Foto: DR

O primeiro impulso é para escrever sobre o bairro da Jamaica. Sobre o que lá se terá passado por estes dias. Sobre o que se viu e o que não se viu. Sobre a cobertura que os Média fizeram sobre o que por lá se terá passado. Sobre o que disseram os comentadores sobre a cobertura dos Média. Sobre o que se disse nas redes sociais. Sobre uns e sobre outros. Sobre os que vivem em condições muito difíceis e sobre os que trabalham em condições muito difíceis. Mas não.

Nos episódios de confrontos entre forças policiais e cidadãos que vivem em bairros considerados ‘complicados’ fica muitas vezes uma sensação de que as versões são sempre muito parciais. Demasiado parciais. Como se os mesmos protagonistas tivessem vivido situações completamente diferentes. Como naquela série de televisão (The Affair) que mostra as mesmas cenas na perspetiva das personagens envolvidas. Cada um descreve o que viveu com toda a convicção. Mas o confronto das duas descrições faz com que pareça que viveram situações completamente diferentes.

Esta diferença de perspetivas, na vida real ou na ficção, deveria fazer-nos pensar sobre as reações que temos em situações de conflito. Como indivíduos que somos, valorizamos coisas diferentes. Talvez por isso, exageramos o que nos convém e escondemos o que não nos convém. Quando contamos alguma coisa que nos aconteceu, queremos ter o apoio de quem nos ouve. É humano, dizem-nos. Mas nem por isso será o mais correto.

Se a ficção nos ajuda a perceber as diferenças de perspetivas, certos programas que têm surgido, na televisão, também o fazem. Sim, é entretenimento. Sim, só existem para gerar audiências. Mas programas como o ‘Casados à Primeira Vista’ e o ‘Carro do Amor’ são excelentes formas de analisarmos os comportamentos dos indivíduos, quando apenas focados em si próprios. Mesmo que os concorrentes tenham guiões ou sejam condicionados nos seus comportamentos, há ali muitas situações que nos devem fazer pensar.

O casal que descreve vários momentos de uma forma completamente oposta é o melhor exemplo de como a diferença de perspetivas pode condicionar tudo. Como é que é possível que duas pessoas que viveram o mesmo momento o descrevam de formas tão diferentes? E como será que se posiciona cada telespetador, que viu cada um desses momentos? Como seria a descrição de cada um de nós? Conseguiríamos ser minimamente objetivos? Não, certamente que não. Quanto mais não seja, porque entretanto certamente que criámos mais empatia com um dos concorrentes. Mas também porque vimos as imagens editadas, com determinados planos.

Por isso é que falar sobre episódios como o que se passou no bairro da Jamaica é sempre muito arriscado. Vimos uma pequena parte da realidade. E olhámos para essas imagens carregados de princípios, valores, ideias, preconceitos. Mas falta contexto e falta enquadramento. Faltam imagens e faltam sons. Nestes casos – como na ficção, no entretenimento ou na nossa vida privada – qualquer coisa que se possa dizer é uma minúscula perspetiva, provavelmente desfocada e enviesada, sobre o que realmente se passou.

Portanto, o melhor é procurar um posto de observação, o mais bem posicionado que for possível, e ali continuar, atento a todas as possíveis perspetivas. Em silêncio. E isto não é contrariar a liberdade de expressão, é ter bom senso.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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