Foto: mediotejo.net

Decorreu este domingo, na pacata freguesia de São João do Peso, concelho de Vila de Rei, a eleição da nova mesa de Plenário de cidadãos eleitores bem como da presidente de junta e respetivos vogais. Rosário Cavalheiro (PSD) foi reeleita para o cargo que desempenha desde há oito anos a esta parte, estando a caminho dos 12 anos (três mandatos) permitidos por lei. A presidente de junta que quer “lutar até ao fim” pela freguesia com menos eleitores do continente e que diz ser imperativa a atuação do Governo central quanto ao interior do país, vê agora a filha, Rita Cavalheiro, presidir à mesa de plenário. Na tarde de domingo 66 pessoas (de um total de 126 eleitores), independentemente da idade, condição física e de saúde, deslocaram-se ao centro de São João do Peso para votar.

À chegada o ambiente é de calmaria, vento forte e céu pintado de nuvens de fumo causadas pelo incêndios que lavravam na região. Ouvem-se vozes no café de esquina, o São João, e o tema de conversa é precisamente esse, a condizer com as imagens que passavam na tv: incêndios.

Perto das 16h00 o movimento começa a ser evidente, automóveis chegam, trazendo os eleitores, maior parte à boleia pela idade avançada. Depressa a espera para ir subindo até à sala, tipo anfiteatro, da Casa do Povo de São João do Peso, se converte num reencontro entre fregueses que já não se viam há algum tempo. Outros, dependentes pela sua dificuldade de deslocação e pelo peso da idade, vêm apoiados por cuidadores, nomeadamente do centro de acolhimento da freguesia.

Dos 126 eleitores inscritos, 66 marcaram presença no plenário de cidadãos, tendo sido considerada das sessões mais participadas até à data, segundo indicou o presidente cessante da mesa de plenário, Carlos Firmino.

Após aprovação do novo método de votação, secreto e com urna, o presidente cessante conduziu os trabalhos desta sessão ordinária de Plenário de Cidadãos Eleitores, sendo chamados 2 a 2 a votar e deixando na urna o boletim impresso naquela hora, de uma lista única (lista A), não havendo outras propostas a votação.

Um a um, cada cidadão recenseado foi dando entrada na Casa do Povo, deixando os seus dados para contagem das presenças no plenário. Foto: mediotejo.net

Assim sendo, e com 63 votos a favor e 3 em branco, passaram a integrar a mesa de plenário a presidente Rita Cavalheiro, filha de Rosário Cavalheiro, e ainda Manuel Serras e Mateus Rodrigues, procedendo-se de imediato à sua instalação, após Carlos Firmino cessar funções e agradecer o envolvimento dos conterrâneos nos últimos 4 anos.

Entrando em vigor a recém-eleita mesa de plenário, eis que Rita Cavalheiro prossegue com a ordem dos trabalhos, seguindo-se aprovação do método de voto secreto por lista para eleição e aprovação da Junta de Freguesia. Nesta ocasião, também com lista única (lista A), Rosário Cavalheiro, recandidata ao cargo, é reeleita por mais 4 anos com 64 votos a favor e 2 votos brancos, tendo como vogais Manuela Silva e Manuela Henriques.

Entre os presentes está Maria Encarnação, a eleitora mais velha do plenário, com 99 anos, e na sala um bebé, com 5 meses, acompanha os pais, jovem casal de eleitores recenseados, qual flagrante dicotomia. E após votação da junta, eis que duas eleitoras pedem ao plenário para se ausentar, e a vontade é respeitada. Uma delas foi Maria Luísa Portela, de 84 anos, que parte dali para Tomar e Maria Fernandes também se ausenta da sessão, uma vez que os problemas de coluna não lhe permitiram ficar mais tempo sentada, num plenário que durava já há cerca de uma hora e meia.

Maria Encarnação, a eleitora mais velha do plenário, com 99 anos, votou com ajuda, mas sempre sorridente. Foto: mediotejo.net

Por fim, parte-se para o ponto 3, para aprovação do Regimento do plenário, que define o novo método de votação privilegiado (voto secreto em urna) quando envolva pessoas ou atitudes pessoais. De resto, todas as votações que se prendam com propostas ou medidas a tomar sobre a freguesia ou similar serão efetuada em democracia direta, com votação de braço no ar, algo que é já ato comum neste plenário de cidadãos eleitores.

Após leitura da ata daquela sessão, e já soara entretanto o toque do sino da igreja a marcar as seis da tarde, e assim que é aprovado o documento por unanimidade, fica a indicação de que as sessões serão sempre realizadas ao sábado, pelas 16h30 em horário de verão, e pelas 18h00 assim que comece o inverno.

Pelas 18h20 dá-se por terminada a sessão deste plenário. Uma salva de palmas aos recém-eleitos entoa no edifício, e numa fila deveras ordenada em direção à escadaria para a saída, apontava em direção a Rosário Cavalheiro para cumprimentos e parabenizações na primeira pessoa. A boa disposição reinava, bem como a relação intimista propiciada pelo facto de a eleita saber quase de cor e salteado a vida e obra dos seus eleitores.

Em declarações ao mediotejo.net, Rosário Cavalheiro, funcionária pública de 56 anos, mostrou-se agradecida pela confiança dos seus fregueses ao ser eleita por mais 4 anos enquanto presidente de junta de freguesia pelo PSD.

Notando cada uma das dificuldades sentidas, e não ocultando a realidade pouco risonha que os números ditam para o futuro que se avizinha para São João do Peso, Rosário Cavalheiro reconhece a falta de atenção do governo perante o interior de Portugal, mas não esmorece, ainda para mais, tendo “a maioria” presente na sua reeleição.

Na sessão, após instalação da nova mesa de plenário presidida por Rita Cavalheiro (ao centro), a sua mãe, Rosário Cavalheiro é reeleita para fechar um ciclo de 12 anos ao serviço da freguesia. Foto: mediotejo.net

“Quando me deito na minha cama já estou a pensar no trabalho ‘de amanhã’… Todos os dias, às 7h30, reúno com o funcionário da junta, que só tenho mesmo um”, explicou a presidente de junta, referindo ainda que o trabalhador havia sido contratado para o quadro enquanto coveiro, mas após alterações das categorias passou a assistente operacional, que é como quem diz, faz-tudo. “Colabora muito bem comigo, faz todo o trabalho solicitado”, assumiu, sorridente, admitindo ainda que na hora de meter mãos ao trabalho, não se faz rogada.

Quanto à atuação do governo central para com o interior, a autarca é crítica, e as verbas, essas, são parcas para que a própria freguesia possa fazer mais e melhor no que toca a favorecer a atração e fixação de pessoas. “Acho que o governo central devia olhar mais para o nosso Interior, e ver que as pessoas do Interior são iguais às do Norte e do Sul, e precisam de ter as mesmas oportunidades, as mesmas coisas”, afirmou, acrescentando que é necessário pensar e tomar medidas que tragam um desfecho diferente e, efetivamente, positivo.

Ao centro, Rosário Cavalheiro (PSD), ladeada pelas vogais da Junta de freguesia, Manuela Silva e Manuela Henriques. Foto: mediotejo.net

A vontade de fazer subsistir a freguesia é notória, tanto que, questionada sobre uma possível fusão com outra das freguesias [Vila de Rei tem apenas três: Vila de Rei, São João do Peso e Fundada], sendo que já havia sido pensado em tempos a agregação a Fundada, a expressão no rosto da autarca mostra que o orgulho em pertencer ali é mais forte do que tudo o resto. E se haviam dúvidas, a mensagem final pôs os pontos nos i’s.

“Sendo poucos, não podemos deixar que a freguesia acabe. Vamos lutar até ao fim”, concluiu, ditando aquele que é o grito de uma guerra que se revela complexo, em contra-ciclo e contra o tempo, cujos fatores são espelho da realidade nua e crua de um Interior cada vez mais envelhecido, empobrecido e esquecido… mas que ainda sente. E ainda mexe.

 

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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