Talvez ninguém se vá recordar daqui a um ano quem era a ministra da Administração Interna do segundo governo liderado por Luís Montenegro. Mas o “vamos embora” com que rematou a conferência de imprensa de domingo, 17 de agosto, ficará para a posteridade como uma das mais clamorosas faltas de respeito de um governante que convocou os orgãos de comunicação social para, através deles, falar ao país. É isto que é preciso também reforçar: a ministra marcou uma conferência de imprensa – contrariada, como se percebeu – mas não o fez para falar com os jornalistas, foi para falar aos portugueses.
A ministra usou esse poder que as televisões, os jornais e as rádios (ainda) têm – de chegar a muitos milhões de pessoas, ao mesmo tempo – para fazer passar a sua mensagem. Mas, no exercício desse poder, há também responsabilidades, e a primeira de todas é aceitar o escrutínio público. Porque quando os jornalistas questionam um governante, não querem que este lhes responda como se estivessem os dois a beber um café no bar da esquina, mas sim que responda aos portugueses. É essa a missão do jornalismo: fazer as perguntas necessárias para melhor informar a população.

Depois de nos dias anteriores só ter feito comunicações desastrosas – dizendo que saber o número de meios no terreno era “irrelevante”, por exemplo – no domingo a ministra levantou-se assim que terminou de ler o seu comunicado (sem uma frase digna de ser replicada entre aspas) e sem ter informado previamente que não aceitaria falar com os jornalistas. Na sala ainda se ouviu a pergunta: – “O que tem a dizer aos autarcas que se queixam de falta de meios e de se sentirem abandonados?”
A ministra só se preocupou em apressar os “figurantes” que estavam sentados a seu lado: “Vamos embora.”
Vá, senhora ministra, que já se faz tarde.
Já devia ter ido quando…
- Se esqueceu de lançar atempadamente o concurso para termos os meios aéreos a postos no Verão;
- Contratou uma empresa que nem sequer tinha meios aéreos próprios para trabalhar este Verão;
- Não quis ativar o pedido de apoio europeu durante toda a semana passada porque “parecia mal” (e acabou a fazê-lo um dia depois de ter declarado que não era preciso);
- Quando o SIRESP falhou outra vez, deixando bombeiros, proteção civil e polícias sem comunicações no meio do caos.
Entretanto, enquanto vai e não vai, seria bom que alguém no governo se preocupasse com o que de facto se passa no país – o chamado “país real” – e não o que gostariam que existisse por geração espontânea, a partir de umas linhas impressas num programa eleitoral, ou de meia dúzia de soundbytes debitados em comícios ou em entrevistas à comunicação social.
Não é aceitável que se chegue todos os anos a julho ou agosto e pareça que nada disto era esperado, ou que não haveria forma de prevenir ou combater eficazmente este tipo de fogos, como se de uma fatalidade se tratasse.


Fala-se de reordenamento do território e da floresta há décadas. Vale a pena ler, a este propósito, o ensaio de Pedro Almeida Vieira que publicámos em 2021: “Incêndios: O que é preciso mudar (para que não fique tudo na mesma)”. Já se fizeram todos os estudos, criaram-se grupos de trabalho, aprovaram-se novas leis… jurou-se “nunca mais” depois dos 66 mortos em Pedrogão, mas o que nunca mais acontece é a mudança firme e necessária para ter o país melhor preparado para enfrentar estes “super-incêndios”, que serão cada vez mais frequentes devido às alterações climáticas, que nos trazem dias cada vez mais quentes, ondas de calor mais prolongadas e áreas maiores em estado de seca extrema.
Esta é uma “guerra” que não se consegue vencer de um dia para o outro, e haverá sempre factores extraordinários e inesperados da natureza (não foi o caso, este ano), mas já era altura de se deixarem questões políticas e negociatas vergonhosas de lado e aplicar e respeitar integralmente as leis que foram aprovadas, punir quem não as cumpre e melhorar a pouco e pouco o que houver a ser melhorado.
Instrumentos legais não nos faltam. Só desde 2017, depois da tragédia de Pedrogão, foram criados, entre outros:
- O Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos 2020–2030, para existir planeamento e uma avaliação permanente das necessidades
- A Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), para coordenar e avaliar toda a estratégia nacional de combate aos fogos
- A rede de gestão de combustível, determinando faixas primárias e secundárias, mosaicos agrícolas e o uso de fogo controlado no Inverno
- Os Programas “Aldeia Segura” e “Pessoas Seguras”, que definiram zonas de protecção, planos de evacuação e nomearam responsáveis e/ou oficiais de segurança em centenas de aldeias
- Um plano para a profissionalização dos meios aéreos e terrestres, com pré-posicionamento de forças e integração entre Protecção Civil, Forças Armadas e autarquias
- Um novo concurso para adequar às necessidades o Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP), criado em 2006 mas com falhas constantes, sobretudo na última década
Como é que chegamos a agosto de 2025 e não temos meios aéreos suficientes, não temos mais bombeiros profissionais, não temos um sistema de coordenação robusto nem um sistema de comunicações de emergência operacional?
Vários comandantes no terreno repetiram o mesmo na última semana: os fogos ganharam proporções impossíveis de controlar porque não houve um ataque rápido e coordenado no início das ignições e porque depois faltaram os meios aéreos.

Se nestes grandes fogos de agosto tivemos duas vítimas mortais a lamentar (um autarca que morreu a combater o fogo e um bombeiro vítima de um acidente com o camião), e não dezenas, como sucedeu em 2017, é porque, apesar de todo o desnorte do poder central, houve coordenação local. Nas freguesias havia planos de acção estudados, autotanques e outros meios de ataque inicial a postos, rotas de evacuação para populações em perigo.
Porque as pessoas, depois de tantos verões ao abandono, foram aprendendo a defender-se. Porque no interior ainda há solidariedade entre vizinhos. E porque, apesar de tantas dificuldades e desilusões, ninguém diz “vamos embora”.
Esta gente que fica, senhora ministra, merece mais.
Esta gente que resiste, senhor primeiro-ministro, que tem a pele curtida pelo trabalho ao sol em vez de a ter bronzeada nas praias do Algarve, merece outro respeito e outra proteção.
E senhor presidente, esta gente que tem fibra e valores, que honra as suas terras e as suas raízes, merecia também uma outra palavra da sua parte, em vez de um “não vamos falar disso agora”.
Esta gente só quer voltar a ver a noite escura, sem chamas no horizonte, poder acordar e respirar fundo, deitar mãos ao trabalho. Provavelmente vão calar as suas dores, como sempre. Mas acreditem, “quem não se sente não é filho de boa gente”. E há coisas que não se esquecem.

Orgulhoso fiquei como Cidadao com 87 anos que li seu testemunho, seu Profissionalismo , sua Coragem e sobretudo, tambem sua Isençak.SIM PORQUE NESTA LUTACDOS JNCENDIOS E LUTO E TANTO EMPOBRECEM O PAÍS, AS PERGJNTAS DOS PORTUGUESES AS JNTERRKGACOES ESTAO SEMPRE NAS VOSSAS KNTELIGDNCIAS, CKMO JORNALISTAS. MAS A SENHORA D.PATRICIA FONSECA SABE FAZE LAS PARABENS..
Obrigada pelas suas palavras. Esperemos que deixem de existir motivos para escrever outros artigos como este nos próximos anos.