Contrariando a propensão quase absoluta de elaborar uns escritos subordinados a temáticas relacionadas com o desporto e em particular com o futebol, decidi desta vez, em consciência e na certeza de que estou na posse de todas as minhas faculdades mentais, redigir este texto falando de eleições, como as que ocorreram no último domingo, de mesas de voto, dos boletins e de merda. Leram bem. MERDA (excremento humano ou de outros animais).
Tal como aconteceu em muitos outros actos eleitorais, fui nomeado para integrar a mesa de uma assembleia de voto nas autárquicas do último domingo, nada de especial decorrendo desse facto. Pese embora por vezes existam algumas situações que carecem de uma atenção ou resolução rápida dentro daquilo que está estabelecido legalmente, do funcionamento das várias assembleias de votos mais próximas nada ia sendo reportado, realizando-se o processo eleitoral de forma natural e sem qualquer contratempo. Portanto, tudo normal.
Encerradas as urnas, foi chegado o momento da separação e contagem dos votos. Desta feita um processo mais moroso, já que numa mesma urna estavam contidos boletins de voto diferenciados, ou seja, para a Assembleia de Freguesia, Assembleia Municipal e Câmara Municipal. Mais uma vez, tudo continuava dentro da normalidade. Entre a alegria dos que ganhavam e alguma tristeza dos que perdiam, lá foram apurados os resultados. Para os vitoriosos, seguiu-se o momento de festa e celebração, para aqueles cujos resultados não foram os esperados, o recato e a reflexão impunham-se. Digo eu.
Contudo, desta vez, a minha missão não estava terminada no que a estas eleições dizia respeito. Havia sido indigitado para a Assembleia de Apuramento Geral para a Eleição dos Órgãos das Autarquias Locais. Uma experiência nova à qual, obviamente, jamais renunciaria. E assim foi, na expectativa de conhecer as pessoas que iriam integrar a dita assembleia e o seu modus operandi, lá me apresentei no local e horário estipulado. Até aqui, mais uma vez, tudo normal.
E eis que durante os trabalhos da assembleia, os presentes são surpreendidos com um episódio cuja classificação dentro de uma linguagem longe do vernáculo, por mais mínimo que seja, não conseguimos encontrar. Eu e os restantes membros que compunham a assembleia. Tudo deixou de ser normal. Aliás, passou-se para a anormalidade total.
Passo a explicar. No apuramento final de uma secção de voto, deparamo-nos com a falta de um boletim de voto considerado nulo, tendo em conta aquilo que estava inscrito na ata das operações daquela mesa de voto. Solicitada ao Tribunal competente a remessa de todo o material a que estávamos obrigados de forma a descortinarmos a anomalia verificada e a sua consequente correcção, qual procura de uma agulha num palheiro, a tarefa a cada minuto que passava revelava-se quase impossível. Até que, num tom de voz algo receoso e expectante se ouve “parece que o que procuramos está aqui neste saquinho”. Tratava-se, nada mais, nada menos, do boletim de voto em falta. Colocado num invólucro de plástico e com a seguinte inscrição: “CONTÉM FEZES”. Só nos restou a incredulidade.
Os olhares dos presentes, num ápice, cruzaram-se. Eu próprio me interroguei se aquilo a que acabava de assistir era real, verdadeiro ou se não passava de um momento de alucinação colectiva. Também podia ser. Mas não. Era mesmo verdade. Um imbecil a quem o Estado Português concedeu o direito de votar, de participar na escolha dos seus representantes, por mais que exista quem não perceba isto, na câmara de voto, deu-se ao desplante de colocar MERDA no interior do boletim de voto, matéria que ele próprio transportou, e depois, juntamente com os outros dois depositá-lo na urna. Imaginem a surpresa geral dos “sortudos” que compuseram esta mesa de voto, aquando da abertura da urna, depararem-se com o cenário relatado. Os quais, ainda tiveram a preocupação de enviar a dita “prenda” devidamente acomodada para o apuramento geral. Um exemplo da degradação completa da condição humana.
Para concluir, até porque isto começa a cheirar muito mal, relembro que, de entre as muitas atribuições que estão consignadas aos elementos que compõe as mesas das assembleias de voto, para além do assegurar do seu normal funcionamento durante a realização de um qualquer acto eleitoral, existem algumas como certificar-se da correcta disposição na sala da mesa de trabalho, das câmaras de voto, de forma a garantir que é rigorosamente preservado o segredo de voto, passou a existir outra: saber manusear boletins de voto com merda. À atenção da Comissão Nacional de Eleições. E outra coisa, no kit da documentação e material entregue a cada secção de voto, sugiro que incluam uns pares de luvas e umas máscaras. Seguramente vai ajudar.
