Esta é talvez a crónica mais pessoal que escreverei neste espaço. Hesitei, mas não posso tomar outra atitude. Inicialmente pensei escrever sobre sanções (chegando a ter o texto preparado), Orçamento do Estado (será certamente um dos próximos temas), ou sobre a reabertura do Internamento da Medicina Interna em Tomar. Todos estes temas seriam óbvios, porém, mudei as minhas ideias. Algo me tocou e sensibilizou. Terminei esta crónica durante a madrugada de domingo para 2ª feira.

Cresci com muitas crianças nascidas na década de 1970/1980, com um enorme respeito pela Guerra colonial, sabemos como poucos que essa guerra transformou a geração dos nossos pais e como isso os modificou enquanto homens. Somos os filhos das vítimas e heróis dessa guerra e em muitos momentos sentimos essas sequelas. Tenho um enorme respeito pela vida, pela estrutura militar e pelos seus valores. Tenho um enorme respeito por aqueles que lutaram pela nossa bandeira, numa guerra “estúpida” e que eles não pediram.

O meu pai, aproveitando um jantar com os seus dois filhos decidiu oferecer os exemplares do livro que escreveu e que nós não conhecíamos. O livro que li velozmente esta noite conta a sua história militar. Uma vida de anos e comissões em África, e a burocracia de como os militares doentes eram tratados depois do fim da guerra. O livro do Sargento Santos Costa é o livro do meu pai. A guerra vista pelos olhos de quem lá esteve. O sofrimento e a História na primeira pessoa.

Imaginar como jovens foram atirados para a selva da Guiné, obriga-nos a respeitar a memória de todos. Os que morreram e os que regressaram. Certamente que o testemunho do meu pai, permitiu-me conhecer melhor o que passou e viveu. Permitiu-me conhecer melhor o homem que foi. E sinceramente a divida de gratidão do país continua a ser enorme.

Hugo Costa, 42 anos. Economista, deputado e presidente da distrital de Santarém do PS.

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