Por comodidade, devido a um acréscimo pontual de trabalho e porque não perdeu atualidade, aliás, perdoem-me a falta de modéstia, mas presumo que ele será intemporal, recupero um texto que escrevi há alguns anos.
Outrora, em contexto profissional, ouvi alguém agradecer ao seu interlocutor pela sua colaboração e pelo seu profissionalismo. A resposta foi lapidar e demonstrou um rasgo de humildade ao mesmo tempo que provocava o seu quê de surpresa. “Eu é que agradeço estar sempre disponível para ajudar e não para complicar.”
A minha primeira reação foi sorrir ao ouvir aquela “troca de galhardetes” mas aquela frase não me abandonou e ficou a ecoar dentro de mim, fazendo-me refletir mais tarde sobre a sua verdadeira profundidade.
De facto a vida está cheia daqueles que são um problema para cada solução quando a realidade pede precisamente o inverso. Penso que não precisamos fazer um grande esforço de memória para identificar rapidamente vários “conhecidos” que se enquadram neste padrão. Se, ao contrário, todos nos preocupássemos em ser a solução para cada problema, desgastar-nos-íamos menos e estaríamos mais predispostos e disponíveis para fazer a diferença e acrescentar valor.
Isto é transversal a tudo e enquadra-se tanto na vida pessoal como na vida profissional. A minha leitura é que as inseguranças individuais e os complexos de inferioridade promovem esta necessidade de afirmação e, não raras vezes, complicam o que é simples.
Quando desconstruímos e temos a humildade de não querer mostrar mais do aquilo que somos, o processo simplifica-se e o problema fica mais perto da solução.
É uma questão de atitude e de vontade mas, essencialmente, digo eu, de carácter, de formação e de educação.
Esta fogueira de vaidades, provocada por um exacerbado culto da personalidade na primeira pessoa do singular sintetiza tudo aquilo que devemos evitar socialmente. Este deve ser o primeiro passo.
Termos consciência do ridículo, identificarmos os sinais e evitarmos realizar a sua reprodução. O passo seguinte deverá ser a identificação dos mesmos sinais e afastarmo-nos de quem os pratica. Pela tranquilidade da nossa sanidade mental, pela nossa felicidade e essencialmente porque a idade já nos permite fazer a seleção entre aqueles que valem a pena acrescentando-nos valor e os outros.
Que é como quem diz, junta-te aos bons e serás um deles ou vice-versa como em tantas outras coisas na vida. Sendo assim, como teremos sempre essa opção, fica nas “nossas mãos” decidirmos em conformidade.
