Aproximando-se o calendário eleitoral o MedioTejo.net decidiu, e bem, suspender a publicação das crónicas escritas por políticos que poderão ser candidatos autárquicos. Portanto está será a minha penúltima crónica por aqui. Lamento apenas que alguns candidatos, normalmente Presidentes em funções, protelem ao máximo o anúncio das suas recandidaturas, para evitar semelhantes limitações ao nível da intervenção pública. Urge que todos os candidatos se apresentem para impedir aproveitamentos ou abuso de vantagem pelo cargo.

Mas a propósito de autárquicas queria deixar um desabafo mais pessoal que é também uma provocação e um alerta para os próximos tempos.

Não sei se é pela qualidade e confiança nos nossos autarcas da região, que na sua maioria têm muita qualidade e respeitabilidade, se é por puro alheamento da coisa pública, noto na região um nível de participação política abaixo do que seria desejado. Não digo que se vote menos do que noutras regiões, não falo de abstenção, falo de participação política, de massa crítica, de reflexão sobre os problemas e as soluções. Quanto votamos não delegamos o nosso futuro a um Presidente de Câmara, escolhemos apenas o poder executivo local.

Cada vez mais é necessário que as forças vivas de cada concelho se assumam, participem no debate e na reflexão que é necessária a cada momento. Em demasiados concelhos, a massa crítica que participa resume-se aos autarcas e isso não chega.

Dou-vos o exemplo de Abrantes apenas a título de exemplo visto ser uma cidade. Concelho com uma história imensa, com um passado e presente de nobres empresários, intelectuais, académicos, com uma diáspora fortíssima, com diversos abrantinos notáveis espalhados pelo país e pelo mundo com extremo sucesso e qualidade, sem esquecer a dimensão e importância das empresas e instituições do concelho. Ou seja, cá e à distância há massa crítica diversa em quantidade e qualidade, mas quem participa e quem se preocupa são praticamente sempre os mesmos dois ou três. As pessoas não se preocupam, não se empenham, não se mobilizam, não participam. Fica tudo delegado na autarquia, num concelho onde até há gente qualificada em qualidade e quantidade para fazer muito mais pela sua terra.

A culpa não pode ser apenas dos partidos ou dos autarcas, essa desculpa já não chega. É uma responsabilidade de todos.

As decisões não ficam cada vez mais nas mãos dos políticos porque eles querem, ou porque até fazem por isso, tal também resulta de uma letargia cívica que é preciso combater e inverter. Mas o problema não é apenas em Abrantes que usei apenas a título de exemplo, é geral.

Os concelhos do interior precisam cada vez mais que as suas gentes se mobilizem, que venham intervir, que venham dar a sua opinião. Questionem-se quantas vezes foram a uma Assembleia Municipal? Ou quantos de vós participaram na consulta pública sobre o PDM do vosso concelho?  Quem já leu o “plano plurianual de investimentos” do seu concelho? Poucos, ou sempre os mesmos.

As autárquicas são o momento certo para a sociedade acordar para os destinos das nossas terras mas, mais do que nunca, importa hoje prolongar o âmbito e o objeto da nossa participação, não deixando tudo na responsabilidade dos autarcas que fazem o que podem para melhorar a vida dos seus concidadãos.

Duarte Marques

Duarte Marques, 39 anos, é natural de Mação. Fez o liceu em Castelo Branco e tirou Relações Internacionais no Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, com especialização em Estratégia Internacional de Empresa. É fellow do German Marshall Fund desde 2013. Trabalhou com Nuno Morais Sarmento no Governo de Durão Barroso ao longo de dois anos. Esteve seis anos em Bruxelas na chefia do gabinete português do PPE no Parlamento Europeu, onde trabalhou com Vasco Graça Moura, José Silva Peneda, João de Deus Pinheiro, Assunção Esteves, Graça Carvalho, Carlos Coelho, Paulo Rangel, entre outros.
Foi Presidente da JSD e deputado na última legislatura, onde desempenhou as funções Vice Coordenador do PSD na Comissão de Educação, Ciência e Cultura e integrou a Comissão de Inquérito ao caso BES, a Comissão de Assuntos Europeus e a Comissão de Negócios Estrangeiros e Cooperação. O Deputado Duarte Marques, eleito nas listas do PSD pelo círculo de Santarém, foi eleito em janeiro de 2016 um dos novos representantes portugueses na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, com sede em Estrasburgo. É ainda membro da Assembleia Municipal de Mação.
Sócio de uma empresa de criatividade e publicidade com sede em Lisboa, é também administrador do Instituto Francisco Sá Carneiro, director Adjunto da Universidade de Verão do PSD, cronista do Expresso online, do Médio Tejo digital e membro do painel permanente do programa Frente a Frente da SIC Notícias.

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