Paula Gamito trouxe "O Bolo de chocolate mais feio de Vila de Rei" até à nova cafetaria do Museu de Geodesia, "Rosa dos Ventos", junto ao Centro Geodésico. Foto: mediotejo.net

A experiência de visitar o Picoto da Melriça e o Centro Geodésico em Vila de Rei tornou-se mais doce por estes dias. O Museu de Geodesia reabriu portas após obras de beneficiação e a cafetaria no seu interior abraçou uma nova ideia, a Rosa dos Ventos. Paula Gamito e João Rosa trocaram a capital pelo ar puro e a proximidade com a natureza depois de encontrarem em Vila de Rei condições privilegiadas para produção da sua marca de absinto e de ali quererem projetar um hotel rural ecológico nas imediações da praia fluvial do Bostelim, a ‘Encosta dos Gamitos’. As ideias são muitas e a vontade de fazer e desenvolver novos produtos, projetos e parcerias locais é grande. Tudo razões que justificam a troca da azáfama da cidade pela qualidade de vida do interior, onde encontraram espaço e tempo para darem forma aos seus sonhos.

Rosa dos Ventos, que surge da alma de viajante que Paula e a família têm, e que traz até ao centro de Portugal os pontos cardeais que norteiam quem por ali passa, por exemplo a fazer a rota da Estrada Nacional 2, ou que dali parte em busca de novos destinos e aventuras para Norte, Sul, Este ou Oeste.

Para adoçar a chegada e reconfortar e ajudar na decisão para a partida, Paula é agora responsável pela nova cafetaria do Museu de Geodesia, bem lá no alto, junto do afamado Picoto do Centro Geodésico, imagem de marca de Vila de Rei e de onde se tem vista periférica sobre a envolvência e a Serra da Melriça.

É ali que passa a disponibilizar no menu algumas iguarias e doçaria feitas pelas suas mãos, uma delas com um nome muito sui generis: o bolo de chocolate mais feio de Vila de Rei.

Foto: mediotejo.net

O nome não faz jus ao bolo em si, nem ao aspecto que muitas das vezes resulta numa fatia bem cortada e nada desmanchada, nem ao sabor forte e puro a cacau, que invade o paladar enquanto cada pedaço se desfaz como uma mousse caseira acabada de fazer, tudo com produtos naturais e biológicos.

Porquê feio? “Não tem farinha, não tem glúten, não tem lactose, é um bolo mole. Feito com óleo de coco, açúcar de coco, ovos locais e frescos do dia, com cacau. Estes ingredientes, quando não estão no frio, começam a derreter. É um bolo tipo mousse. E de vez em quando fica feio ao ser servido. Daí baixarmos as expetativas. Mas é saudável! E preferimos deixá-lo assim. E é um nome que atrai”, justifica.

Outros produtos na ementa passam pelo fudge de gengibre – uma espécie de caramelo feito artesanalmente – além do pão com chouriço ou pão com farinheira, ou tigelada, além de chás, tisanas e café ou chocolate quente.

“Gostamos de viagens, gostamos de natureza, viemos parar a Vila de Rei e ficámos apaixonados. Estamos aqui desde agosto e estamos a desenvolver alguns projetos no concelho”, começa por contar Paula.

Um dos desafios foi, ao sair de Lisboa, trazer na bagagem as receitas e projetos que foram amadurecendo ano após ano.

Foto: mediotejo.net

Caso do “bolo de chocolate mais feio” que já existia na capital. Paula foi também proprietária de um restaurante vegetariano, cerca de 20 anos, em Lisboa e esteve ligada à gestão de marketing, mas tinha outro projeto em mãos, tendo desenvolvido uma marca própria de absinto e encontrando em Vila de Rei apoio para utilização da destilaria municipal.

Dado o gosto pelo cultivo e utilização de ervas aromáticas e produtos biológicos, os promotores começaram a projetar uma horta biológica, e daí aparece outro empreendimento na calha.

Outro projeto, que se encontra em fase de licenciamento na Câmara Municipal de Vila de Rei, mas está “bem encaminhado”, é o hotel rural de três estrelas inserido numa quinta de agricultura biológica e que se localizará numa das encostas perto da praia fluvial do Bostelim. Vai chamar-se ‘Encosta dos Gamitos’, segundo Paula.

Vila de Rei | Novo hotel rural projetado para as imediações da praia do Bostelim

Quanto ao espaço da cafetaria do museu, a que Paula e João concorreram na hasta pública para concessão, dizem ser o local “perfeito” para “dinamizar o bolo, mas também as atividades do museu, tornando-o mais interativo, torná-lo mais aliciante, e ser um ponto central da Nacional 2 de visita obrigatória com caraterísticas únicas”.

“Acho que aqui é o centro de mundo, e não poderíamos ter feito melhor opção, nem poderíamos ter encontrado melhor espaço para assentar”, afirma Paula, dando conta de que irão começar a plantar as ervas aromáticas para servirem para confecionar bolos e iguarias a servir na cafetaria, bem como chás, sendo intuito contactar os produtores locais para que possam ter representatividade neste novo espaço, que já tem certificação biológica.

Foto: mediotejo.net

A família quer devolver a forma “gratificante” como o povo de Vila de Rei os recebeu, e por isso, quer ajudar no desenvolvimento socioeconómico e impulsionar novas oportunidades de negócio e dinâmicas turísticas. “Queremos ser um bocadinho agentes turísticos no Centro Geodésico, mas também desenvolver as suas atividades culturais e comerciais, dando oportunidade aos produtores para venderem aqui os seus produtos”, nota.

Funciona como estágio e rampa de lançamento, a oportunidade para irem contactando com as gentes, conhecendo os produtores e dinâmicas locais e darem a conhecer os seus projetos e ideias que querem implementar no futuro.

Perante o Museu, que alberga este projeto, os promotores pretendem fazer parcerias “externas e internas”, com o intuito de “atrair crianças, ensinar o que é a geodesia”. Uma das intenções neste âmbito é fazer parceria com o Instituto Português de Geografia, “para fazer uma rota da Geodesia e demonstrar toda a importância que tem em termos de comunicação e afins”.

Foto: mediotejo.net

“Vamos começar a desenvolver a partir daqui, tornar o espaço do Museu mais interativo, ter mais ações e mostrar o potencial e interesse que tem”, conclui.

Para já, e sendo um dos pontos de passagem da Rota da Estrada Nacional 2 – a Route 66 portuguesa – o Museu da Geodesia é um dos locais onde carimbar o passaporte. Agora, quem por ali passar ganha direito ao carimbo do Museu e do Centro Geodésico, mas também do selo branco d ‘O Bolo de Chocolate Mais Feio de Vila de Rei’ da cafetaria ‘Rosa dos Ventos’. Antes ou depois de se deliciar com uma fatia.

Sobre o Museu de Geodesia

Foto: mediotejo.net

O Museu da Geodesia foi inaugurado em 2002, sendo resultado de uma parceria entre a Direção Geral do Território e a Câmara Municipal de Vila de Rei, situado ao lado do Picoto da Melriça no Centro Geodésico de Portugal. Segundo a autarquia, “veio preencher uma lacuna relacionada com o importante legado histórico e científico deixado por grandes nomes de cientistas portugueses que trabalharam em prol da modernização da geodésica nacional”.

A famosa pirâmide em alvenaria, que é o Picoto da Melriça, é um dos primeiros vértices geodésicos do país e está a 592 metros de altitude. Esteve inclusivamente na origem do  sistema de coordenadas geográficas associado ao Datum 73, o sistema de referência nacional.

Picoto da Melriça. Foto: DR

Foi pela mão de Francisco António Cieira que tudo começou, pois escolheu o topo da Serra da Melriça – de onde se avista em dias de céu limpo a Serra da Estrela – enquanto “um dos pontos da triangulação fundamental em Portugal”, sendo que, destaca a CMVR, “os trabalhos arrancaram em 1790, mas foram interrompidos treze anos depois devido às invasões francesas”.

A entrada no museu faz-se por uma rampa metálica, e à entrada a receção e depois, do lado direito, a cafetaria. Do lado esquerdo tem um corredor envidraçado com vista para o picoto, sendo que todo o espaço dispõe de grandes janelas com vista para as serranias envolventes. Dispõe ainda de uma sala de exposições com os painéis informativos da exposição permanente, zona de venda de produtos alusivos ao museu e ao concelho e um pequeno auditório multimédia.

As primeiras observações para a triangulação do local seriam feitas em 1870, enquanto que as observações astronómicas de latitude, longitude e azimute. Já as primeiras observações por satélite no picoto da Melriça decorreram nas décadas de 1960 e 1970. Em 1982 procedem-se a observações de distância integradas num poligonal norte-sul, usando-se pela primeira vez, já no início dos anos de 1990, o sistema de posicionamento global GPS.

O museu guarda uma coleção de instrumentos geodésicos, onde se incluem o Fototeodolito Wild, taqueómetro Casella, sextante Cary, Círculo de Reflexão Dollond e o cronómetro Ulysse Nardin, parte do património que vem desde o séc.XVII e que mostra “a evolução histórica dos aparelhos que tornaram possível o desenvolvimento das operações relacionadas com a Geodesia do nosso país”.

Com entrada gratuita, o Museu de Geodesia passa a funcionar das 09h00 às 17h00, sem interrupção à hora de almoço.

Do alto do Centro Geodésico, onde se avista o Picoto, aguarda os visitantes e convida-os a entrar com motivos de diversa ordem: absorvendo os conteúdos museológicos, mas também aproveitando para recarregar baterias à mesa da ‘Rosa dos Ventos’, guardando tempo para dois dedos de conversa enquanto aproveita a paisagem em Vila de Rei.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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