeram aquela fábrica crescer”, mencionou, acrescentando haver ainda no que toca ao património industrial abrantino, muito trabalho para fazer, sendo disso exemplo as Fundições do Rossio de Abrantes.

Em Alferrarede, o vereador nota que há “património devoluto e arqueologia industrial” mas também “muito património vivo” e “muito para construir e fazer”, deixando votos de que se continue a trabalhar para “dignificar a honra e a memória das pessoas que fizeram a CUF/UFA em Alferrarede”, lançando o desafio a todas as entidades e comunidade presente.

Foto: mediotejo.net

Também presente esteve Jorge Quintas, secretário geral da Fundação Amélia de Mello, responsável pelo legado dos herdeiros de Alfredo da Silva, o grande industrial e fundador deste império, que depois foi mantido e expandido pelo genro e netos.

O representante lembrou que esta Fundação surgiu em 1964 para intervir na “memória, obra social, no esforço para a comunidade”. Chegou a apoiar os empregados atribuindo bolsas de estudo para que reforçassem competências.

Falando da desindustrialização, que “passa do tudo ao nada” e da qual Alferrarede é um exemplo, salientou que “hoje a cultura e o mundo moderno” passam pela “herança, memória e futuro através das novas gerações”, às quais é preciso transmitir este património e legado.

Manifestou na ocasião disponibilidade por parte da Fundação para apoiar na divulgação do filme nas redes sociais e investimento para a sua difusão, permitindo a nostalgia associada à memória das pessoas que se cruzam com o legado e história da CUF.

“São as pessoas que fazem as empresas (…) tudo isto são fábricas e compõem uma memória coletiva”, disse, notando que o esforço da Fundação Amélia de Mello passa por manter viva esta identidade.

“Nós temos de trazer cá as pessoas, temos de as convidar a conhecer o território. Isto rapidamente vai-se resolver, temos de ser otimistas, e estas crises que estamos a viver agora vão ser passadas mais ou menos rapidamente, e depois as pessoas vão querer conhecer, dado que há um interesse enorme do ponto de vista da cultura. Haja uma narrativa, um programa cultural, para que as pessoas venham”, defendeu, elogiando o trabalho e parabenizando pela organização da iniciativa.

Foto: mediotejo.net

Sobre a abordagem do documentário, o docente João Luz, da licenciatura em Cinema Documental da ESTA/IPT, notou que se trata de “um daqueles projetos comunitários que é exemplar”, onde através de parcerias diversas, locais e nacionais, se articula um “projeto de base local”.

Ainda assim, reconheceu que o produto audiovisual mais eficaz para contar a história da CUF, sendo algo “tão vasto no tempo” e “complexo”, passaria por um seriado curto, com diversos episódios, “para ser justo em relação àquilo que poderíamos saber” nas mais variadas áreas. “Meia hora é o tempo possível, cristaliza muita coisa, é um pretexto para falarmos sobre o que está a acontecer e reunirmos as pessoas, e nisso já é fantástico. Vale pela agregação que provocou e pelo momento de união”, comentou.

O filme conta com testemunhos de Ricardina Alves, Manuel Botas, Francisco Cordeiro, Gomersindo Cordeiro, Elvira Matos, Idalete Matos, João Morgado, João Salvado e Carlos Pauleta.

Este último, presente na mesa redonda que debateu a temática, mostrou-se visivelmente emocionado. Lembrou outra faceta da atividade da CUF/UFA, quando os trabalhadores eram convidados a ir trabalhar para a Herdade da Parrada, nas lides agrícolas e florestais, e que contribuiu também para o desenvolvimento do concelho.

Foto: mediotejo.net

“Era uma herdade piloto, onde se fazia investigação, em meados dos anos 60, quando aparecem as primeiras alfaias e tratores agrícolas em substituição das juntas de bois. Até faziam excursões para verem os tratores”, contou, lembrando presenças de figuras ilustres da engenharia como Torres Campos.

Como neto e filho de funcionários da CUF, quis o destino que ele próprio ali servisse, tal como o pai o fez durante 50 anos. Crê que há muito por contar, e que a missão é difícil, mas agradeceu a concretização deste projeto.

No filme, falam intervenientes que ajudam a contar a história e a montar a cronologia. Desde o casal de enfermeiros disponível 24 horas por dia, porque apesar do tempo livre estavam de prevenção a qualquer urgência que surgisse.

Ou da diferença do número de trabalhadores, que no antigo processo eram cerca de 200 pessoas, e que com a vinda da tecnologia começaram a diminuir até restarem 55.

Mas é unânime a posição sobre tudo o que a CUF trouxe de bom aos trabalhadores da indústria, com as escolas, as piscinas, o campo de futebol, campo de ténis, posto médico, despensa, cantina e bairro do pessoal. Onde eram dadas condições que fizeram de Alferrarede um polo industrial “como deve ser”.

Irmã de Carlos Pauleta também interveio e recordou a primeira vez que comeu pão com marmelada, numa colónia de férias da CUF em Almoçageme. Foto: mediotejo.net

Isso chegou a atrair algumas invejas, por os empregados da “farda azul” conseguirem ter mais qualquer coisa que os outros, e viverem num meio social privilegiado.

Há nostalgia e saudade, ao olhar as chaminés onde as cegonhas vão assentando, e vendo os portões enferrujados, caídos, e as paredes destroçadas. Saudade de um tempo em que havia “juventude com sangue na guelra”, saudade de outros tempos.

Aquele que era “o coração da cidade”, caiu no abandono assim que indústria dali partiu. “Costuma dizer-se que vai tudo atrás dos donos. Morreram os velhotes. Às vezes ainda sonho com isso. Já não aparece mais Alfredos da Silva nem nada”, assim o garantiu Manuel Botas, um dos testemunhos, ciente do novo panorama industrial no país e no mundo.

Mas quando questionados no documentário sobre o que gostariam que ali fosse feito, não existem dúvidas. O desejo do seu íntimo, mais puro e sincero, seria fazer a grande indústria, para ali, “voltar”.

TRAILER DO DOCUMENTÁRIO:

Abrantes | Em busca das memórias perdidas da Unidades Fabris de Alferrarede

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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3 Comentários

  1. Excelente recolha . Meu pai trabalhou na UFA e quando essa fechou foi transferido para a UFA do Barreiro lembro perfeitamente da escola primária , cantina , posto médico , piscinas onde aprendi a nadar e a fabulosa colónia de férias em Almoçageme Colares em que cada grupo tinha uma cor de camisa dependendo da zona a que pertencia, nada faltava. Lembro também de ser uma fábrica bem arrumadinho com relva a circundar os edifícios . Que saudades .

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