Foto: mediotejo.net

Desafiados a aventurarem-se como pequenos cientistas e engenheiros, uma turma do ensino secundário de Vila Nova da Barquinha – os VNBRacers – decidiu arregaçar as mangas, aguçar o engenho, e construir um carro elétrico no âmbito do projeto Greenpower. O carro está feito e já anda, mas nem tudo são rosas num projeto que precisa do apoio da comunidade envolvente para se fazer à estrada. O mediotejo.net foi até à escola D. Maria II conhecer um pouco melhor esta iniciativa.

Que os alunos construam o seu próprio carro elétrico para participar em circuitos de corrida, é essa a principal ideia do projeto Greenpower, no qual participam os VNBRacers, equipa composta por alunos do 11.º ano do Agrupamento de Escolas de Vila Nova da Barquinha. Esta escola foi, aliás, pioneira a nível nacional, no seu escalão, a participar neste projeto que desafia os estudantes a aventurarem-se no mundo da ciência e da engenharia.

Para nos mostrarem o carro a andar – após o terem trazido de um bloco da escola que se encontra mais desviado – o único com portas suficientemente largas para o deixar entrar na sala onde está guardado – os alunos têm de dar uns últimos retoques, colocar as baterias, fazer uns ajustes.

O procedimento já parece bem oleado. É aliás uma ideia oleosa que sugerem, em tom de brincadeira: “e se colocássemos óleo nas rodas? Aí é que o carro não parava, mesmo quando a bateria acabasse”, dizem entre risos, marteladas e apertos.

Uma turma de ensino secundário a construir um carro elétrico para competir, eis os VNBRacers. Foto: mediotejo.net

Este é um autêntico  laboratório vivo, com os alunos a darem vida à ciência e à experimentação, ferramentas com que estão a construir oportunidades de futuro e a desenvolver conhecimento prático no presente.

Dinis Constantino, aluno e um dos principais impulsionadores do projeto, senta-se ao volante pronto para nos mostrar o veículo em funcionamento. Mas, segurança em primeiro lugar! Pelo que Rafael lhe aperta o cinto de segurança. Alguns alunos colocam manualmente o carro em posição, nós apontamos para filmar e fotografar, Dinis carrega num botão, e a magia acontece: o carro começa a andar, movimento culminante da junção do trabalho dos alunos e da energia elétrica.

Foto: mediotejo.net

A ideia da participação neste projeto da GreenPower – organização cujo objetivo é inspirar jovens e apresentar-lhes a indústria de engenharia como uma escolha de carreira, ao mesmo tempo que chama à atenção para os carros elétricos – surgiu a partir da participação de uma equipa do Instituto Superior Técnico, na modalidade universitária, na qual participava o filho da professora Paula Navarro, que lecionava Física e Química na escola D. Maria II na altura, pelo que a ideia foi “importada” para esta escola e dinamizada.

Precisamente para dinamizar este projeto, e por causa da pandemia, este foi alocado a uma turma do curso de Ciências e Tecnologias, que está neste momento no 11º ano, e que trabalha em grupos. Uma equipa multidisciplinar que se articula e complementa tendo em vista obter o resultado final projetado.

Toda a equipa que compõe os VNBRacers. Foto: mediotejo.net

Um dos grupos, o da Mecânica, toma conta do carro a nível da montagem da estrutura, afinações como alinhar a direção, selecionar pneus adequados, assegurar o cumprimento dos parâmetros de segurança da Greenpower e ver possíveis alterações que possam ajudar o motor a não gastar as baterias tão depressa.

Esta ação é complementada pelo trabalho da equipa de Eletrónica, responsável pelas ligações entre os componentes funcionais do carro, pelo que cria sensores para haver uma noção mais clara da performance do carro e das alterações que são necessárias fazer. 

De modo a rentabilizar ao máximo as potencialidades do carro, a equipa de Aerodinâmica é a responsável por projetar a carroçaria de modo a que haja a mínima resistência do ar, para que assim se obtenham maiores velocidades com menores gastos de energia.

A estes trabalhos mais manuais, junta-se a equipa de Marketing, que trata de arranjar patrocínios, que ajudem na participação em provas e na aquisição de equipamentos e materiais, de forma a que a equipa consiga melhorar o carro e a sua performance em corrida, e a de Design, responsável pela parte estética do carro e pela criação do logotipo.

“Isto funciona, ao fim ao cabo, como uma mini-empresa”, diz-nos Paulo Ferreira, professor na escola barquinhense que também ajuda no projeto, e que comenta, ao vermos regressar Dinis e a fazer uma curva, que a direção não está devidamente alinhada: “também é algo que temos de melhorar, provavelmente pedindo ajuda a um mecânico”, confidencia-nos o professor.

Na verdade, são também alguns pais que dão o seu apoio a esta jovem equipa: por exemplo, o pai de Rafael, já esteve na escola por duas ou três vezes para auxiliar nas partes mais mecânicas, nas quais há menos conhecimento, oportunidades aproveitadas pelos alunos para também aprenderem sempre um pouco mais.

Neste projeto existem três níveis de concurso. No patamar mais jovem, “Goblin” (9-11 anos), as crianças recebem por parte da organização os carros elétricos já montados e participam em competições. No segundo nível, “F24” (11-16 anos), os carros são vendidos em kits que têm de ser montados – recebe-se o chassi e tem de se completar tudo o resto. Existe depois ainda um nível, “F24+” (16-25 anos), já universitário, em que os alunos têm de construir um carro de raiz, segundo determinados pressupostos.

O carro elétrico. Foto: mediotejo.net

Os alunos do concelho barquinhense funcionam na estrutura intermédia, de F24, pelo que receberam um kit com o material necessário para montar o carro e pô-lo em funcionamento, algo que  já fizeram, faltando-lhes agora tapar o carro, fase para a qual precisam de apoios. 

Dinis Constantino considera que este é um projeto muito bom, principalmente pela vertente prática que dá aos alunos: “enquanto às vezes nas aulas estamos mais a praticar a teoria, a dar as fórmulas e matérias, aqui estamos a ver como funcionam num caso real, e até podemos utilizar o carro em si para experimentar, por exemplo, a parte da física e química, para fazer várias experiências relacionadas com a matéria da disciplina, o que sempre nos dá uma ajuda nas disciplinas das ciências, matemáticas, engenharias e físicas”.

Dolores Silva, professora de Biologia e Geologia, que acompanha o projeto e os alunos que o dinamizam, considera que este tipo de atividades vai além da matéria que se dá nas aulas. “É claro que tem uma componente mais prática onde se podem aplicar coisas que ensinamos como professores nas aulas, mas vai muito além disso, porque desenvolvem-se competências ao nível do grupo de trabalho que seriam difíceis de dinamizar só com atividades letivas”, explica.

Foto: mediotejo.net

Para o projeto, e  de forma a rentabilizar o tempo, os alunos trabalham tanto dentro da aula como fora dela, “e até mesmo em épocas de paragem”, diz a professora, concretizando: “Ainda há duas semanas houve paragem de atividade letivas e estivemos, via Zoom, a trabalhar para conseguirmos otimizar as atividades que pretendemos fazer e articularmos uns com os outros, pois apesar de estarmos divididos em equipas, todos nós ajudamos a equipa que está com mais trabalho naquela altura e trocamos muitas ideias entre nós”.

A capacidade de encontrar problemas, de os resolver, a discussão entre alunos de forma a encontrar soluções, a cooperação e o trabalho de grupo, bem como o desenvolvimento de raciocínios e de capacidades cognitivas, são alguns dos principais benefícios que o projeto oferece aos alunos, que Dolores Silva prontamente nos enumera.

E isto abrange não só as competências STEM – sigla inglesa, que em português se traduz em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática – mas vai para além disso, tal como explicou a docente, uma vez que, além da base do inglês – pois toda a atividade tem como língua comum o inglês – existe a necessidade de contacto com outras pessoas e empresas, de modo que são também desenvolvidas competências ao nível da comunicação, seja escrita ou oral, ou do marketing.

Foto: mediotejo.net

“Não são só conhecimentos, é uma excelente ferramenta para desenvolver competências”, sintetiza Dolores Silva, complementando com o facto de muitas destas competências serem já ao nível do ensino superior, uma vez que os alunos trabalham com ferramentas complexas como o é o caso do SolidEdge, um software de modelagem sólida. 

Os VNBRacers foram verdadeiros pioneiros, uma vez que foram a primeira equipa a ser criada, no seu escalão, em Portugal. Neste momento há mais duas equipas no país, além da de Vila Nova da Barquinha, e embora a GreenPower seja originária do Reino Unido, no caso das equipas de Portugal, estas inserem-se na organização GreenPower Iberia, sediada em Espanha.

Os circuitos, até ao momento, são todos feitos em território espanhol, pelo que quando a equipa participar na corrida vai precisar de assegurar transporte, mais um aspeto que reforça a necessidade de patrocínios. Existe sempre também a esperança que, com um eventual aumento do número de equipas portuguesas, sejam feitas algumas corridas em Portugal.

Logotipo dos VNBRaceres.

Entretanto a equipa vai tentando piscar o olho a mais pessoas, em busca de ajuda, quer seja ao nível da escola – para manter o carro e solucionar os problemas que vão surgindo – quer seja na divulgação do projeto e na angariação de patrocínios para quando participarem nas corridas. 

“Precisamos de patrocínios… e muita carolice, essa também é sempre muito precisa”, sorri a professora Dolores.

Tendo em vista o apoio da comunidade e das empresas, a escola vai promover a apresentação pública do projeto no próximo dia 3 de dezembro, sexta-feira, no auditório da Escola D. Maria II.

Rafael Ascensão

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo.

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