Ilustração de Leon Zernitsky

“In varietate concordia” (Unidos na diversidade)
– Lema da União Europeia, com raízes filosófico-espirituais

Sabemos bem, pelo conhecimento da História e a experiência pessoal de vida, como a unidade é essencial para a vitória e a divisão conduz fatalmente à derrota. Como axioma que é, não carece de demonstração. É assim e ponto. E é assim, também, a velha táctica de César “Divide et impera” (“Dividir para reinar”), tão decisiva para as vitórias militares, políticas, empresariais e outras dos colectivos humanos (e também animais, como sabemos).

A táctica vale por si e, nesse sentido, é neutra. O que a torna boa ou má, como instrumento de disputa, é a credibilidade – o quê e quem –, a intencionalidade – para quê e para quem – e o método – onde, quando e como – a que recorre. Neste sentido, a unidade é condição exigida a quem se coloca do lado da justiça e da ética, e repudiada nos que agem contra estas.

Este princípio não escapou ao famoso general e estratega militar prussiano Carl von Clausewitz que, na sua obra “Vom Kriege” (Da Guerra), escreveu que “é melhor lidar com um inimigo fragmentado e não coeso do que com um mais forte e organizado”. Explorar ou permitir desacordos e divisões – subalternizando os interesses comuns e transformando as diferenças em oposição e confronto – é, pois, meio caminho andado para a vitória de a quem a divisão aproveita.

Cartoon político “Join, or Die” (Juntar ou Morrer) publicado em 9 de Maio de 1754 pela Pennsylvania Gazette, fundada e dirigida por Benjamin Franklin. Os segmentos representam as colónias americanas à época

A par da unidade, os colectivos humanos beneficiam com a estabilidade. É a estabilidade que permite reduzir a incerteza e optimizar os recursos, potenciando o desenvolvimento. Uma sociedade ou grupo humano estável é, em princípio, mais eficiente. Mas, mais uma vez, também aqui importa saber a quem beneficia a estabilidade, se a poderes instalados, privilegiados e chupistas, ou a toda a comunidade de uma forma ética e justa.

Por estabilidade não se entenda, pois, algum tipo de paz podre ou de águas estagnadas, porque a mudança também é necessária e a eficiência requer conflito (funcional), resolução de problemas e criatividade. Ou seja, é essencial que a diversidade de ideias, experiências e idiossincrasias, na unidade de objectivos, seja estimulada, mobilizada e correctamente (re)alinhada ao longo do tempo, ao invés de ignorada, aplainada ou rejeitada.

Em qualquer processo colectivo, tem de haver lugar ao pensamento divergente (ou lateral), a par do convergente (ou linear). O primeiro para gerar novas perspectivas e o segundo para aprimorar o modelo em vigor. São ambos necessários, imprescindíveis mesmo, para lidar com a realidade, seja para corrigir erros ou falhas de processo, seja para relançar o desenvolvimento organizacional.

“Quando as aranhas se unem, conseguem agarrar o leão” (provérbio etíope). Fonte: growingalibrary.wordpress.com

A diversidade referida, assim como a expressão do pensamento divergente são, naturalmente, geradores de discussões e contradições. Importa que os conflitos daí resultantes sejam funcionais (construtivos) e não o contrário, evitando a sua escalada e pessoalização, e promovendo uma abordagem assertiva, focada nos objectivos comuns. Quando bem geridos por todas as partes, os conflitos permitem a expressão de diferentes pontos de vista, interesses e valores, produzindo inovação.

Os benefícios proporcionados pelos conflitos funcionais estendem-se ainda à dinâmica e eficácia da comunicação interna, à satisfação com os relacionamentos, ao fortalecimento da integração e coesão social, à vitalização da motivação e criatividade, à melhoria da qualidade das decisões e ao incentivo à mudança e desenvolvimento. Em suma, criam valor para o colectivo e para cada um dos seus membros e equipas.

Nesta óptica, é preciso valorizar a discussão dos problemas. Por outras palavras, aprender a conversar e debater os assuntos, com respeito e elevação (educação), prestando atenção às questões e pontos de vista do outro (empatia), sendo genuíno e sincero, sem magoar (assertividade) centrando-se no essencial (foco) e procurando um entendimento ou posição comum (negociação integrativa ou “win-win”).

“Queremos, sobretudo, ser compreendidos e aceites. Quando ouvimos, não é para compreender o outro, é para nos prepararmos para falar. As nossas conversas são monólogos colectivos” – Stephen Covey

Todavia, escolhe-se frequentemente a forma errada, iniciando o “diálogo” mandando o outro fechar a boca (“Eh pá, estavas melhor calado!”) para, em seguida, o rebaixar e ofender (“Só dizes asneiras!”). Prossegue-se para a insinuação (“Dizes isso porque…”) e os processos de intenção (“O que tu queres sei seu!”), concluindo-se com a desistência (“Não vale a pena dar-te troco!”), o abandono (“Fica com a tua que eu fico com a minha!”), a ofensa (“Vai mas é…!”) e o corte de relações (o neotecnológico “desamigar” e “bloquear”).

Em síntese, o sucesso colectivo de qualquer cometimento exigente ou empreendimento arriscado depende da forte unidade e duradoura estabilidade que for construída e alcançada. Não com base em inerte monolitismo e podre estagnação, mas na fértil diversidade e na saudável divergência ou conflito (funcional). Apostando todas as “fichas” na comunicação (nos dois sentidos) pois, como diz a sabedoria popular, “a falar é que a gente se entende”. Habituemo-nos, pois, a convergir para compromissos, lidando tranquila e interessadamente com as diferenças.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico

José Rafael Nascimento tem 64 anos de idade e reside na aldeia de Vale de Zebrinho (São Facundo), na casa que foi dos seus avós maternos. É bacharel em Economia, licenciado em Organização e Gestão de Empresas e mestre em Psicologia Social e Organizacional, com pós-graduação em Marketing Político e Social. Tem desenvolvido atividade docente no ensino superior, assim como formação e consultoria empresarial, depois de uma carreira de gestor em organizações multinacionais e públicas. Tem dedicado a sua vida cívica à atividade associativa e autárquica, interessando-se pelos processos de participação e decisão democráticos.

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