Aconteceu esta semana mais um crime hediondo. Um individuo matou quatro pessoas, uma delas grávida de sete meses, por não quererem ser suas testemunhas abonatórias num caso de violência doméstica.
Continuamos a assistir a estas situações gravíssimas, e apesar de muita coisa ter mudado nesta matéria nos últimos tempos, muito ainda há por fazer.
As vítimas continuam a não se sentir protegidas pelo nosso sistema legal, que é muitas vezes lento. A sociedade continua a aceitar ou a tolerar alguma desta violência, e por isso continuamos a ver vitimas voltarem para os agressores por medo das ameaças ou porque não se sentem seguras de outra forma. Por mais que os órgãos de polícia criminal e os profissionais da área psicossocial tenham intervenção nestes casos e orientem e apoiem as vitimas, elas sentem-se muitas vezes tentadas a voltar para eles (agressores). Sofrem por estar com eles, mas sofrem também por estar longe deles, desvalidas de proteção.
É difícil em muitos casos compreender o porquê de uma vítima querer voltar para junto do agressor, mas do ponto de vista emocional é compreensível. São na maioria mulheres que nunca viveram de outra forma, que nunca receberam um elogio, nunca geriram o seu dinheiro, nunca trabalharam fora de casa, estão afastadas de familiares e amigos, vivem para “servir” o agressor.
Tudo o que ele lhe diz, de que não vale nada, de que nada é sem si, acaba por ser reforçado quando ela toma a iniciativa de sair de casa, mas não tem o suporte da sociedade e da justiça que deveria ter. Sedutores por natureza, os agressores são muitas vezes bem vistos pelos outros, sendo para muitos difícil acreditar que aquele individuo seja um monstro. Depois, porque “até prova em contrário, todos são inocentes” e por isso há que dar o benefício da duvida.
A violência psicológica/emocional é a mais difícil de provar, e se não existirem evidências físicas fica complicado acreditar à primeira vista no que se tem à frente. Tudo isto vai dando espaço para que estes indivíduos continuem perto da vitima, que continuem presentes no seu dia a dia, que mantenham o controlo das suas rotinas e que tenham oportunidade para as continuar a agredir, ou a agredir quem as tenta proteger.
Há trabalho a ser feito por cada um de nós. Mudar mentalidades, mudar os olhares sobre os papeis do género masculino e feminino na nossa sociedade, mudar crenças e valorizar o sofrimento dos outros. Há muito que este assunto deixou de ser privado. Temos de fazer alguma coisa, para não continuarmos a ter noticias destas todos os dias.
