Penedo Furado. Foto: mediotejo.net

Aquela que viria a ser a história da Praia Fluvial do Penedo Furado, em Vila de Rei, com Miradouro inaugurado em 1964, começa, na verdade, alguns anos antes. Um documento municipal refere a abundante afluência de turistas “em especial aos sábados e domingos”, e que nas piscinas do Rabadão e nas Bafureiras juntava-se “uma multidão de 250 a 300 pessoas e de 20 a 30 carros por dia”.

De acordo com o documento, esses visitantes procuravam o Cristo Rei e perguntavam pelo monumento. Perante tal volumosa curiosidade, em Vila de Rei concluiu-se ser do interesse económico do concelho “a transição do Monumento”, construído em 1974 então em terras abrantinas. Na verdade, permanece naquele concelho vizinho até hoje.

Do Miradouro do Cristo Rei é possível observar o Penedo Furado (Vila de Rei), a aldeia da Matagosa (Abrantes) e a albufeira do Castelo do Bode, além de apreciar os três monumentos que ali foram erguidos para homenagear Jesus Cristo, a mulher portuguesa, e os navegadores.

O historiador José Martinho Gaspar lembra que aquele Monumento ao Cristo Rei nasceu pela vontade da família Prior, que desenvolveu várias obras na região, e em 1974, foi a vez de darem corpo à obra do “Castelo”, como é conhecido localmente.

“No topo do alto monte sobranceiro à Matagosa, à direita de quem se desloca, pela albufeira, da aldeia para o Penedo Furado, a família Prior mandou edificar o Monumento a Cristo Rei, com uma grande estátua de mármore a representar Jesus Cristo, encimada por duas enormes placas de betão”, conta o historiador.

Para além deste monumento, surgiram, posteriormente, um relevo a homenagear a mulher portuguesa, em que terá sido usada como modelo Maria Rosa Gaspar, a progenitora desta geração, e também uma grande âncora, a evocar a expansão marítima dos séculos XV/XVI, indica também Martinho Gaspar relativamente ao monumento que assinalou 50 anos, no passado dia 4 de março.

Penedo Furado. Créditos: CMVR

Porém, o Penedo Furado foi inaugurado uma década antes, a 5 de julho de 1964, comemorando este verão 60 anos. A atas das reuniões da Câmara Municipal de Vila de Rei daquele época mostram que a obra iniciou com a construção do Miradouro do Penedo Furado.

O presidente da Câmara naquela época, Joaquim Baptista Mendes (presidente de 1961 a 1971) “esclareceu que dos contactos que teve com o senhor diretor das estradas do distrito de Castelo Branco resultou construir-se, com apoio e colaboração desta Câmara, o ‘Miradouro do Penedo Furado’ na Estrada Nacional nº2, sobranceiro à ribeira do Codes”.

Uma deliberação aprovada por unanimidade concedendo “plenos poderes” ao autarca para “em colaboração com o senhor diretor já referido executar tal obra, valorizando assim o concelho, esclarecendo que a contribuição da Câmara se limita à aceitação e utilização de dádivas de particulares como, por exemplo, cimento, cal, areia e mão de obra”, lê-se numa das atas.

A 12 de março de 1963, Henrique Martins dos Santos, natural de Brejo Fundeiro, do concelho de Vila de Rei, residente em Matagosa, autorizou a Câmara Municipal “a fazer do Penedo Furado, sito na sua propriedade junto à Estrada Nacional nº2, limite do Codes, um miradouro, podendo utilizá-lo como melhor lhe parecer, de modo que tal obra valorize o concelho”.

Autorizou ainda que “o terreno em volta, de mato, seja aproveitado para dar passagem aos baixos do mesmo Penedo, onde existe uma grande buraca e que a Câmara já referida pretende aproveitar para fins turísticos, colocando ali uma mesa, em pedra, e fazendo um varandim”, oferecendo “todo o terreno preciso para aquele efeito e uma vereda até à ribeira do Codes”. Por essa dádiva, Henrique Martins dos Santos recebeu “público louvor”.

Mas, posteriormente, Amaro António reclamou propriedade de parte do terreno, até porque afirmava ser seu pai o proprietário de uma oliveira plantada naquele local manifestando-se, no entanto, um “entusiasta” no que toca a “embelezar os locais” de modo “a desenvolver o turismo no nosso País, que é o mesmo que engrandecer o património da Nação”, escreveu em correspondência dirigida à Câmara Municipal.

Por isso, autorizou igualmente a autarquia a “fazer o caminho que entendesse” na sua propriedade no Penedo Furado, “de modo a que o miradouro ali a construir tenha encanto e beleza”.

Outros conterrâneos, cujos nomes são referidos igualmente nas atas das reuniões de Câmara, ofereceram materiais para a construção da obra, como sacos de cimento e até a imagem que naquele local foi colocada por Joaquim António Prior.

Uma inauguração “condigna” pois “no seu género, outra igual não tem no país” propondo-se prestar homenagem a dois engenheiros da Direção de Estradas e Urbanização de Castelo Branco, Eugénio Leite de Morais e Alfredo Resende. Sendo igualmente convidado para a inauguração “de uma obra de valorização turística nacional com grandes repercussões futuras e que todo o povo, sem distinção de classes, tem acolhido com bastante agrado” o governador civil do Distrito. Ocorreu a 5 de julho de 1964.

Apesar de ser uma obra municipal, curiosamente foi aprovado, também por unanimidade, que dos cofres da Câmara Municipal não saía “qualquer verba para pagamento de despesas com a construção” do Miradouro. Tal como não saiu “qualquer numerário” para a festa de inauguração.

Porém, devido a “circunstâncias inesperadas” que surgiram relativamente à inauguração do Penedo Furado, foi mais tarde proposto que a Câmara suportasse os encargos “com os convites oficiais feitos e a fazer, para o jantar de homenagem” ao governador civil do Distrito, a efetuar aquando da inauguração. A Câmara aprovou despender até 6 mil escudos (30 euros), a 20 de junho de 1964.

Inauguração do Penedo Furado em 1964. DR

Quanto ao papel de Joaquim António Prior na construção do Miradouro, José Martinho Gaspar escreveu na revista Zahara (n.º 23, de julho de 2014) que “a família Prior estabeleceu-se na Matagosa nas últimas décadas do século XIX, quando João António Prior, natural de Boafarinha, concelho de Vila de Rei, casou com Maria Rosa Dias Gaspar, com quem teve duas filhas.

Após o falecimento de João António Prior, ainda bastante jovem, o seu irmão, José António Prior, desposou a viúva do mesmo e desta união nasceram seis rebentos (Acácio António Prior, Maria dos Prazeres Gaspar Prior, Isaura Gaspar Prior, José António Prior, Gabriel António Prior e Joaquim António Prior), alguns dos quais, pela sua ação, ficaram particularmente conhecidos no norte do concelho de Abrantes e também no concelho de Vila de Rei.

Explica o historiador que “os irmãos Acácio, Gabriel e Joaquim Prior, apesar de terem vivido parte da vida em Lisboa e viajado por muitas outras partes do mundo, por todos serem oficiais da Armada Portuguesa, dedicaram uma atenção especial à sua terra e, após o enchimento da albufeira de Castelo de Bode, em 1951, vislumbraram, desde logo, o potencial turístico da região.

Esta posição terá sido defendida publicamente por Acácio Prior, enquanto presidente da Junta de Freguesia do Souto, em meados do século XX. Note-se que, na altura, a Freguesia do Souto era a segunda mais populosa do concelho, com mais de cinco mil habitantes, imediatamente a seguir a S. Vicente”.

Os irmãos Prior propuseram inclusivamente “uma estrada a ligar ‘porto lacustre’ de Matagosa e a Estrada Nacional nº 2, sem a qual, defendiam, ficava em xeque o desenvolvimento do Vale do Codes. A estrada construiu-se e, já na década de 60, a família Prior promoveu a construção de espaços tendentes à promoção turística da região e à sua marcação simbólica, como são o Penedo Furado, inaugurado em 1964, e o Monumento a Cristo Rei, edificado em 1974”.

Refere José Martinho Gaspar que foi Joaquim António Prior, “o mais novo dos irmãos, solteiro e médico otorrinolaringologista da Marinha, aquele que mais se destacou, pela sua ação cultural. Em 1964, materializando o sonho de Joaquim António Prior, foi inaugurado o Penedo Furado (próximo da Matagosa), com os seus miradouros, cascatas e piscinas naturais, encravados no maciço rochoso denominado Bafureiras/Fragas do Rabadão”.

Com o apoio dos mecenas da família Prior, “construíram-se escadas e caminhos, afixou-se sinalética, escreveram-se, entre penedos, as quadras com as lendas ouvidas e criadas pelo oficial da Marinha. A ‘Bicha Pintada’, conhecida por poucos, ganhou fama, justificou romagens ao local e, passados todos estes anos, já desencadeou vários estudos, mesmo no seio da comunidade universitária”.

Outras obras se realizaram ao longo dos anos, atualmente, a Praia Fluvial do Penedo Furado é um dos locais mais procurados pelos muitos turistas que anualmente visitam o Concelho de Vila de Rei.

O espaço envolvente apresenta locais de rara beleza, com a existência, na zona mais elevada, do tal rochedo gigantesco com uma enorme abertura de feitio afunilado, que dá nome à praia.

Aí foi criado o Miradouro do Penedo Furado, de onde é possível admirar a magnífica paisagem de serras e montes revestidos de pinhais, a ribeira do Codes, a albufeira da Barragem do Castelo do Bode e algumas casas das povoações limítrofes.

A sua água límpida e cristalina, que lentamente vai percorrendo o seu leito através da passagem natural na rocha, as características únicas do maciço rochoso e as fantásticas quedas de água fazem deste local um autêntico paraíso.

Fóssil da ‘Bicha Pintada’, no Penedo Furado. Créditos. José Martinho Gaspar

O percurso dos Passadiços do Penedo Furado é a experiência que não pode faltar numa visita a Vila de Rei, nesse já referido cenário idílico com vasta diversidade de paisagens e elementos naturais que acolhem o visitante.

Cascatas, miradouros com vistas impressionantes, existência de fauna e flora singular e até a presença da “Bicha Pintada”, localizada abaixo do Miradouro do Penedo Furado, um fóssil que, segundo alguns estudiosos pode ter mais de 480 milhões de anos e que conta uma das muitas lendas nacionais.

Foto: mediotejo.net

Acompanhando a água da ribeira do Codes na sua plenitude, os passadiços, mais recentes, convidam agora à sua descoberta e procuram promover a proteção e valorização do património envolvente, neste destino de turismo em sintonia com a natureza. Fazem parte dos Percursos Pedestres ‘Trilho das Bufareiras’, ‘Grande Rota da Prata e do Ouro’ e ‘Grande Rota do Zêzere’.

Com a construção dos passadiços, até ao Penedo Furado, ficaram novamente disponíveis aos caminhantes as partes de quatro percursos que por ali passam, os já referidos e ainda a Rota das Conheiras. São muitos caminhos para calcorrear e precisamente perto do Miradouro do Penedo Furado, encontra-se um nicho com a imagem de Nossa Senhora dos Caminhos.

No Miradouro das Fragas do Rabadão, onde existe um pequeno santuário e de onde se pode apreciar a paisagem até à Albufeira de Castelo de Bode, é onde inicia um trilho confluente com o trilho do miradouro anterior, com ligação à “Bicha Pintada”.

Sinalética no Penedo Furado. Créditos: José Martinho Gaspar

O percurso circular conta com cerca de dois quilómetros, ideal para ser desbravado por miúdos e graúdos, tendo como ponto de partida aconselhado a Praia Fluvial do Penedo Furado que mais uma vez, em 2024, conta com o selo ‘Qualidade de Ouro’ atribuído pela Quercus.

Uma História com 60 anos mas que na verdade começou muito antes, com contos e lendas que os locais foram passando de geração em geração.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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