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É sabido como as ambições de poder tendem a realçar o que de pior nós temos e que atingem contornos evidentes nas mais diversas lides políticas. Recentemente (mais, precisamente, nas anteriores eleições) fomos confrontados com uma situação em que dir-se-ia que cansado de depender de outros, Costa forçou um ato eleitoral em que era mais que evidente a possibilidade da extrema direita, pela primeira vez, passar a ter significativa presença no Parlamento. Como veio a acontecer.

Ficaram os socialistas todos eufóricos (afinal tinham obtido a maioria por um triz) podendo (como é habitual entre nós), a partir daí, fazer tábua rasa da vontade das restantes forças parlamentares.

Lembro-me de escrever que o resultado mais saliente das eleições não era a vitória socialista mas, a negatividade efetiva e potencial traduzida  na eleição de um grupo parlamentar por parte do Chega. Lembro-me, também, de tal não provocar significativas reações. Como se se tratasse de algo pouco significativo.

Mas se o PS veio a criar condições para isso (e isto constitui a primeira fase de um drama em dois atos), a segunda encontra-se, neste momento, em preparação.

Ao intervir no congresso da Iniciativa Liberal (cujo novo líder tinha, durante a campanha, afirmado negar-se a uma aliança com o Chega) o representante deste partido reage dizendo que os liberais se arriscam, assim, a não participar do poder. Leia-se: a não participar de uma  futura estrutura governativa.

A maneira com isto foi dito (e o simples facto de o dizer) revela-nos que tal possibilidade tem estado em equação nos meandros da direita e que o PSD aceita aliar-se com o Chega (como, aliás, ensaiou nos Açores) correndo nós o risco de, num futuro próximo, com o patrocínio Social Democrata, virmos a ter um governo onde avulta uma organização particularmente xenófoba e racista. Com os resultados que se podem adivinhar. 

Poderá vir a ser o regresso, em força, da extrema direita. Que parecia adormecida. Na iminência de fazer a democracia portuguesa dar um significativo passo atrás. E vir a provocar eventuais fraturas na respetiva sociedade.

Uma extrema direita, convenhamos, bem diferente da herança corporativista. Adaptada às condições de uma sociedade moderna que, como todas, possui tensões, fragilidades e contradições. E, portanto, bem mais perigosa!

Investigador universitário na área da cultura tradicional, especialmente no que respeita à Antropologia do Simbólico e à problemática do Sagrado e suas representações festivas, tem-se debruçado especialmente sobre práticas tradicionais comunitárias culturais e cultuais, nomeadamente no que concerne à religiosidade popular e suas relações sincréticas com raízes ancestrais e influências mutacionais modernas. É Licenciado em Antropologia Social, Mestre em Sociologia da Educação e Doutorado em Antropologia Cultural pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa.

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