Olhos de Água em julho de 2018 Foto: mediotejo.net

A nascente do rio Alviela deu a Alcanena uma praia de águas límpidas, bem junto ao local onde nasceu o seu famoso Centro de Ciência Viva. Na Louriceira, terra do aqueduto que faz ligação ao de Lisboa, a nascente dos Olhos de Água é uma das mais importantes do país. Por ali passam os caminhos de Santiago de Compostela e de Fátima. Se uns lamentam as mudanças no caudal que diminuíram a profundidade dos limites da praia fluvial (não tem mais que um metro na sua maioria), outros salientam que é dos melhores sítios para se trazerem as crianças. O espaço permanece sem nadadores salvadores, uma vez que, informa o município, não está oficialmente classificado como praia fluvial.

Tem sido um ano agitado para os lados de Alcanena, onde descargas nos algares que compõem o maciço calcário estremenho, na Serra de Aire e envolvente, terão estado na origem da poluição que veio ao de cima na praia fluvial dos Olhos de Água no início do inverno. O município não esteve com meias medidas, apelando ao esforço conjunto de autoridades e autarquias envolvidas para identificar e controlar o problema. Ante a ambição de um dia obter a Bandeira Azul para a praia fluvial da nascente do rio Alviela, a Câmara Municipal avançou ainda com um procedimento de análises mensais à água.

Acresce a este esforço de promover e cuidar do património natural existente a programação de verão que anualmente se desenrola no espaço, com atividades desportivas várias a decorrerem no rio e na praia, principalmente vocacionadas para os mais novos. Para os menos dados à transpiração mas ainda assim amantes da natureza, o Centro de Ciência Viva do Alviela convida a conhecer os morcegos da serra, entre outras iniciativas de verão sempre com muita ciência à mistura.

Município assumiu a responsabilidade de analisar mensalmente a água, controlando assim a qualidade da praia. Em pleno verão, as águas permanecem límpidas Foto: mediotejo.net

O espaço, que permanece sem nadadores-salvadores e proíbe os grandes mergulhos, continua de resto igual a si próprio, não sendo necessário um calor abrasador para encontrar a praia a ser utilizada por banhistas, ou então famílias a fazerem piquenique. Paragem obrigatória a quem passa por Alcanena neste tempo de verão, tem ainda um Parque de Campismo, embora seja necessário fazer reserva prévia para a sua utilização, um Café-Restaurante e um amplo parque de estacionamento, havendo ainda por perto segurança e circulação das autoridades.

A limpidez das águas, a boa acessibilidade, equipamentos disponíveis (wcs, contentores do lixo, parque infantil, parque de merendas e até alguns grelhadores) e relativa tranquilidade são as vantagens apontadas por quem por ali se deixa esquecido ao sol, comendo um gelado ou aproveitando a fluidez das águas. Há ainda a possibilidade de realizar percursos pedestres pelas redondezas, com uma paisagem ribeirinha verdejante e repleta de pequenas descobertas, ou andar de BTT.

Um dos pontos fortes do espaço, referiu Pedro Silva, que trabalha no Bar-Restaurante, à nossa reportagem num trabalho em julho de 2016, é a água estar “sempre em condições”, além da proximidade da nascente, que se torna outro atrativo. “Passam aqui muitos alemães, italianos, espanhóis”, refletia.

Não sabendo explicar como encontram eles o sítio, fora das rotas turísticas, admitia que o facto de por ali passarem os caminhos de Santiago pode contribuir para o passa-a-palavra. De junho a setembro, até ao início das aulas, a praia permanece cheia. No inverno os turistas surgem ao fim-de-semana.

O fim de tarde de julho acentuava o verde dos Olhos de Água, cuja paisagem é dos seus maiores atrativos Foto: mediotejo.net

Esta “é também uma das maiores colónias de morcegos da Europa”, constatou, referindo ainda que um dos pontos de interesse dos Olhos de Água é o “Poço Escuro”, um trajeto de um quilómetro que, quando chove, se transforma também ele numa nascente. Em domingos de muito calor, comenta Pedro Silva, os visitantes são às centenas, consumindo-se no Bar quatro quilos de café e três arcas cheias de gelados.

O nome “Olhos de Água” faz referência aos vários pontos de saída da nascente do Alviela (um permanente e outro, junto ao principal, temporário). O “Poço Escuro” é um terceiro ponto de extravasamento de água. Segundo a página do Centro de Ciência Viva do Alviela, “a nascente dos Olhos de Água do Alviela é uma das mais importantes do nosso país, chegando a debitar 17 mil litros por segundo, ou seja, 1,5 milhões de metros cúbicos de água por dia (pico de cheia).

Desde 1880 até bem próximo da atualidade, a nascente do Alviela foi uma das principais fontes de abastecimento de água à cidade de Lisboa (através do Aqueduto do Alviela), e ainda hoje “abre portas” a um dos maiores reservatórios de água doce do país”.

“Situa-se na transição entre o Maciço Calcário Estremenho e a Bacia Terciária do Tejo. A sua bacia de alimentação estende-se ao longo de cerca de 180 km2, onde a água percorre verdadeiros labirintos subterrâneos até chegar à nascente”.

O aviso não impede que algumas crianças saltem para a água, numa praia que tem bem visível a mensagem de que não é vigiada. foto mediotejo.net

Um busca pela internet e encontram-se facilmente referências. Foi assim que algumas pessoas com quem o mediotejo.net falou descobriram o espaço. Já a família de Emanuel Luís, de Almeirim, veio pelo passa-a-palavra. Em tempo de férias, é ali que tem passado os dias. “É mais tranquilo e sossegado, a água estás sempre a correr, só é pena não haver areia de praia”, comenta rindo. A segurança das praias fluviais é outra característica que o atrai, menos incertas que as praias junto ao mar, sobretudo para quem traz crianças.

Para os mais ousados, os percursos pedestres estão bem marcados e não oferecem grande dificuldade. Há sombra e o espaço mantém-se limpo, notando-se apenas algum lixo junto ao estacionamento. O parque no entanto é amplo e próximo da praia e a polícia vai passando, conforme o mediotejo.net pôde constatar no local, além de estar um segurança colocado à entrada.

Um cenário tranquilo, no interior do Médio Tejo.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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