A ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral. Foto: Lusa

Talvez ninguém se vá recordar daqui a um ano quem era a ministra da Administração Interna do segundo governo liderado por Luís Montenegro. Mas o “vamos embora” com que rematou a conferência de imprensa de domingo, 17 de agosto, ficará para a posteridade como uma das mais clamorosas faltas de respeito de um governante que convocou os orgãos de comunicação social para, através deles, falar ao país. É isto que é preciso também reforçar: a ministra marcou uma conferência de imprensa – contrariada, como se percebeu – mas não o fez para falar com os jornalistas, foi para falar aos portugueses.

A ministra usou esse poder que as televisões, os jornais e as rádios (ainda) têm – de chegar a muitos milhões de pessoas, ao mesmo tempo – para fazer passar a sua mensagem. Mas, no exercício desse poder, há também responsabilidades, e a primeira de todas é aceitar o escrutínio público. Porque quando os jornalistas questionam um governante, não querem que este lhes responda como se estivessem os dois a beber um café no bar da esquina, mas sim que responda aos portugueses. É essa a missão do jornalismo: fazer as perguntas necessárias para melhor informar a população.

Depois de nos dias anteriores só ter feito comunicações desastrosas – dizendo que saber o número de meios no terreno era “irrelevante”, por exemplo – no domingo a ministra levantou-se assim que terminou de ler o seu comunicado (sem uma frase digna de ser replicada entre aspas) e sem ter informado previamente que não aceitaria falar com os jornalistas. Na sala ainda se ouviu a pergunta: – “O que tem a dizer aos autarcas que se queixam de falta de meios e de se sentirem abandonados?”

A ministra só se preocupou em apressar os “figurantes” que estavam sentados a seu lado: “Vamos embora.”

Vá, senhora ministra, que já se faz tarde.

Já devia ter ido quando…

  1. Se esqueceu de lançar atempadamente o concurso para termos os meios aéreos a postos no Verão;
  2. Contratou uma empresa que nem sequer tinha meios aéreos próprios para trabalhar este Verão;
  3. Não quis ativar o pedido de apoio europeu durante toda a semana passada porque “parecia mal” (e acabou a fazê-lo um dia depois de ter declarado que não era preciso);
  4. Quando o SIRESP falhou outra vez, deixando bombeiros, proteção civil e polícias sem comunicações no meio do caos.

Entretanto, enquanto vai e não vai, seria bom que alguém no governo se preocupasse com o que de facto se passa no país – o chamado “país real” – e não o que gostariam que existisse por geração espontânea, a partir de umas linhas impressas num programa eleitoral, ou de meia dúzia de soundbytes debitados em comícios ou em entrevistas à comunicação social.

Não é aceitável que se chegue todos os anos a julho ou agosto e pareça que nada disto era esperado, ou que não haveria forma de prevenir ou combater eficazmente este tipo de fogos, como se de uma fatalidade se tratasse.

Fala-se de reordenamento do território e da floresta há décadas. Vale a pena ler, a este propósito, o ensaio de Pedro Almeida Vieira que publicámos em 2021: “Incêndios: O que é preciso mudar (para que não fique tudo na mesma)”. Já se fizeram todos os estudos, criaram-se grupos de trabalho, aprovaram-se novas leis… jurou-se “nunca mais” depois dos 66 mortos em Pedrogão, mas o que nunca mais acontece é a mudança firme e necessária para ter o país melhor preparado para enfrentar estes “super-incêndios”, que serão cada vez mais frequentes devido às alterações climáticas, que nos trazem dias cada vez mais quentes, ondas de calor mais prolongadas e áreas maiores em estado de seca extrema.

Esta é uma “guerra” que não se consegue vencer de um dia para o outro, e haverá sempre factores extraordinários e inesperados da natureza (não foi o caso, este ano), mas já era altura de se deixarem questões políticas e negociatas vergonhosas de lado e aplicar e respeitar integralmente as leis que foram aprovadas, punir quem não as cumpre e melhorar a pouco e pouco o que houver a ser melhorado.

Instrumentos legais não nos faltam. Só desde 2017, depois da tragédia de Pedrogão, foram criados, entre outros:

  • O Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos 2020–2030, para existir planeamento e uma avaliação permanente das necessidades
  • A Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), para coordenar e avaliar toda a estratégia nacional de combate aos fogos
  • A rede de gestão de combustível, determinando faixas primárias e secundárias, mosaicos agrícolas e o uso de fogo controlado no Inverno
  • Os Programas “Aldeia Segura” e “Pessoas Seguras”, que definiram zonas de protecção, planos de evacuação e nomearam responsáveis e/ou oficiais de segurança em centenas de aldeias
  • Um plano para a profissionalização dos meios aéreos e terrestres, com pré-posicionamento de forças e integração entre Protecção Civil, Forças Armadas e autarquias
  • Um novo concurso para adequar às necessidades o Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP), criado em 2006 mas com falhas constantes, sobretudo na última década

Como é que chegamos a agosto de 2025 e não temos meios aéreos suficientes, não temos mais bombeiros profissionais, não temos um sistema de coordenação robusto nem um sistema de comunicações de emergência operacional?

Vários comandantes no terreno repetiram o mesmo na última semana: os fogos ganharam proporções impossíveis de controlar porque não houve um ataque rápido e coordenado no início das ignições e porque depois faltaram os meios aéreos.

SIRESP monta antena no Posto de Comando de Mação, depois de várias falhas, durante os fogos de 2017. Foto: Arquivo mediotejo.net

Se nestes grandes fogos de agosto tivemos duas vítimas mortais a lamentar (um autarca que morreu a combater o fogo e um bombeiro vítima de um acidente com o camião), e não dezenas, como sucedeu em 2017, é porque, apesar de todo o desnorte do poder central, houve coordenação local. Nas freguesias havia planos de acção estudados, autotanques e outros meios de ataque inicial a postos, rotas de evacuação para populações em perigo.

Porque as pessoas, depois de tantos verões ao abandono, foram aprendendo a defender-se. Porque no interior ainda há solidariedade entre vizinhos. E porque, apesar de tantas dificuldades e desilusões, ninguém diz “vamos embora”.

Esta gente que fica, senhora ministra, merece mais.

Esta gente que resiste, senhor primeiro-ministro, que tem a pele curtida pelo trabalho ao sol em vez de a ter bronzeada nas praias do Algarve, merece outro respeito e outra proteção.

E senhor presidente, esta gente que tem fibra e valores, que honra as suas terras e as suas raízes, merecia também uma outra palavra da sua parte, em vez de um “não vamos falar disso agora”.

Esta gente só quer voltar a ver a noite escura, sem chamas no horizonte, poder acordar e respirar fundo, deitar mãos ao trabalho. Provavelmente vão calar as suas dores, como sempre. Mas acreditem, “quem não se sente não é filho de boa gente”. E há coisas que não se esquecem.

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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