“Transformamos a velhice num não assunto, pejados de medo pela antevisão do nosso próprio futuro, e induzimos os mais velhos à vergonha e, depois, à culpa.”
– Valter Hugo Mãe
À sexta década de vida, as pessoas que ditosamente superaram todos os obstáculos que o destino frontalmente lhes plantou e muitas rasteiras pregou, incluindo inúmeras vicissitudes de que nem sequer tiveram consciência, são hoje confrontadas com representações sociais contraditórias sobre a sua provecta idade, determinadas por diferentes perspectivas culturais e civilizacionais, ideologias políticas, conveniências familiares e institucionais, alguma fraqueza ou vício moral e muita, muita, ignorância e inconsciência.
Se, por um lado, uma parte da sociedade valoriza a sabedoria, préstimo, longevidade, parentalidade e ancestralidade dos mais idosos(*), manifestando-lhes admiração, gratidão, interesse, veneração e respeito, outra parte há que considera os mais velhos um estorvo, custo, obsolescência, efemeridade e inutilidade, tratando-os com enfado, desrespeito, desprezo, negligência e, até, violência. Evidentemente que a percepção não é dicotómica, simples e clara, apresentando geralmente um perfil misto, complexo e até paradoxal.
Estas diferentes atitudes, observadas no espaço familiar, institucional e público, parecem ser independentes da condição sociodemográfica de quem interage com a pessoa idosa e ser determinadas, sobretudo, por factores de ordem psicossociográfica, em que a formação cívica, educativa e cultural dos indivíduos desempenha um papel extremamente relevante, a par da estrutura e funcionamento político-institucional do edifício societal. São, pois, os valores individuais intrínsecos e os dominantes e partilhados em sociedade que fazem a diferença.

Os discursos utilitaristas sobre a pessoa idosa variam entre a sentença de que “deve trabalhar, é novo para se reformar” (uma recorrente ladainha neoliberal) e os argumentos de que “é vulnerável, precisa de protecção” (o pico paternalista foi atingido com a actual pandemia covídica), “é doente e incapacitado, pode morrer” (a lembrar o eugenismo exterminador nazi, de triste memória) ou “já viveu muito, não precisa de viver mais” (outra ladainha neoliberal, esta em versão “peste grisalha” e apoiada por maquiavélicos vingadores geracionais). Dos discursos aos comportamentos, é um salto de pardal: além dos respeitosos, carinhosos, compassivos e zelosos, há-os sem empatia, paternalistas, abusadores, agressivos e descartáveis.
Nenhuma destas representações da pessoa idosa – sua vida e ocupação – faz sentido. Pessoa é pessoa, tenha a idade (ou qualquer outra característica demográfica) que tiver. Os seus direitos estão civilizacionalmente consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, a qual não faz qualquer referência à idade com excepção do disposto no seu artigo 25º, o qual afirma que “Toda a pessoa […] tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade”.
Os motivos que explicam a existência destas representações-limite – tão diferentes das que predominam noutro tipo de sociedades humanas, como as africanas, em que a palavra “velho” significa “sábio” – são diversas e conhecidas, mas não pretendo dissertar aqui sobre elas. O meu interesse maior é reflectir sobre o que deve ser feito para repor o respeito pela pessoa idosa e valorizar o seu papel social. E o que há a fazer é muito, sendo responsabilidade de todos. Todavia, a minha tese é a de que a responsabilidade primeira e o papel maior cabem aos próprios idosos.

Observo, há muitos anos, que a velhice e a reforma (ou aposentação) futuras são encaradas por muitos cidadãos com grande ansiedade e expectativa, dando-lhes por vezes mais valor e atenção do que à própria vida activa presente. Ou seja, “põem as fichas” quase todas no fim de vida, deixando de viver quando têm mais capacidade – mas geralmente menos disponibilidade – para desfrutar do lazer e dos prazeres da vida (que não o trabalho), sendo por vezes atraiçoados pela inesperada antecipação da incapacidade (física ou mental) ou do fim da vida.
Caricaturalmente, diria que muitos passam a vida a descontar os dias que faltam para a reforma para finalmente, chegado o grande dia, poderem passar o resto da vida a jogar sueca ou dominó no jardim municipal ou no café da associação. Fraco projecto de (fim) de vida, tão longe daquilo que se designa por “envelhecimento activo”! O apoio aos netos constitui também uma ocupação valorizada por estes idosos, aproveitando para fazer compras se não tiverem de ir ao centro de saúde, aos correios ou a uma repartição.
Mas a vida, tal como a conheceram décadas atrás, está a mudar rapidamente e os netos não aparecem, as compras e os pagamentos são feitos pela Internet, e a socialização transfere-se para as redes sociais. A pandemia covídica só veio acelerar esta tendência. Resta, por isso, aos que não cuidam do tal “envelhecimento activo” (ou “rejuvenescimento activo”, como alguns preferem chamar), o sofá e a televisão, a solidão, os antidepressivos e… a comiseração da família e da sociedade.

E é aqui que a bola de neve começa a rolar. Perdendo-se ou enfraquecendo-se as bases da autoridade tradicional – a legítima, a de referência e a da sabedoria (resta aos abastados a da recompensa) –, fortalece-se as representações sociais negativas da pessoa idosa, sejam as paternalistas e proteccionistas, sejam as de desistência e abandono. E com as representações negativas vêm as atitudes e comportamentos negativos, produzindo a panóplia de casos lastimáveis que diariamente compõe os noticiários e alimenta as conversas de café ou vizinhança.
O escritor Valter Hugo Mãe descreve com lúcida crueza, na crónica A Sociedade dos Velhos, a realidade de muitos dos nossos idosos hoje: “Começar a perder direitos acontece no instante em que alguém se diminui diante dos outros. É a aceitação tácita de que se pode ser preterido, esquecido ou abreviado. […] A impressão de que os velhos vivem culpados é a que mais me magoa. O modo cordeiro como agem para que a família não se canse deles, para que não lhes gritem, para que lhes sirvam uma sopa que não se entorne, que não tenha demasiado sal, que não ferva como lava de comer à pressa”.
E acrescenta, com não menos desassombro: “Impressiona-me que já entrem nas salas como meninos malcomportados, acanhados porque lhes dizem que só fazem asneiras. Tantas vezes escutando as coisas mais cruéis. Para que morram mais cedo, deixem de herança dois ou três pertences com valor comercial, para que não ocupem o espaço onde as crianças querem brincar. Porque as crianças são todas elas esperança e direitos. […] Não entendermos que as pessoas [idosas] que temos em casa são o puro ouro da vida, é um tiro no nosso próprio pé”.

Este é um debate que precisa de ser feito. Existem, no país, muitas organizações e movimentos interessados e vocacionados para a defesa dos interesses e direitos dos idosos, mas parece faltar uma organização cívica que promova activamente a sua valorização e imagem societal. É preciso construir uma nova representação social da pessoa idosa, a qual seja dominante na sociedade. Uma representação que, como disse ao início, aprecie e saliente, antes e mais do que tudo, a sabedoria, préstimo, longevidade, parentalidade e ancestralidade das pessoas idosas.
Portugal, com mais de 20% de população idosa, é o 6º país mais envelhecido do Mundo e o 4º da União Europeia. A política de envelhecimento activo tem, pois, de constituir uma prioridade no domínio social, constituindo uma reserva de valor – económico, social e cultural – que pode e deve estar ao serviço da sociedade. Não para prolongar a vida laboral, quantas vezes silenciosamente penosa e perigosa, produzindo inúmeros mártires anónimos do trabalho, mas para, finalmente, proporcionar o tempo de contemplação, reflexão e criação que, só ele, permite consagrar a sabedoria e alcançar a felicidade. A própria e a dos outros.
(*) Uso nesta crónica o termo “idoso” como equivalente a qualquer outro que o leitor prefira, designadamente “velho” ou “sénior”, sem discutir a respectiva validade ou primazia.
**O autor não segue as regras do novo Acordo Ortográfico.
