Mural em Concavada em homenagem aos 125 anos do nascimento do poeta abrantino António Botto. Foto: mediotejo.net

O nascimento de António Botto foi assinalado na quarta-feira, 17 de agosto, em Concavada, aldeia onde nasceu há 125 anos, com a inauguração de um mural feito em sua homenagem pelo artista João Samina. No jardim com o nome do poeta houve ainda lugar ao concerto “José Horta canta poetas de Abrantes”, com a participação de João Vaz, na guitarra portuguesa, tendo sido interpretadas músicas com letras de poetas abrantinos, como Francisco Lopes, José Alberto Marques, Joaquina Tavares Varandas e do próprio António Botto.

Poeta, dramaturgo e escritor epistolar, António Boto nasceu no dia 17 de agosto de 1897, em Concavada, no concelho de Abrantes, e dá nome à Biblioteca Municipal desde 1993.

“Hoje comemoramos a obra e o legado de um homem muito à frente do seu tempo” e “esta é também uma homenagem às gentes da Concavada, aos nossos poetas, aos nossos agentes culturais, às nossas associações e toda a comunidade abrantina”, disse, no dia do 125º aniversário do nascimento do poeta, o presidente da Câmara Municipal, Manuel Jorge Valamatos.

VIDEO/REPORTAGEM 125 ANOS DE ANTÓNIO BOTTO:

Após a inauguração do mural de António Botto em Concavada, os presentes foram agraciados pelo concerto “José Horta canta poetas de Abrantes”, que contorno com a participação de João Vaz. José Horta cantou músicas com letras de poetas abrantinos, como Francisco Lopes, José Alberto Marques, António Botto e Joaquina Tavares Varandas.

A iniciativa integrou no projeto Caminhos Literários, que explora os lugares ligados a “Botto, Camões, Gil Vicente e outros que por cá designados”, nos concelhos de Abrantes, Constância e Sardoal, pretendem afirmar a construção de um território literário entre os Municípios envolvidos, em que a literatura é a alavanca para a descoberta de novas paisagens e para a definição de produtos turístico-culturais.

Alfarrabista ajuda a meter retrato do poeta “no lugar certo”

O alfarrabista Adelino Correia-Pires foi quem ‘descobriu’ o quadro que retrata António Botto, uma pintura a óleo sobre tela, cuja autoria é atribuída a Abel Manta ‘pai’, contemporâneo de António Botto, e que se terão conhecido em Lisboa. Um saído de Gouveia (o pintor), e António Botto, de Concavada, Abrantes, tendo ambos ido muito jovens para a grande metrópole.

“Encontrei o quadro num leilão em 2010, no âmbito da minha atividade normal de alfarrabista, disputei-a e comprei-a. Por ser o António Botto e não por quem o pintou, mas sendo um Abel Manta, que só soube depois de o ter adquirido, só releva e valoriza a qualidade da pintura e daquele trabalho superior”, disse Adelino Pires ao mediotejo.net, tendo referido que o quadro ficava no lugar certo. Corria, então, o ano de 2017, e assinalavam-se os 120 anos do nascimento de António Boto. O retrato integrou a «Exposição – 100 anos de autores abrantinos».

“É uma peça de coleção, uma peça de Museu, e agora está no lugar certo, que é em Abrantes, desde que em 2015 a Câmara Municipal decidiu adquirir este quadro” do patrono da Biblioteca Municipal, a quem o poeta empresta o nome e que em 2017 cumpriu 120 anos sobre o seu nascimento, por terras de Concavada.

Alfarrabista Adelino Pires foi quem descobriu e adquiriu o retrato de António Botto, pintado por Abel Manta. Foto arquivo: mediotejo.net

Adelino Correia-Pires disse ainda manter-se “atento” a outras oportunidades de aquisição de material histórico de alguns artistas e escritores, entre outros, tendo conseguido adquirir nos últimos anos um poema manuscrito por António Botto, uma fotografia do poeta quando era muito jovem, uma carta que escreveu ao seu amigo e advogado de então, Luiz Nóbrega, datada de 14 de março de 1946, um ano antes de partir para o Brasil, e livros autografados pela pena do próprio Botto.

Poesia completa de António Botto é reunida em livro e inclui versos políticos

Toda a poesia de António Botto, publicada entre 1921 e 1959, incluindo os versos políticos, foi publicada em 2018, num volume intitulado “Poesia”, numa edição do escritor Eduardo Pitta, que assina a introdução. O livro, com a chancela da Assírio & Alvim, inclui as célebres “Canções”, um conjunto de quinze livros, a publicação póstuma “Ainda Não se Escreveu” e uma sequência de poemas em prosa, intitulada “Cartas Que Me Foram Devolvidas”.

Eduardo Pitta dirigiu a edição completa da obra de Botto, em 2008, na coleção “Biblioteca Amor e Ódio” na antiga Quasi, editora que, entretanto, saiu do mercado livreiro.

Relativamente a essa edição, que marcou o centenário da morte de Botto, a nova, “Poesia”, que foi publicada em julho de 2018, colige 22 livros, num volume único de 816 páginas, e onde “a grande revelação” seria o livro póstumo, ‘Ainda não Se Escreveu’ (1959), publicado dois meses após a morte do autor, sistematicamente ignorado pela crítica portuguesa, e que são versos políticos”, disse Eduardo Pitta à agência Lusa.

Os 22 livros de “Poesia” congregam os 15 das “Canções” – “Adolescente”, ”Curiosidades Estéticas”, “Piquenas Esculturas”, “Olimpíadas”, ”Dandismo”, “Ciúme”, “Baionetas da Morte”, ”Piquenas Canções de Cabaret”, ”Intervalo”, ”Aves de Um Parque Real”, ”Poema de Cinza”, “Tristes Cantigas de Amor”, ”A Vida Que Te Dei”, ”Sonetos” e ”Toda a Vida” -, e ainda “Motivos de Beleza”, ”Cartas Que Me Foram Devolvidas”, ”Cantares”, ”O Livro do Povo”, ”Ódio e Amor”, ”Ainda não Se Escreveu” e ”Fátima”. Em apêndice, surgem os poemas escritos para o filme “Gado Bravo” (1935), de António Lopes Ribeiro.

Três dos livros integrados em “Poesia” têm “notas editoriais específicas, designadamente, ‘Ódio e Amor’, que tem poemas recuperados, com novos títulos, de um livro anterior, ‘Ainda não Se Escreveu’ e ‘Fátima’, uma curiosidade religiosa”, disse o editor da obra à Lusa.

A cronologia foi muito aumentada, realçou Eduardo Pitta, referindo que a edição de 2008 há muito se encontrava esgotada, “até nos alfarrabistas”.

António Botto (1897-1959), escreve Eduardo Pitta na introdução, foi “segregado pela sociedade respeitável dos anos 1920”, uma situação que perdurou até à sua morte, por atropelamento, no Rio de Janeiro.

Em causa estava, em particular, a homossexualidade do escritor, e um comportamento que não seguia a “compostura e aprumo” exigidos pelos padrões da época, e que permaneceram ao longo da ditadura.

“O quadro mental da sociedade portuguesa manteve-se, apesar das sucessivas mudanças de regime: fim da monarquia, implantação da República, ditadura militar, ditadura civil, Estado Novo”.

“Nessa medida, não surpreende que, a 09 de novembro de 1942, ao fim de dezoito anos de serviço ao Estado, Botto tenha sido expulso da função pública por… ‘não manter na repartição a devida compostura e aprumo, dirigindo galanteios e frases de sentido equívoco a um seu colega, denunciando tendências condenadas pela moral social’”.

“A inobservância dos deveres profissionais incluía fazer versos e recitá-los durante as horas de serviço, conforme despacho de exoneração publicado do Diário do Governo”, escreve Pitta.

Abrantes assinalou 125 anos do nascimento de António Botto, o poeta que rompeu as leis do tempo. Foto: mediotejo.net

António Botto, natural de Casal da Concavada, no concelho de Abrantes, foi “criado em Alfama [bairro lisboeta], sem educação formal, nómada dos bairros populares, homossexual notório, aspirante a ator, ajudante de livraria, modesto funcionário público entre 1924 e 1942 (o primeiro ano em Angola), mitómano, tudo o afastou do padrão de respeitabilidade do seu tempo”.

“Não obstante, impôs-se ao ‘milieu’ literário”, sentencia Pitta, referindo que a sua poesia despertou o interesse de literatos como José Régio (1901-1969), que, em 1925, fez numa dissertação de licenciatura em filologia românica, apresentada na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, “uma apreciação laudatória” a Botto, na qual afirmou: “António Botto é um clássico — no mais amplo sentido da palavra”.

“Mas há na sua Arte esquisitices de ritmo, subtilezas de ironia, recantos de intenção e sínteses de expressão — que fazem do Poeta o mais aristocrata, o mais pessoal intérprete de certos aspetos da sensibilidade Contemporânea”. O autor de “Toada de Portalegre” voltou a escrever sobre Botto, “sendo o mais famoso o que dá pelo título de ‘António Botto e o Amor’”.

Aliás, sete anos após a morte do poeta, Régio marcou a diferença, ao assistir à cerimónia de depósito dos restos mortais de Botto no cemitério do Alto de São João, em Lisboa, um “ato público que culminou um longo processo de contornos nunca devidamente esclarecidos, e teve repercussão na imprensa da época”.

Nessa cerimónia, além de Régio, vindo expressamente de Vila do Conde, só estiveram presentes Ferreira de Castro, Natália Correia e David Mourão-Ferreira. “Nenhum outro grande nome marcou presença”, enfatiza Eduardo Pitta.

Já em 1942, quando a editora Ática publicou “Ainda não se Escreveu”, “grande parte da ‘intelligentsia’ [portuguesa] assobiou para o lado”.

Botto foi um poeta maldito e marginalizado, defende Pitta no seu texto introdutório, que o identifica como precursor da poesia de discurso homoerótico e da introdução da quadra popular nesse discurso.

O escritor, poeta e ensaísta, editor da poesia completa de Botto, deixa ainda uma questão no ar: “Intuitivo por natureza, não sabemos se Botto alguma vez leu Walt Whitman, que logo em 1860 escrevera em ‘Cálamo’ — o terceiro livro de ‘Leaves of Grass’ — os versos fundadores daquilo a que hoje chamamos homotextualidade”.

António Botto nasceu em Concavada (Abrantes) a 17 de agosto de 1897, e morreu atropelado no Rio de Janeiro, em 1959. Foto: DR

Mário Rui Fonseca

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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