O anúncio da saída da provedora Irene Barata, com 80 anos, foi efetuado pela própria na assembleia da Santa Casa que decorreu no dia 6 de abril e que serviu para aprovação das contas de 2023, após um período algo conturbado em termos financeiros e que obrigou a uma reestruturação e intervenção do Fundo de Socorro da Segurança Social, com apoio a uma instituição que teve o ano passado um orçamento de 6.7 milhões de euros. As medidas, entre outras, passaram pela redução do número de funcionários (-17, incluindo os dois elementos da direção geral) e implementação de medidas com vista à redução de despesas com energia elétrica.
As contas de 2023 foram aprovadas com um saldo positivo de 476 mil euros, “uma evolução positiva de mais de 873 mil euros”, deram conta ao mediotejo.net os responsáveis pela gestão financeira da Santa Casa de Vila de Rei, tendo realçado um “aumento do ativo corrente em 300 mil euros” e uma “redução do passivo de 6.3 para 5.3 milhões de euros”. O património da Misericórdia está neste avaliado em cerca de nove milhões de euros.
O mediotejo.net marcou presença na assembleia geral de aprovação de contas e em que foi anunciada a saída da provedora Irene Barata e da extinção da direção geral, tendo o momento servido também para homenagear sete funcionárias com 25 anos de serviço.

“Sim, como provedora realmente é a última [assembleia geral]. São 26 anos e dado que nos últimos 10 anos fizemos muito investimento, uns milhões largos de investimento, passámos alguns anos bastante difíceis. Neste momento temos as contas em ordem, a casa está a respirar saúde, quer financeira, quer em termos pessoais. A casa está muito bem arrumada, mesmo em termos humanos, e realmente penso que é a hora de deixar este projeto, embora isso me custe muito. Sinceramente, custa um bocadinho, mas é assim a vida”, disse Irene Barata ao mediotejo.net.
“Se a casa não estivesse tão bem entregue, quer em termos de funcionários como já disse, quer em termos financeiros, eu não deixaria o barco, mas como as coisas estão a caminhar muito bem, está tudo muito bem organizado. Digo-lhe que é com alguma vaidade que digo que a Santa Casa está muito bem organizada… as diretoras, todos os funcionários têm colaborado e receberam muito bem as instruções que lhes têm sido dadas pela direção geral que teve aqui um trabalho excelente”, declarou.
Criada em 2017, a direção geral da Santa Casa da Misericórdia de Vila de Rei, composta por Valdemar Joaquim e Celeste Costa (vice-provedora) cessa também funções este mês de abril, por força do compromisso assumido com a Segurança Social no âmbito do plano de reestruturação financeira da instituição.
“Foi por indicação minha [criação da direção geral], porque eu sentia que quando estive na Câmara eu era obrigada a confiar nas diretoras dos vários lares e claro que eu não tinha tempo disponível para poder dedicar-me a 100%. Por isso, quando fizemos o Centro Geriátrico, havia necessidade de contratar um engenheiro para acompanhar as obras. Era uma obra muito grande e havia necessidade, então foi isso que fizemos, e depois acabámos por contratar o mesmo engenheiro e constituir a direção geral”, lembrou Irene Barata.

“Foi então decisão da mesa administrativa criar uma direção geral porque era um barco já muito grande e eu necessitava de pessoas capazes, com outra disponibilidade que não a minha, para tomar conta e levar este projeto a bom porto e foi isso que aconteceu. Em boa hora foi tomada essa decisão. Graças a essa direção geral a casa também está hoje como está”, realçou a provedora, que cessa funções a 21 de abril.
“É um projeto que realmente estou a concluir e tenho de ir pensar noutro, em qualquer coisa”.
Irene Barata quando foi eleita provedora da Santa Casa, a instituição tinha 30 camas. “Hoje tem cerca de 300. Tinha 20 e poucos funcionários, hoje tem cerca de 250. Portanto, é uma diferença muito grande, mas é assim que eu gosto, é ver crescer as coisas”, afirmou, manifestando preocupação com o desenvolvimento do concelho.
“Sempre me preocupou muito e hoje continua a preocupar, digo-lhe sinceramente que hoje continua a preocupar-me o concelho de Vila de Rei”, disse Irene Barata, não escondendo a filiação ao PSD e a vontade em assumir novos projetos, quiçá políticos.
“Eu gostava muito de ser presidente da Junta de Freguesia da Fundada… não quer dizer que não venha ainda a fazer uma candidatura. Se o PSD não me quiser, pode ser que haja quem queira [risos]. Gostava muito. Sou filiada no PSD há 40 anos, fiz no dia 1 de março deste ano 40 anos de filiada. Estava em Lisboa quando me filiei no PSD”, lembrou, tendo declarado estar “muito contente com as medidas que estão a ser tomadas e que vão ser tomadas por este novo governo”, liderado por Luís Montenegro.
“Isto ser provedora da Santa Casa não quer dizer que seja só cuidar daquele nicho de pessoas. É preciso ter uma visão diferente, que pertence, e que também deve ser uma intenção da Santa Casa, procurar criar condições para que haja mais pessoas com menos necessidades. Isto é, que o desenvolvimento da terra tenha realmente isso em vista. Procurar o bem-estar de mais pessoas (…) deve haver uma outra dimensão no pensamento de um provedor ou de outra pessoa qualquer que está ao serviço da comunidade”, disse Irene Barata, assumindo o objetivo de abraçar novos projetos mas não abrindo o véu sobre o que tem em mente.
“Estou a pensar neles, em outras coisas [risos]. Ainda não…embora tenha a idade que tenho ainda não queria [a reforma]. Novos projetos para Vila de Rei, sim. Não queria ainda ir para casa calçar as pantufas, isso não”, afirmou, tendo deixado uma palavra pelos 26 anos de trabalho como provedora aos irmãos da Santa Casa e aos funcionários da instituição.
[A quem dedica o trabalho] “A todos os irmãos e especialmente a todos os funcionários da Santa Casa, são eles, realmente, a trave mestre de todo este desenvolvimento que a Santa Casa tem tido e são eles que vão continuar este trabalho. Por isso, para eles, para todos os funcionários da Santa Casa o meu obrigada, por tudo”, concluiu.
Ouvido pelo mediotejo.net, o diretor geral da Santa Casa, Valdemar Joaquim, falou de um “fim e ciclo” e de um sentimento de “missão cumprida”.

“Este é um fim de ciclo de todo um trabalho que foi feito ao longo destes últimos anos, desde 2017 até agora, no intuito de fazer com que a Santa Casa criasse as condições para ser economicamente viável e ficar relativamente bem financeiramente”, indicou.
“Portanto, com todos os investimentos que se fizeram para criar mais postos de trabalho, para criar mais receita, fruto da aprovação de candidaturas que fizemos e que felizmente foram aprovadas, possibilitou-nos chegar a esta altura com um resultado muito positivo e encarar o futuro com mais otimismo. É um fechar de um ciclo para os atuais órgãos sociais, que este era o último ano de mandato, e fecha-se assim um ciclo, não digo com chave de ouro, mas com resultados positivos, que era o nosso objetivo”, afirmou o responsável, que está também de saída.
“A extinção da direção geral era uma medida que estava preconizada na candidatura que efetuámos ao fundo de socorro social e que felizmente foi aprovada. A candidatura foi aprovada, mas se não tivesse sido aprovada essa também era uma das medidas que teríamos de adotar forçosamente para reduzir a despesa. No fundo este é o nosso contributo (…) contribuir para a sustentabilidade da Santa Casa”, disse Valdemar Joaquim, que disse ter o futuro “em aberto”.
“O futuro a Deus pertence, vamos ver. Está tudo em aberto. A nível profissional está em aberto, agora há de haver um tempo para descansar e refletir sobre o futuro. Para já saímos, realmente, com o sentimento de missão cumprida, conseguimos, claro, com a ajuda de todos, dos colaboradores, das entidades competentes, as entidades que nos tutelam ajudaram… a verdade é essa, porque confiaram no nosso trabalho e fruto dessa confiança, apostaram também em nós. Nós candidatámo-nos e eles acabaram por aprovar as candidaturas porque confiaram no trabalho que estávamos a desenvolver e naquilo que podíamos fazer. Portanto, missão cumprida. Aliás, o espírito que tínhamos era de missão e agora é um sentimento de missão cumprida”, concluiu.
Com cerca de 250 funcionários e mais de 300 utentes, a Santa Casa da Misericórdia de Vila de Rei tem hoje em funcionamento diversas valências, quase todas preenchidas e com listas de espera, nomeadamente de Creche (34 lugares), Serviço de Apoio Domiciliário (36 utentes), Unidade de Cuidados Continuados (68 utentes, 38 dos quais de longa duração), e três lares (ERPI), nomeadamente a de Santo António (60 utentes), Casa do Idoso (49 utentes) e Nossa Senhora da Esperança (Centro Geriátrico) com 117 utentes.
O presidente do Conselho Fiscal, João Campino, por sua vez, elogiou o trabalho desenvolvido pela provedora Irene Barata ao longo dos últimos 26 anos, e a dinâmica da instituição.

“É raro haver uma associação de cariz social como a Santa Casa da Misericórdia dar lucro e foi isso que aconteceu nestas contas de 2023. Por isso, é com uma grande satisfação que eu vejo o esforço que foi feito e numa dedicação extrema, não só da parte da senhora provedora como também do diretor da Santa Casa, que trabalharam muito profundamente para se chegar a este saldo positivo”, indicou, tendo feito notar uma estrutura “pesada” de gerir, com cerca de 250 funcionários e mais de 300 utentes.
“É uma estrutura pesada, como disse e bem, não só pela envolvência das funcionárias, do número que disse e está correto, como também de toda a estrutura em si. Por isso, quem acompanha verdadeiramente e de coração a Santa Casa da Misericórdia, sabe o valor que foi, o sacrifício que foi e o acompanhamento diário que foi realizado, no caso concreto pela senhora provedora e pela direção”, afirmou.
“Por isso, por mais anos que existam, a Santa Casa da Misericórdia há de estar sempre ligada ao nome da provedora, neste caso, a dona Irene Barata”, concluiu.
Irene Barata – 24 anos como presidente de Câmara e 26 de provedora
Maria Irene da Conceição Barata Joaquim tem 80 anos. Durante 24, o povo de Vila de Rei entregou-lhe, pelo voto, a condução dos destinos do concelho. E hoje afirma que gostava de ainda ser presidente de uma Junta de Freguesia. Irene Barata nasceu em Silveira, na freguesia da Fundada, a 14 de outubro de 1943. Em setembro de 1962 casou-se, mudou-se para Lisboa, e teve dois filhos. Tem agora três netos. Desempenhou funções na carreira de conferente especial de valores selados na Casa da Moeda e posteriormente desempenhou funções na carreira administrativa, no quadro do Instituto do Emprego e Formação profissional, onde esteve 23 anos.

Antes de se aventurar na vida autárquica conseguiu trazer para a Fundada alguns cursos do CENFIC, designadamente na área da construção civil. No início de 1988 foi convidada para dirigir o Centro de Emprego da Sertã. Até que acabou por ser, igualmente, convidada para encabeçar a lista do PSD às eleições autárquicas, em 1989. Aceitou o desafio e, apesar da pouca fé do marido na sua vitória, acabou por ganhar a presidência da Câmara Municipal de Vila de Rei, com uma margem de 70 votos.
Conta ter encontrado uma autarquia com dificuldades financeiras, défice de condições dignas para os trabalhadores e necessidades básicas da população por satisfazer. Quinze anos após o 25 de Abril, Vila de Rei permanecia sem qualquer desenvolvimento. Ficou no poder até 2013 tendo cumprido seis mandatos consecutivos. Tem em Sá Carneiro a sua referência política. E foi condecorada pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, com a Ordem do Infante D. Henrique. Atualmente é provedora da Santa Casa da Misericórdia de Vila de Rei, cargo que ocupa há 26 anos, tendo sido também presidente da Fundação Garcia durante mais de uma década.
As eleições para os orgãos sociais estão agendadas para domingo, 21 de abril.

Como filha de uma orgulhosa filha de Vila de Rei e Fundada e neta de professora da Fundada, quero agradecer todo o trabalho que desenvolveu. Bem haja.