A maioridade atingida pelos dezoito anos de uma dor suprema provocada pela revolta e originada por um vazio a que nunca nos conseguimos habituar, tendo a consciência que esse vazio nunca mais voltará a ser preenchido. E para aqueles que acham que o tempo tudo cura, informo que o vazio tem aumentado e a aceitação tem diminuído no decorrer da passagem dos dias que se têm transformado em semanas, meses e anos.
Na época da família, é cruel perder o pai no dia 23 e sepultá-lo no dia 24, crueldade que acaba por ser um dos dois paradoxos da tua morte. Alguém que gostava tanto do Natal e que adorava crianças, morrer às portas do Natal sem ter sentido a felicidade de ter sido avô.
A tua partida precoce e fulminante acabou inevitavelmente por levar para sempre muito do nosso Natal e se as tuas netas maravilhosas, entretanto nos devolveram algum Natal, sem a tua presença nunca mais houve o mesmo Natal.
“Porque a dor é grande e a perda irreversível, resta-nos as memórias dos momentos que vivemos contigo”. Ninguém morre verdadeiramente enquanto existirem essas memórias, e se a presença física deixou de nos acompanhar, a tua “omnipresença” continua a fazer-se sentir nos pequenos pormenores.
É nesses pequenos pormenores que hoje percebo com nitidez, a dimensão humana que tinhas. A tua educação era distintiva, o teu humor era refinado, a tua inteligência era ímpar e essas qualidades, permitiam-te gerir prioridades e estabelecer consensos, colocando, permanentemente, a fasquia da elevação nos detalhes mais ínfimos.
Vale a pena viver para tocar o coração dos outros. Foi contigo que aprendi a verdadeira dimensão deste sentimento nobre. Não sei se tinhas consciência dessa nobreza, da nobreza do teu trato, ou se o fazias de forma natural. Sei que o sentia e tenho vindo a perceber que o fazias sentir a todos os que tiveram o privilégio de se relacionarem contigo. Naqueles tempos, pensava que essa tua nobreza fosse normal. Hoje sei que era uma exceção, e é também por causa disso, que fico com a certeza que eras um ser humano excecional.
Sinto falta das nossas conversas. Neste Natal voltaríamos inevitavelmente a ter as nossas discussões académicas mergulhadas em análises profundas que, no fundo, não eram mais do que a nossa forma competitiva de comunicar e de mostrarmos permanentemente o quanto gostávamos um do outro.
Por tudo o que foste, deixaste uma herança demasiado pesada, mas apesar dessa responsabilidade, é um tremendo orgulho saber que sou teu filho.
Recordo-te com saudade. Aquela saudade própria que nos é deixada pelas pessoas especiais. Mas é também essa saudade que te faz continuar a “viver” em mim, e em todos quantos se recordam de ti.
E apesar de tudo, a dor dessa saudade não deixa de ser um privilégio. O privilégio de te ter tido como pai.
