Foto: DR

Se é verdade que o vírus não escolhe quem ataca, não é menos verdade que as consequências desta pandemia não são vividas da mesma forma por todas as pessoas. Há quem esteja muito mais exposto ao desemprego, ao corte de rendimentos através do lay-off, à pobreza, à exclusão digital, à solidão (a solidão mata, é bom não esquecer)…. E viver o confinamento também não significa o mesmo para toda a gente.

As televisões estão cheias de anúncios com famílias praticando múltiplas actividades em casa, gente bem-disposta que tira partido do confinamento, vídeos que nos fazem rir mostrando a criatividade “dentro de portas”. Mas para além de toda esta “felicidade” sabemos que existem muitas casas em que as coisas não se passam desta maneira. Ou porque não há alimentos, ou porque a casa é pequena de mais para tanta gente, ou porque existe lá dentro um agressor e agora é mais difícil pedir ajuda.

Quando dizemos que “ninguém fica para trás” devemos pensar nestas situações, muitas delas conhecidas apenas dos vizinhos, que, por exemplo, têm a obrigação de chamar as autoridades policiais ao menor sinal de violência doméstica.

Quando dizemos que “todos têm um papel” é verdade. Absolutamente verdade e há gente que tem tido um grande papel e que o faz de forma desinteressada e anónima e apenas aparece na foto quando se trata do presidente de uma qualquer Câmara anunciar que deu isto ou aquilo para que prossigam a tarefa a que se propuseram. E nessa foto o lugar principal é sempre do presidente da Câmara…

No território em que vivemos surgiram duas iniciativas (assim como noutros locais) que gostaria de referir: a primeira foi a colocação de “caixas solidárias” cujo lema é “leve o que precisa, deixe o que quiser”. Uma iniciativa altruísta, solidária e anónima, que, ao que parece, encontra adversários naqueles que dão, mas querem que fique registado que deram e consideram que quem recebe deve agradecer. As “caixas” estão espalhadas e podem surgir mais. Caricato, para não dizer outra coisa, é o facto de a Câmara de Alcanena ter mandado retirar a “caixa“ do jardim, por este ser propriedade municipal…. Espero que a esta hora já tenha recuado na sua posição ridícula, mas também autoritária.

A outra iniciativa chama-se #i3DMT – impressão 3D médio tejo. Jovens e criativos, focados nas suas capacidades têm produzido milhares de viseiras e distribuído aos profissionais de saúde, bombeiros, às Câmaras que por sua vez as distribui aos vários serviços que estão em contato com o público. Quando vemos as viseiras colocadas lembremo-nos que significam horas e horas de trabalho numa impressora 3D fazendo quase magia.

São dois exemplos tão ricos que merecem ser divulgados. Nem tudo é caridadezinha, há outra coisa muito mais importante que se chama solidariedade. Aos Municípios compete apoiar, incentivar, abrir caminho, facilitar, é a sua obrigação – mas o mérito é todo deles e delas que se entregaram a ajudar e não de quem está sempre à espera de uma oportunidade para se por em bicos de pés.

Helena Pinto

Helena Pinto, vive na Meia Via, concelho de Torres Novas. Nasceu em 1959 e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda, de 2005 a 2015. Foi vereadora na Câmara de Torres Novas entre 2013 e 2021. Integrou a Comissão Independente para a Descentralização (2018-2019) criada pela Lei 58/2018 e nomeada pelo Presidente da Assembleia da República. Fundadora e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da associação Feministas em Movimento.
Escreve no mediotejo.net às quartas-feiras.

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