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São cada vez mais recorrentes as notícias sobre a fragilidade física do Papa Emérito Bento XVI. A sua idade avançada e a fragilidade da sua saúde têm vindo a suscitar, em todos, a consciência de uma inevitabilidade.

Sou um convertido tardio a Bento XVI. Lembro-me perfeitamente de um certo desapontamento no preciso momento em que foi anunciado ao mundo a sua eleição na tarde daquele dia 19 de abril de 2005.

A meio da tarde praticamente todos aqueles que trabalhavam comigo no Ministério dos Negócios Estrangeiros estavam acotovelados no meu gabinete, pois era a única televisão existente nas proximidades. Ao saber da escolha dos Senhores Cardeais desinteressei-me do assunto e fui aos meus afazeres. Desiludido.

Boa parte da minha adolescência e início da idade adulta vivi repetidamente antagonizado com muitas das posições e com muitos dos ensinamentos do então Cardeal Joseph Aloisius Ratzinger.

Já numa fase posterior esta antagonia interior avivou-se com a leitura e releituras sucessivas do livro, ou partes deste, “O sal da terra”. Livro-entrevista onde por vezes me apetecia gritar ao jornalista Peter Seewald que formulasse a pergunta de outra forma. Mais direta. Mais incisiva. Menos submissa. E dessa forma encontrar um hipotético caminho para uma resposta menos dogmática. Menos professoral. Mais plural.

Os primeiros anos do curto pontificado de Bento XVI vivi-os muito desatento ao Papa. Mudei por completo com o discurso que ele proferiu – o célebre discurso – que ele proferiu, repito, na universidade alemã de Ratisbona em setembro de 2006, seguido da visita que fez à Turquia em novembro e com o conteúdo dos discursos que então proferiu.

A partir daí e de forma retrospetiva dei-me conta da riqueza que aquele Papa era para a Igreja de Cristo. Hoje sou um admirador confesso de Bento XVI e reli, com outros olhos, com outra atenção e com outra humildade, o então Cardeal Joseph Ratzinger.

Mesmo numa visão paroquial – mas importante para mim como português – tenho plena consciência que Bento XVI foi porventura o Papa mais amigo e fraterno com a igreja portuguesa. O que aconteceu em Roma e em Portugal com sacerdotes e outros responsáveis portugueses não tem paralelo nos últimos séculos. Apenas um exemplo. Ou dois.

A nomeação em 2012 do então sacerdote José Avelino Bettencourt para chefe do protocolo do Vaticano. Agora, há dias, elevado a Arcebispo pelo Papa Francisco e nomeado núncio apostólico (embaixador) na Arménia e Geórgia. Um posto diplomático bastante mais importante do que parece. Antes, apenas um português havia sido núncio apostólico, o hoje Cardeal Manuel Monteiro de Castro. Que também Bento XVI colocou como seu embaixador no muito relevante posto de Madrid e numa altura muito delicada no seio da Conferência Episcopal espanhola. Depois, o ainda Bento XVI não o deixou ir para a reforma. Fê-lo Cardeal e desta forma voltou a distinguir Portugal e a igreja portuguesa. Dúvidas? Não, os exemplos podem ser tantos. Talvez a igreja portuguesa nunca tenha sido tão honrada por um Papa como o foi por Bento XVI.

O gesto de resignar voltou a colocar Bento XVI no centro das expectativas mundiais. Eu, como quase todos, fiquei incrédulo naquela manhã de fevereiro. E no dia 28 de fevereiro de 2013, às 18 horas, estava numa pequena multidão que se reuniu na Sé da cidade do Mindelo – Cabo Verde – em oração, no preciso momento em que em Roma, às 20 horas, Bento XVI terminava o seu Papado. Presidia a esta oração um homem – Dom Ildo Fortes – que havia sido nomeado Bispo da diocese do Mindelo há não muito tempo. Um Bispo com tão profundas ligações a Portugal, onde viveu, onde estudou, onde se ordenou padre e assumiu diversas funções e paróquias.

Apenas estive uma vez com Bento XVI, na Sala Clementina no Vaticano. Presente, também, o então Ministro da Saúde Paulo Macedo. Bento XVI falou-nos, a todos, da compaixão. Da compaixão ao servirmos como profissionais de saúde. Estavam ali profissionais de saúde dos cinco continentes. Crentes e não crentes. E no fim, quando Bento XVI terminou o seu discurso a sala inteira ficou em silêncio, imóvel, impressionada. Apenas e naqueles segundos imediatos o protocolo imprimiu movimento. Alguma dinâmica.

Hoje, confrontados com este fio de luz que parece ir extinguindo-se tenho consciência que no dia em que o Papa emérito nos deixar eu serei daqueles que sentirá uma enorme tristeza. Sentindo que Deus ficou menos presente no meio de todos nós e por isso, nós, teremos que nos renovar na capacidade de redescobrir as vozes do Tempo e encontrar novas forças para caminharmos mais sós.

Carlos Andrade Costa é o actual presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT).
Carlos Costa tem Licenciatura em Direito e os Cursos de Administração Hospitalar, de Auditor de Defesa Nacional e Pós-graduação em Gestão de Instituições sem Fins Lucrativos, entre outros, como o de Director dos Serviços de Planeamento, Programação Financeira e de Assuntos Bilaterais I, no Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Na Santa Casa de Misericórdia de Lisboa foi administrador delegado de todos os equipamentos de cariz hospitalar da instituição. Membro de Direção dos Hospitais das Forças Armadas, foi o único civil a gerir hospitais militares, Carlos Costa realizou ainda um estágio no âmbito da gestão hospitalar do serviço nacional de saúde Dinamarquês.
É professor em Instituições Universitárias, em cursos de especialização pós graduada, em gestão de saúde.

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