Para lá do abate de porcos em matadouros industriais, persiste e ainda bem a tradicional matança dos recos criados carinhosamente pelas donas de casa nas comunidades rurais. O milenar procedimento corre sérios riscos se o entendimento da Ministra da Cultura sobre o que é civilização e gosto, ficando-nos apenas os relatos da grande festa da família mal chegam os frios cortantes do Outono e do Inverno.
Os meninos e as adolescentes de agora mesmo nascidas nos aglomerados urbanos de maior dimensão não sabem porque não respiraram, riram, ajudaram, ouviram o cochino chorar de desgosto porque assim tem de ser, muito menos provaram as suas primícias entre risadas, exclamações e afirmações de júbilo porque a parentela se juntou a fim de saborear a matança do porco.
Se quiserem conhecer pormenores do ritual da matança nas diversas regiões do País têm de perguntar às avós quais eram os comeres de maior prestígio, os potes, panelas, barrinhões, caldeiros, tachos, travessas, pratos, espetos, grelhas, tigelas (malgas), copos, garfos, colheres, facas e demais utensílios usados na festança. Se pretenderem explicações sobre o mata-bicho, os bancos destinados à imolação do nosso melhor amigo (come-se da ponta da cabeça à extremidade do rabo), da qualidade das facas utilizadas na sua goela, a deposição do sangue e ingredientes empregues a fim de não coalhar, as práticas higiénicas usadas depois da morte do bácoro, sua desmancha, salga e escolha das carnes destinadas à grelha, aos enchidos, às assaduras, aos rojões e adobos, têm de perguntar ao avô debaixo do olhar atento da duas vezes mãe não vá o seu homem enganar-se. É a matança.
Estas explicações podem maçar os jovens guiados pelo telemóvel, no entanto, se fecharem os ouvidos àquelas mulheres e àqueles homens nunca conseguirão perceber o supremo encanto simbólico e afectivo das matanças. No caso de estarem longe desses parentes queridos façam o favor de ler Aquilino Ribeiro, Miguel Torga, Azinhal Abelho (um parente seu foi durante muitos anos Presidente da Câmara de Ponte de Sôr), Agustina Bessa Luís, Brito Camacho, e António de Figueiredo, os quais descreveram as matanças admiravelmente.
Se as meninas e os meninos têm a ventura de poderem participar na festividade da matança do porco assuma-se corajosamente, atrevam-se a desligar o referido telemóvel e entrem na jubilosa funçanata. Fica a sugestão!
