Organizado pelo Regimento de Tropas Paraquedistas, no âmbito das comemorações do 67º aniversário, que se assinala a 23 de maio, o seminário analisou o historial das tropas paraquedistas no continente africano, desde a guerra colonial até aos dias de hoje, com um auditório repleto de militares paraquedistas que se dedicaram a ouvir e a partilhar experiências de guerra e de missões de manutenção de paz em África, num ambiente extremamente difícil e de grau de exigência muito elevado.
As tropas paraquedistas têm estado incontornavelmente ligadas ao continente africano desde a guerra colonial, e, atualmente, através das Nações Unidas, em missões de manutenção de paz.

O Comandante do Regimento das Tropas Paraquedistas, Coronel Capinha Henriques, em declarações ao mediotejo.net, afirmou que após dois anos de paragem devido à pandemia, era hora de “voltar à normalidade e “juntar as gerações mais velhas com as novas, que era o que nós costumávamos fazer”.
Foi escolhida a temática do continente africano pelo conjunto de semelhanças entre as operações do passado e as de hoje. “A diferença está apenas na questão das idades e da tecnologia”, frisou o comandante, ressalvando a importância da partilha de experiências vividas.

Apesar das missões internacionais serem compostas por militares de diferentes países, as tropas paraquedistas são o “ex-libris” destas operações, os “soldados estratégicos”, devido à sua capacidade de adaptação às diferentes situações.
Houve até quem falasse, numa das intervenções, que o oponente africano se escondia durante o dia no mato, com medo dos portugueses, e de noite invadiam as casas da comunidade. Face às queixas, uma noite os portugueses fizeram uma emboscada para apanhar desprevenido o inimigo.
O Tenente-Coronel Paraquedista Óscar Fontoura, foi em 2019, na operação BEPKA II, em Bambari, o comandante da Força de Reação Rápida portuguesa na República Centro-Africana (RCA). No seminário apresentou os contornos da missão, desde o armamento utilizado, o dia a dia das operações, e as dificuldades que os militares portugueses encontraram no terreno.
A tecnologia, para Óscar Fontoura, foi um dos pontos essenciais da missão, nomeadamente a utilização de drones, vistos nos dias de hoje como uma arma de guerra e que facilitou em muito as investidas, particularmente na sua antecipação. Isto é possível porque cada vez mais os militares que estão a ser formados que já detêm um know how bastante grande sobre as novas tecnologias e o seu potencial.
“Estas operações são momentos que colocam as pessoas em situações de nível de stress muito elevado. Nós fazemos para que a integridade física de cada um deles não esteja em causa, mas só por viver esta situação já é marcante. Nem que seja marcante pela razão premente de preservar a vida”, notou Óscar Fontoura.

Uma das situações mais marcantes que o Tenente-Coronel vivenciou foi com um militar que foi ferido, tendo feito notar que todos os momentos em que estiveram frente e frente com as forças oponente foram marcantes. “Numa forma geral, em termos de carreira militar profissional, fazer uma missão destas no exterior é difícil. Só o facto de eu ter voltado e os meus militares são e salvos, para mim já foi importante.”
A nível das dificuldades que os militares portugueses passaram em 2019, em Bambari, o terreno, a meteorologia e as viaturas usadas foram os aspetos mais complicados. “A própria área de operações era difícil para chegarmos ao locais, as viaturas eram muito pesadas e as condições meteorológicas não ajudavam, o índice de humanidade e as temperaturas eram elevadíssimas”, relatou.
Contudo, as dificuldades não eram apenas físicas, mas também emocionais. O lema da equipa militar de Óscar Fontoura era “o combatente mais importante fica no território nacional”, e este mote retrata a distância a que todos estavam de casa. O Tenente-Coronel afirmou a importância do lar para os militares e da sua estabilidade.
“Se as famílias não estiverem estáveis, isso pode influenciar muito o desempenho do militar em combate”.
As comemorações terminam no dia 23 de maio, no Regimento de Paraquedistas, no polígono de Tancos (Vila Nova da Barquinha), naquela que é a Casa-Mãe de todos os paraquedistas, onde todos receberam formação militar, uma boina e um lema para a vida: “Que nunca por vencidos se conheçam”.
Neste dia muitos são os milhares de paraquedistas que se deslocam de todas as zonas do país e de fora dele até à “Casa Mãe”, para, uma vez mais, reencontrarem velhos amigos, avivar memórias, e relembrar camaradas de armas, como se de uma reunião de família se tratasse.
