CEHLA assinala em Sardoal XX edição das Jornadas de História Local. Créditos: mediotejo.net

A perspetiva do Centro de Estudos de História Local (CEHLA), bem como das Jornadas de História Local e da própria ‘ Zahara’, da Associação de Desenvolvimento Cultural Palha de Abrantes, tem sido de “território” começou por dizer José Martinho Gaspar na abertura das XX Jornadas de História Local, numa sessão que decorreu na sexta-feira e onde também foi apresentada o número 42 da revista de história local.

Um projeto “que tem feito o seu caminho com um grupo de pessoas voluntárias que vão levando a nossa água ao moinho, na medida das possibilidades. Vamos deixando algum trabalho feito e não o fazendo exclusivamente em eventos pontuais, é isso que temos feito e creio que temos conseguido”, referiu o historiador e diretor da revista.

CEHLA assinala em Sardoal XX edição das Jornadas de História Local. Créditos: mediotejo.net

A sessão, que decorreu, esta sexta-feira, em Sardoal, contou com a participação de vários historiadores e investigadores e o lançamento da edição n.º 42 da revista ‘Zahara’, de periodicidade semestral e que o CEHLA publica ininterruptamente há 21 anos.

Esta edição apresenta artigos que versam o Centenário do Sporting de Abrantes; Legado Cultural de Luís Manuel Gonçalves; Achados Arqueológicos de Almourol; Um Construtor de Carroças de Mação; Abrantes e o RI2 na Guerra Colonial; O Nordeste do Distrito de Santarém nas Câmaras Eclesiásticas de Castelo Branco e Lisboa, nos sécs. XVI a XIX, entre outros.

E porque “não há futuro sem memória”, neste número, José Martinho Gaspar salientou o trabalho de Eduardo Campos, falecido precisamente há 20 anos, que esteve na génese das Jornadas de História Local e da publicação da revista ‘Zahara’ sendo um dos seus impulsionadores.

Eduardo Campos organizou e catalogou um vasto acervo documental, determinante para a investigação do passado de Abrantes, desenvolvendo também “um trabalho de produção historiográfica sem paralelo, de elevada qualidade, em que abordou múltiplos temas que cobrem um vasto período, desde a Idade Média ao século XX”, escreveu o historiador no editorial da revista.

CEHLA assinala em Sardoal XX edição das Jornadas de História Local. Créditos: mediotejo.net

Também outro colaborador da ‘Zahara’ foi lembrado nas XX Jornadas de História Local. Tratou-se de uma evocação de José António Correia Pais, colaborador do CEHLA, com a apresentação de dois vídeos, incluindo imagens de filmes amadores e caseiros da Lisboa de 1975, documentários interativos da autoria de Arianna Mencaroni.

“Estas imagens de um quotidiano que algumas pessoas têm nas suas casas, se não forem salvaguardadas, se não forem devidamente protegidas acabam por se perder. E são uma memória, de um passado muitas vezes recente, mas uma memória que é única e importa destacar o papel do José António Correia Pais quer a esse nível quer enquanto colaborador da ‘Zahara’”, acrescentou José Martinho Gaspar que abordou ainda o nome de António Bento.

Por seu lado, Lurdes Martins em nome da Palha de Abrantes, afirmou que “há projetos que crescem naturalmente, tal e qual como as pessoas. E como as pessoas crescemos muitas vezes confinados à nossa casa ou ao nosso quarto, num lugar mais restrito, e à medida que vamos crescendo temos necessidade de irmos espraiando o nosso local de ação. Sempre me pareceu que a ‘Zahara’ e o CEHLA é também um desses projetos. Um projeto que cresce. Que cresceu porque o território que foi integrando a própria revista vai sendo maior, se pensarmos que nasceu em Abrantes e vai já pelo Gavião e Barquinha. É um território alargado. Mas para crescer tem de ser alimentado e essa alimentação já não parte só de nós que estamos sistematicamente a trabalhar nos projetos”.

Vinte anos depois importa, para Maria de Lurdes Martins, lembrar “algumas das pessoas que não vão estando connosco. É um dever, da revista e nosso”, disse falando “num novo caminho de arquivo e de tratamento de memória” e avançando que nos próximos números da revista outros colaboradores serão recordados.

Já o anfitrião Miguel Borges começou por agradecer que “estas coisas aconteçam também no Sardoal”. O presidente da Câmara Municipal associou-se aos nomes referidos por José Martinho Gaspar, lembrando que Correia Pais “morou muitos anos no Sardoal. Uma pessoa que nos faz falta, com um pensamento crítico, por vezes duro. Mas fazem falta pessoas como Correia Pais numa terra como Sardoal”.

Quanto a Eduardo Campos “foi sempre um amigo. Partilhei com Eduardo Campos o Orfeão de Abrantes e depois 15 anos na Orquestra de Abrantes onde foi um grande impulsionador e uma pessoa que tem uma importância enorme na história do concelho de Abrantes e da nossa região”, recordou.

A revista 42 “segue a linha daquele que é o nosso traço habitual” ou seja “recebemos colaboração destes sete concelhos que integram o CEHLA”, disse José Martinho Gaspar dando o pontapé de saída na apresentação da ‘Zahara’, que neste número tem na capa uma fotografia a propósito dos 100 anos do Sporting Clube de Abrantes, completados em abril passado.

“Quando pensamos nas questões da história local, às vezes, podemos pensar que uma associação de carácter desportivo não faria sentido aparecer numa capa, mas na verdade quando olhamos para a história de um clube como o Sporting de Abrantes ou de outros clubes como o Benfica de Abrantes ou os Lagartos do Sardoal, sabemos o papel que estas instituições desempenharam dentro destas localidades” no associativismo, em atividades quer de carácter desportivo quer de carácter cultural, afirmou.

A ocasião das celebrações dos 70 anos do Rancho do Pego em 2024, e não em 2023 como era suposto, é a oportunidade para tornar pública uma entrevista que José Alves Jana fez a Pedro Fontinha, em 1978, com o objetivo de guardar “a memória de um homem que, primeiro carteiro e depois barbeiro de profissão, e fotógrafo amador da freguesia, além de regedor, todos reconhecem ter sido decisivo na origem e na continuidade do Rancho do Pego”.

Dulce Figueiredo escreve sobre o legado cultural de Luís Manuel Gonçalves. Texto que surge, tal como outros anteriores, por ocasião da comemoração dos 25 anos da Biblioteca Municipal de Sardoal, que brevemente terá uma nova casa, o restaurado edifício do antigo Externato Rainha Santa Isabel.

Mário Jorge Sousa escolheu a música no Sardoal, abordando os protagonistas, a nível individual e coletivo que mais se evidenciaram nos anos 1990, designadamente os bares, pontos de encontro da “malta nova” com som ambiente “robusto” e “cantores de bar” que vinham de fora. Os bares “eram parte ativa nas dinâmicas locais (…) promoviam exposições de fotografia ou pintura, recriavam ambiências próprias do Carnaval, em festas temáticas e até se engalanavam com iconografias alusivas à Semana Santa”, escreve o autor.

Manuel Soares Traquina optou, para este número 42 da ‘Zahara’, contar a história da Horta da Costa. Uma lameira entre São Simão e Sardoal que “não passa hoje de um matagal, imagem triste daquela que já foi uma terra ubérrima que os sãosimoenses trabalhavam e regavam com a ajuda das picotas que a marginavam a delimitar as jeiras em que estava dividida”. A Horta da Costa “foi durante muito tempo motivadora de ambições e planos de vida”.

Já os achados arqueológicos de Almourol surgem pela mão de Fernando Freire. “O castelo de Almourol foi um dos monumentos medievais mais emblemáticos e cenográficos da Reconquista e é um monumento fértil em património cultural intangível”, lembra o autor.

O texto ‘Chão sagrado de Payo de Pelle’ é da autoria de Ana Rita Lopes Inácio, referindo-se ao antigo nome da atual freguesia de Praia do Ribatejo. E “foi vila e sede de concelho, com câmara, hospital, misericórdia e juiz ordinário entre outras particularidades próprias de ser um território da Ordem do Templo e, mais tarde, da sua sucedânea Ordem de Cristo”.

Por seu lado, Teresa Aparício escreveu sobre os construtores de carroças. E Lurdes Vicente e Vasco Marques sobre João Sabino, o carpinteiro de Queixoperra. Enquanto o professor de História, Carlos Grácio escolheu o Grupo de Cantares Terras de Guidintesta.

A aldeia abrantina de Vale de Zebrinho foi a escolha de Cristina Neto Coxinho e José Rafael Nascimento para lembrarem “memórias de quem cá nasceu e sempre viveu”.

E por fim Manuel Batista Traquina recorda a Guerra Colonial e Abrantes no tempo em que acolhia o Regimento de Infantaria 2.

O número 42 da revista aborda ainda os arquivos eclesiásticos no nordeste do distrito de Santarém, tema escolhido pelos historiadores Rui Mendes e Joaquim Candeias da Silva.

CEHLA assinala em Sardoal XX edição das Jornadas de História Local. Créditos: mediotejo.net

Aliás, os ‘Arquivos Régios e Diocesanos e o seu Contributo para a Micro-história da Arte: Do Antigo Termo de Abrantes, à Barquinha’ foi tema de uma apresentação de Rui Manuel Mesquita Mendes, na manhã das XX Jornadas de História Local.

Os arquivos eclesiásticos, em particular os diocesanos, são considerados “uma fonte indispensável” para o estudo da história e património locais, com especial destaque para o período moderno, entre os séculos XVI e XVIII, mas que por vezes permitem uma abrangência ainda mais alargada, quer a fragmentos documentais do período medieval, quer às incidências da história local contemporânea dos séculos XIX e XX.

Nessa comunicação, o historiador deu a conhecer algumas notas de um levantamento realizado através da documentação da Câmara Eclesiástica de Castelo Branco, existente na Torre do Tombo, e da importância deste fundo arquivístico para a história do património religiosos do nordeste do distrito de Santarém, e em particular do concelho de Abrantes e dos municípios circundantes que pertenceram à antiga Diocese de Castelo Branco, que abrangia parte do distrito de Santarém, nos concelhos de Abrantes, Mação, Sardoal e Constância. Referiu ainda documentos e monumentos de Vila Nova da Barquinha e Entroncamento.

A documentação identificada permite “localizar processos e licenças que clarificam, ou trazem ao nosso conhecimento, dados inéditos sobre a cronologia e geografia das devoções e lugares de culto (públicos e particulares) existentes nas paróquias da região de Abrantes nos séculos XVII, XVIII e XIX”, explicou o Rui Mendes.

Isto é, o historiador trouxe para as Jornadas a questão da micro História e mostrou como a História está em constante construção.

O objetivo da sua comunicação passou por dar a conhecer, com maior profundidade, a importância deste catálogo documental sobre o património religioso existente nestes fundos, de modo a servir de ponto de partida para outros estudos mais desenvolvidos, procurando tornar finalmente acessível uma fonte documental, até agora bastante subvalorizada.

Ainda na manhã das Jornadas, Arianna Mencaroni, da NOVA Media Lab/ICNOVA, foi responsável pela evocação a Correia Pais.

José António Correia Pais realizou filmes em 16mm entre 1974 e 1975, em Lisboa. Nessa altura José ainda não tinha conhecido a sua futura esposa, Maria Assunção Mendes Martins, de Sardoal. De facto conheceram-se em 1982, em Lisboa e casaram. Infelizmente José adoeceu gravemente e morreu em 2014.

Antes de morrer, Maria Assunção viu José queimar fragmentos de bobines na lareira. Alguns anos depois da sua morte, lembrou-se disso e perguntou-se; qual é o segredo que continham?

Posteriormente entregou os filmes ao Arquivo Municipal – Videoteca de Lisboa para que fossem digitalizados, e poder ver o conteúdo.

Desde 2003 que o Centro de Estudos de História Local de Abrantes organiza as Jornadas de História Local, exceção feita em 2020, devido à pandemia. Este ano Sardoal acolheu historiadores e investigadores que revisitaram diversas memórias individuais e coletivas que fazem parte do património cultural da região do Médio Tejo.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

Entre na conversa

1 Comment

Deixe um comentário

Leave a Reply