O número 46 da revista Zahara, lançado no passado dia 12 de dezembro, apresenta-se como uma das edições mais robustas da publicação, totalizando 140 páginas e reforçando o seu papel na preservação da memória histórica e etnográfica do Médio Tejo.
Mantendo a matriz que a caracteriza desde a sua criação, a revista volta a centrar-se nos concelhos de Abrantes, Sardoal, Vila de Rei, Mação, Gavião, Vila Nova da Barquinha e Constância, reunindo contributos de vários autores ligados à investigação local.
A revista publicada desde 2002 pelo CEHLA – Centro de Estudos de História Local, sob a direção de José Martinho Gaspar, continua assente na colaboração voluntária de investigadores, estudiosos e autores que exploram temas ligados ao passado, à identidade e às transformações sociais da região.
Nesta edição, o diretor sublinha o aumento do volume de conteúdos como reflexo da vitalidade do projeto e do envolvimento continuado da comunidade científica e cultural.
O destaque de capa é dedicado à participação de soldados da freguesia da Comenda, no concelho de Gavião, na Primeira Guerra Mundial. O artigo, da autoria de Miguel Frederico Porfírio, identifica e documenta o percurso de 13 militares integrados no Corpo Expedicionário Português, dois dos quais perderam a vida em combate.
O trabalho cruza fontes nacionais e internacionais, nomeadamente arquivos franceses e o Arquivo Histórico Militar, sendo ilustrado por uma fotografia histórica do desembarque do Batalhão 22 em Brest, a 6 de fevereiro de 1917, posteriormente restaurada e colorida com recurso a tecnologias digitais.


A revista abre com um texto de José Alves Jana dedicado a Maria Teresa Aparício, figura central da Zahara e do Centro de Estudos de História Local de Abrantes.
O artigo assume um carácter biográfico e memorial, dando voz a uma colaboradora de longa data cuja ação, desenvolvida de forma discreta, foi determinante na recolha e preservação de memórias, práticas culturais e tradições locais, sobretudo ligadas ao mundo rural e às transformações sociais do século XX.


Na área da cultura musical, Mário Alves assina um artigo sobre a Orquestra Brasil, formação criada em Alferrarede que marcou a vida cultural de Abrantes e da região nas décadas de 1960 e 1970.
O autor, filho de um dos músicos da orquestra, combina memória pessoal com pesquisa documental para reconstituir o percurso de um projeto musical efémero, mas marcante, que contribuiu para colocar Abrantes no mapa cultural da época.



A edição inclui também um texto de José Martinho Gaspar dedicado a Manuel Coelho, poeta popular do concelho de Vila de Rei, no qual são analisados excertos que retratam o impacto da construção da Barragem de Castelo do Bode, num ano em que se assinalam 75 anos sobre o início da subida das águas.
O artigo articula poesia popular com enquadramento histórico e social, abordando temas como a submersão de aldeias, a perda de terrenos agrícolas, os movimentos migratórios e a perceção crítica das indemnizações atribuídas à época.


No campo da etnografia, Isilda Jana apresenta um estudo sobre os casamentos tradicionais no Pego, baseado em recolhas realizadas entre as décadas de 1970 e 1980.
O artigo descreve os rituais, os trajes, a gastronomia, as formas de convívio e as práticas comunitárias associadas às celebrações, destacando elementos identitários específicos da localidade, como o “correr das casas”, prática hoje desaparecida.


Joaquim Candeias da Silva assina o oitavo capítulo, com um estudo dedicado à freguesia das Mouriscas.
O autor analisa a formação de uma freguesia marcada pela dispersão dos lugares habitados, a centralidade da igreja de São Sebastião e a relação entre ocupação humana, vestígios arqueológicos e organização religiosa, recorrendo a fontes paroquiais e documentação histórica.




A demografia é abordada por José Rafael Nascimento, que traça uma análise da evolução populacional do concelho de Abrantes desde o início do século XX.
O artigo apresenta dados sobre envelhecimento, natalidade, migrações, escolaridade, habitação e atividade económica, evidenciando a inversão da relação entre população jovem e idosa e os desafios sociais daí decorrentes, nomeadamente ao nível da coesão social e das políticas públicas.
O número 46 inclui ainda um conjunto de textos de carácter memorial e etnográfico. Mário Jorge Sousa revisita a vida quotidiana do Sardoal nas décadas de 1960 e 1970, retratando uma vila ainda marcada por práticas rurais e por fortes ligações à cidade de Abrantes.
Dulce Figueiredo apresenta um artigo sobre a reedição da obra Memórias Restauradas do Antigo Lugar e Vila do Sardoal, contextualizando o seu valor histórico e patrimonial.
Teresa Aparício dedica o seu contributo à “couve dos Valhascos”, produto agrícola identitário do concelho de Abrantes, hoje em risco de desaparecimento.
O artigo analisa as características específicas da variedade, as condições geográficas que lhe conferem singularidade e o reduzido número de agricultores que ainda mantêm a tradição, alertando para a necessidade de preservação deste património agrícola.

A revista inclui ainda um estudo de Anabela Cardoso e Tiago Lopes sobre plantas e saberes tradicionais no concelho de Constância, abordando usos alimentares, medicinais e artesanais, bem como um artigo de Fernando Freire sobre o processo de investigação e reconstrução do pelourinho da Atalaia, “monumento da autonomia dos povos e do concelho”.
Por fim, José Manuel d’Oliveira Vieira apresenta excertos do seu diário de guerra em Moçambique, oferecendo um testemunho direto da vivência de um militar abrantino durante a Guerra Colonial, baseado em cartas e apontamentos pessoais.



O termo “Zahara”, lenda de Abrantes sobre uma donzela moura, filha do alcaide do castelo de Abrantes, inspirou o título para a revista Zahara, uma publicação semestral dedicada à história local, património e memórias da região de Abrantes e do Médio Tejo. O projeto é coordenado pelo Centro de Estudos de História Local de Abrantes (CEHLA),
