Foto: DR

Então não é que entre todos os condutores que foram apanhados em infrações apenas 3% de facto perderam pontos na carta?

Como é que isso é possível?

Simples, basta contra-argumentar ou pedir provas, como as fotografias. A partir daí, o processo leva, em média, três anos. Provavelmente, nalguns dos casos, o sistema nem consegue localizar os meios de prova e lá se vai tudo por água abaixo.

Tanto alarido à volta da carta por pontos e, afinal, o esperto do tuga consegue contornar a coisa!

Não quer dizer que, mais tarde ou mais cedo, não venha a sofrer as consequências, mas o tuga também sabe que muitas destas coisas acabam por prescrever. Por isso, palavra passa palavra, e lá ficamos nós numa situação de escapar entre os pingos da chuva. O primeiro conselho que alguém experiente em tuguice te diz é ‘não pagues’. Mesmo que saibas que estavas em infração, ‘não pagues’. Depois, ‘logo se vê’.

O ‘logo se vê’ irrita-me solenemente, mas a verdade é que quem adota esse lema passa pela vida com muita tranquilidade. Porque o tempo é mesmo uma coisa tramada. E, passados meses ou anos, muitas das coisas até desaparecem. É como as dívidas… Os devedores jogam com o cansaço do credor e quem ficou sem o dinheiro acaba por desistir. Mais uma vez, o espírito ‘tuga’ em ação.

Já reparaste que parece que só temos tendência para criticar?

Talvez porque tenhamos sido educados num sistema que procura o infrator em vez de valorizar o cumpridor. Porque andam sempre atrás de nós, muitas das pessoas vão arranjando estratagemas para escapar. Escapar a tudo. À multa, às obrigações, às chatices… Que recompensa obtém um condutor que tem a carta limpa? Fica com a carta limpa, simplesmente.

A propósito disso, um destes dias pensei em sugerir à polícia que desenvolvesse uma aplicação para criar justiça no trânsito. Uma espécie de avaliação dos condutores por parte dos outros condutores. Quase como as avaliações de restaurantes ou de hotéis. Imagina: vais na estrada e vês um condutor a pôr alguém em risco. Apontas o telemóvel com a aplicação e isso fica registado. Ou, num longo percurso, vais acompanhando outro carro e vês que tem uma condução exemplar. Apontas o telemóvel e isso fica registado. A partir daí, quem se cruzar com esses condutores sabem que perfil têm e como se devem ‘relacionar’ com eles.

Isso é muito bom!! Isto também permite que aquele chico-esperto que nunca facilita a passagem dos outros depois receba o mesmo tipo de tratamento!

Exatamente! Imagina aquele condutor que se mete à frente de toda a gente, com prioridade ou sem prioridade, mas que depois aperta com todos os outros condutores. Se a tua aplicação disparar um alerta ‘condutor que nunca facilita’, tu também não lhe facilitas a vida. E o condutor que vier a seguir também não o deixa entrar. Da próxima vez, para ficar com um perfil de ‘condutor simpático e civilizado’, aposto que vai começar a deixar os outros passar. No fundo, está-se a condicionar comportamentos.

Isso é mesmo fantástico!

Outro exemplo: imagina aquele condutor que avançou só porque tinha verde sem se preocupar em ficar nas faixas amarelas, no meio de um cruzamento, entupindo tudo e fazendo com que os que têm verde a seguir não consigam avançar… Se na véspera buzinou a quem fez o mesmo, todos os condutores que ali estão vão saber e vão buzinar-lhe tanto que ele dificilmente voltará a fazer o mesmo. Nem volta a ficar no meio de um cruzamento nem volta a buzinar.

Numa grande cidade ficava tudo com dores de cabeça ao fim de uma semana! Para além de que o número de acidentes podia aumentar por estar tudo a olhar para as aplicações. Mas admito que essa espécie de vigilância pública era capaz de introduzir novos comportamentos na condução.

E também pode desenvolver espírito de tolerância. Por exemplo, um condutor com idade avançada. Muitas vezes, porque já não têm as mesmas capacidades, fazem asneiras. Se a tua aplicação avisar ‘condutor velhote’, se calhar, tens outro tipo de atitude…

Bom, mas aí, se não estão na plenitude das suas capacidades já não deviam conduzir.

Pois, mas às vezes tem mesmo que ser. Com a falta de transportes públicos em certas zonas e com o apoio que muitos avós têm que dar aos netos, às vezes tem mesmo que ser. E um pouco de tolerância não faz mal a ninguém. Porque a verdade é que, quando os outros condutores reagem de forma violenta eles acabam por se assustar ainda mais.

Assim, em geral, até me parece tudo muito bem. Mas depois há o problema da privacidade.

Pois, mas isso, é inevitável. Há 30 anos muita gente teve problemas com as câmaras instaladas nos multibancos. Hoje há câmaras por todo o lado. Para o bem e para o mal. O caminho já dificilmente tem retorno. Estamos condenados a estar vigiados. Estamos em todo o lado e somos vistos por muito mais pessoas do que imaginamos.

Eu acho é que tu andas a ver demasiados episódios do “Black Mirror”!

Por acaso até ando. É ficção, mas já não nos falta muito vivermos como mostram esses episódios. Já não nos falta muito para andarmos com chips na cabeça e para os nossos pensamentos passarem para um qualquer aparelho.

Olha… se calhar, em vez dessa aplicação de vigilância pública na condução, preferia que a polícia que anda à paisana, quando vê condutores exemplares, os mandasse parar simplesmente para os felicitar.

A sério? Mas quem é que quer um elogio de um polícia?

Eu quero! Mas isso sou eu, que gosto de elogiar e de ser elogiada…

E será que os polícias também passavam a ser valorizados se tivessem distribuído mais elogios do que multas?

Ah, isso é que eu já não sei…

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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