Por nás e nefas gosto de sardinhas cabeçudas, de lombos opulentos, grávidas de vísceras, em suma, sardinhas aptas a pingarem no pão e nas gravatas mal recebem fogo vivo no início da assadura ao ritmo do estalejar dos grãos de sal, para depois mudarem cuidadosamente de sítio de forma a manterem-se pingonas devido à constância de fogo, um fogo brando, suave, tal qual baforada de hálito puro vindo da boca da nossa namorada.
Convenhamos: é enorme a dificuldade em as amadas manterem o hálito sem sombra de halitose, no entanto, através de uma boa mastigação de salsa ou de buliçoso bochechar o bafo de onça ameniza-se, além das pituitárias se tornarem tolerantes. A causa radica no estreitamento da convivência familiar, mesmo quando a tolerância é escassa até mesmo no período refeiçoeiro.
Este ano, para minha desdita, ainda não consegui dar elogios e louvores pós prandiais, nem a nível doméstico, nem nos restaurantes e casas de comeres a quem as prepara e serve. As minhas tentativas têm tido resposta através de sardinhas esquálidas, esbeltas quanto são as modelos desprovidas de pómulos, quadris dignos a possibilitarem aos saudosos do vigor perdido da boa lavagem de olhos, em suma: sardinhas a reclamarem salada de tomates tersos, rodelas de pepino rompudo e de cebola ardente sobre cama de alface tenra. Continuo à sua espera pois não quero acreditar nas profecias da Comunidade Europeia sobre a finitude dos bancos de pesca, para mais das espécies mais populares da Península Ibérica.
Na semana passada as sardinhas adquiridas na Profresco (Estrada do Norte em Peniche) encandeavam luzindo brilho prateado, coloquei os óculos de sol. As belas sardinhas magras quanto um funambulista, levaram-me a sugerir um arroz onde as mesmas pudessem emergir apetitosas. E, emergiram. Só que a pouca substância extraída redundou num almoço frágil a obrigar-me a antecipar a merenda.
Entendo as sardinhas como fundamentais no coroamento de caldeiradas, imprescindíveis em bolas das ditas, dignas de gula quando fritas canonicamente – douradas, estaladiças e secas –, gulosas pela goela abaixo sem gola protectora quando escabechadas a preceito ( o escabeche composto por vinagre de vinho, alho, azeite, cebola às rodelas, cravinho, uma folha de louro, uma pitada de sal, polvilhado com pimenta preta e malagueta moída, aspergido com gotas de vinho tinto) e em pousio durante três dias.
Existem centenas de receitas nas quais as sardinhas são o elemento primacial sem mencionar as em conserva, também me agradam as costeletas de sardinha fritas envolvidas em farinha de milho, cruas temperadas unicamente com gotas de limão, há quem prefira sumo de laranja, e a finalizar trago à colação as saborosas petingas.
Caro leitor: se lhe calharem sardinhas rotundas faça favor de as assar, se tiver a desdita que tenho tido até agora esmere-se, invente, transgrida os manuais e não as ofereça ao gato. As duas gatas da família não as provam!
QUINTA DA LAPA, Reserva
Estagiou este tinto em barricas de carvalho francês, esteve em bom lugar até agora, afirmo-o porque no copo de prova mostrou-se cristalino sem mácula, o nariz recebeu agradáveis aromas a fruta bem madura, a essências silvestres e algum mineral, o palato deleitou-se a beber lentamente, lentamente, o vinho proveniente de uvas das castas Shyrah, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Merlôt.
Elegante e vigoroso acompanhou duas refeições onde os pratos principais foram peixe assado no forno e um sápido coelho guisado, no tocante a entreténs de boca atum de conserva com feijão-frade e grão-de-bico ensopado com bacalhau. Queijo da Serra curado a coroar as ditas refeições. Se os enlaces forem felizes, é minha convicção ser o tinto ora apreciado indicado para coadjuvar outros produtos alimentares tais como: peixes e carnes fumadas, carnes vermelhas, caça de pelo e pena, queijos magros e gordos, arrozes de substância e massas em consonância. Um Senhor Vinho!
Origem TEJO. Produzido e engarrafado por Sociedade Agro-Pecuária Quinta da Lapa. Lapa, Cartaxo. Ano de colheita: 2015. Graduação: 14º.

