No concelho de Mação, na freguesia de Envendos, há uma aldeia com o nome Vale da Mua à qual fui poucas vezes na vida, mas todas fantásticas. Antes, quando era mais miúda, íamos muito até lá para tomar uns banhos, no verão, no Pego do Cabril, que é dos sítios mais agradáveis, naturais e bonitos que Mação tem, mas é segredo!
Mais tarde, tive o prazer de ir ao Vale da Mua com o Dr. Armando Fernandes recolher algumas receitas junto do Sr. Eduardo e da D. Gracinda, sua mulher, para a Carta Gastronómica da Câmara Municipal de Mação.
Antes de iniciar este texto estava a pensar no que é uma mua e, ao pesquisar, apareceu-me que poderá ser uma derivação de mula ou pode remeter para diversão popular noturna, buliçosa e com baile que é uma espécie de foliada.
Não sei se está correto, mas esta segunda definição vai ao encontro do que vos quero contar pois implica a festa da aldeia e a surpresa que as pessoas da terra estão a preparar para um belo serão. Faz sentido.
Mas vamos à história!
Imaginem que há 60 anos, um grupo de homens do Vale da Mua preparou uma encenação sobre o ciclo do linho. Arranjaram os vários utensílios usados para tratar o linho, fizeram quadras sobre os vários momentos e, preparada a encenação, foram de carroça representá-la a muitas aldeias do concelho de Mação.
Uma das descendentes de um destes homens tem esta fotografia que ilustra esta história, de quando fizeram a representação na Vila de Mação, naquele é hoje o Largo dos Bombeiros.
O senhor mais à direita é, imaginem, o Sr. Eduardo de que falei acima, que deu algumas receitas para o Livro “À Mesa em Mação”.
Fazia a introdução do pequeno espetáculo. Depois, em sequência, cada um cantava a quadra referente ao utensílio que tinha na mão, e qual o seu papel no ciclo de processamento do linho. No final, os dois da esquerda recolhiam, de chapéu na mão, o dinheiro que a assistência entendia e podia dar.
O objetivo deste projeto nessa altura foi fazer melhoramentos na aldeia pelo que andaram com a exposição sobre o linho de terra em terra e, com o dinheiro que angariaram, fizeram os tais melhoramentos que almejavam: empedraram as ruas da sua aldeia pelo que o Vale da Mua terá sido, por vontade dos seus habitantes, das primeiras aldeias a deixar de ter ruas de lama, para ostentarem, sim, cómodas e asseadas ruas empedradas.
Foi das primeiras aldeias pavimentadas com a criatividade e ação dos próprios habitantes. Tão bom!
No próximo dia 18 de julho, dia de festa na aldeia, os filhos e descendentes destes homens vão fazer a recriação deste feito. Após o jantar vão, à noite, apresentar à população e convidados uma encenação daquilo que fizeram, há 60 anos, os seus antepassados.
Têm recolhidos os utensílios, procuraram os fatos como se encontravam vestidos na fotografia, dentro do possível, recuperaram junto dos mais antigos as quadras que cada um dizia quando apresentava o seu objeto e já têm os figurantes para a encenação: filhos, netos, genros, amigos, filhos da terra.
Acho isto tão bonito. Primeiro a criatividade e perseverança dos antigos, pela ação comunitária que encetaram, uns valentes. E agora, esta homenagem que será feita pelos descendentes e filhos da pequena aldeia do Vale da Mua.
Digam lá se não é um exemplo de amor à terra, à história, uma homenagem à memória e ao legado dos antepassados e, acima de tudo, um exemplo para todos nós. Em comunidade, tudo é melhor e mais bonito!
Parabéns, Vale da Mua – Envendos, Mação! E obrigado!
