Em 2021 morreram mais pessoas de intoxicação alcoólica do que de overdose. Em tempos de crise, porque as situações de vulnerabilidade aumentam, também os consumos recrudescem. Estamos em crise, todos sabemos.
A canábis já não é o que era, a sua potência psicoativa aumentou exponencialmente e uma enorme fatia dos pedidos de ajuda decorre na sequência de graves episódios com esta substância. Já não é uma droga leve como a maioria de nós pensa ou imagina. O consumo de crack é enormemente destrutivo das vidas de quem o consome e tem crescido imenso. O novo milénio trouxe novos comportamentos aditivos, em que os ecrãs ou jogo online são um real problema, e os distúrbios alimentares são cada vez mais comuns.
Portugal já não é o país pioneiro que enfrentou de forma inovadora e exemplar o flagelo da heroína, porque a heroína já não é o principal problema. Pode, contudo, continuar a ser exemplo na mitigação destes problemas. As coisas mudam e o problema da adição não só é complexo, como altamente dinâmico e logo também complexas e dinâmicas são as forma de o enfrentar.
Serão as propostas de Rui Moreira, a propósito das situações muito problemáticas no Porto, um caminho? Não, absolutamente não. O endurecimento da lei sobre quem consome não será nunca uma boa solução. Seria aliás um enorme retrocesso e tudo o que foi dito não é mais do que um básico discurso populista sem conhecimento sistémico de tudo o que está em causa.
A solução deverá sempre procurar o equilíbrio entre a diminuição da oferta e da procura, sendo que num caso e noutro a forma de intervenção é totalmente diferente e sempre difícil.
No que diz respeito à diminuição da oferta é matéria de polícia e combate ao tráfico. Disso pouco ou nada sei. No caso da diminuição da procura, tem a ver com a construção de sólidos apoios sociais e disponibilização eficaz de cuidados de saúde a quem tem consumos problemáticos e fora de controlo. Disso percebo, bastante até.
Eu tenho uma longa história de consumo descontrolado e nocivo de álcool. Justamente aquela substância mais acessível, com a qual somos mais complacentes e cujo consumo é até culturalmente incentivado. É particularmente difícil lidar com esta substância no nosso país, contudo os números falam por si. Portugal é um dos países do mundo com mais consumo per capita de bebidas alcoólicas.
Comecei muito cedo a beber e ninguém achou estranho. Durante muito tempo por prazer, mas simplificando algo que é muito complexo na minha história, a vida tornou-se dolorosa e algures no tempo atravessei o rubicão e passei a beber muito para aliviar o sofrimento. Às tantas bebe-se para conseguir viver e beber é também a única razão de viver. Foram mais coisa, menos coisa, dez anos de absoluto descontrolo.
“Eu tenho uma longa história de consumo descontrolado e nocivo de álcool. Comecei muito cedo a beber e ninguém achou estranho. Durante muito tempo por prazer mas, simplificando algo que é muito complexo na minha história, a vida tornou-se dolorosa e passei a beber muito para aliviar o sofrimento.”
Cada caso é um caso e eu só por mim falo, não cheguei a perder casa, nem trabalho. Tive, felizmente, sempre ajuda, na família, entre amigos e no trabalho, mesmo que não a procurasse. Mas estive em risco de vida muitas vezes, demasiadas, e isso deixa marcas. Não creio que sobrevivi por ter sete vidas como os gatos. Sobrevivi porque todas as vezes que as coisas se tornaram perigosas, mal ou bem, o SNS esteve lá para mim. Poderia ter sido melhor acompanhada? Porventura, sim. Mas foi-me salvando a vida. E cá estou para contar a história.
Eu não tive experiências como as de muitas pessoas em consumo ativo e totalmente marginalizadas como as do Bairro da Pasteleira, pessoas que perderam a casa, o trabalho, a família. Então que sei eu disso? Sei algumas coisas, porque nos meus tratamentos (foram vários até conseguir parar em março de 2020 e até hoje), conheci muita gente que veio da rua e todos partilhámos histórias diferentes de sofrimento. Uns conseguiram à primeira, outros tentaram várias vezes como eu. É mesmo assim. O ponto fundamental é que o apoio tem de estar lá quando o procuramos. Podia ser melhor, claro que podia. Mais tipologias de apoio, mais rápidas, mais instituições de tratamento com programas de recuperação comparticipados, mais equipas no terreno, apoio contínuo após a conclusão dos tratamentos, e por aí vai. É aí que está grande parte da solução para este problema e é nisso que temos de trabalhar.
O tratamento que me devolveu a vida, que não só me ajudou a parar de beber mas a mudar radicalmente de vida e a criar as condições que fazem hoje de mim uma pessoa feliz, durou oito meses. Jamais o poderia pagar se não tivesse apoio da Segurança Social. Esta funciona mal? Sim, em muitas coisas, mas ingrata eu não sou.
Eu tenho hoje amigos que vieram de um mundo muito duro, da rua, do crime e das prisões, mas são hoje pessoas que não só encontraram um sentido para a vida, como são para mim um modelo de carácter a seguir. São pessoas recuperadas e excecionais exemplos de seres humanos. A vida é complicada, não somos sempre a mesma pessoa, perdemo-nos, ficamos doentes, mas a mudança e a recuperação é possível. Se houver ajuda adequada e movida por inequívoco sentido de dignidade humana, é possível sair da margem.
Endurecer a lei sobre quem está frágil e a sofrer nunca pode ser a solução. Mesmo que pareça que não queremos ajuda, um dia estamos disponíveis para a aceitar – e nesse dia ela a tem de estar lá. O valor de uma vida recuperada é inestimável.

Sara,
Creio que não nos conhecemos pessoalmente, mas estamos juntos.
Um artigo com uma descrição simples duma doença complexa. Uma boa análise, com linhas de actuação com as quais concordo em absoluto. Continuemos neste caminho, porque outro não há…
Obrigado e parabéns pela tua exposição.