Maksim vive em Abrantes, Irina no Entroncamento, e ambos têm muitos familiares na Ucrânia. Créditos: DR

Apesar de viverem longe, é de forma muito próxima que Maksim Darmogray e Irina Ferreira acompanham o evoluir da guerra no seu país. A viver em Portugal há quase duas décadas, estes ucranianos residentes em Abrantes e no Entroncamento, respetivamente, falam ao mediotejo.net sobre o pânico que sentem na voz dos seus familiares, ao telefone, e sobre o medo que a todos tira o sono, perante a incerteza do que está para vir.

“Se for necessário ou se pedirem ajuda, obviamente que sim.” É assim, sem hesitações, que Maksim Darmogray responde quando questionado sobre se pondera regressar à Ucrânia para defender o seu país da invasão russa.

A viver em Abrantes há quase duas décadas, admite que sempre achou que esta invasão iria acontecer. “Já estava à espera”, diz, porque “esta ideia de Putin de anexar a Ucrânia à Rússia já vem de há muito tempo”.

Maksim Darmogray vive em Abrantes desde os 10 anos, quando os seus pais decidiram sair da Ucrânia e imigrar para Portugal, em busca de uma vida melhor. Créditos: DR

Maksim saiu da Ucrânia com 10 anos. “Foi naquele tempo da desanexação da Ucrânia, nos anos 90, e desde aí houve sempre crise no país. Havia falta de trabalho, as condições não eram as melhores e os meus partiram à procura de trabalho”, lembra. Mas nunca deixou de acompanhar, à distância, a situação na sua terra natal.

“Desde o tempo da guerra na Crimeia [2014] e nas áreas de Lugansk e Donetsk, temos acompanhado porque temos lá familiares”, refere.

Alguns desses familiares estão em idade de tropa obrigatória e, muito provavelmente, diz, o primo mais novo “há-de ser chamado” para ajudar na guerra.

Maksim falou com eles pela última vez na quinta-feira, e relata-nos o ambiente de receio vivido na cidade de Dunaivtsi, situada na região de Khmelnytski. “Têm algum medo, ainda ontem uma base que existe ali perto foi atacada. A minha avó disse que sentiu os aviões a passar mesmo rente às casas”.

Do som de fundo das sirenes que alertam e antecedem o barulho de explosões, há também a corrida aos bens essenciais e multiplicam-se as filas de trânsito, com muitos a tentarem ainda fugir do país.

“O meu tio disse-me que se sente o pânico das pessoas, tanta é a corrida aos supermercados, às bombas de gasolina, para comprar as coisas necessárias para ter em casa”, conta ao nosso jornal Irina Ferreira, ucraniana a viver no Entroncamento há 19 anos.

Ao contrário de Maksim Darmogray, esta cidadã ucraniana sempre evitou ver as notícias daquilo que se passava no seu país, porque “custava a acreditar”.

Irina Ferreira vive no Entroncamento há quase 20 anos, mas mantém uma ligação próxima com a família que permanece na Ucrânia. Créditos: DR

“Na quinta-feira de manhã, ao abrir o Facebook, a primeira coisa que me apareceu foi o que infelizmente aconteceu, o que estávamos à espera”, diz ao mediotejo.net, suspirando com o desvanecer da esperança que ia acalentando, de que a guerra não iria ser uma realidade.

“Tenho [na Ucrânia] os meus avós, os meus tios, as minhas primas… tenho lá a minha família inteira”, conta, mostrando-se certa de que nenhum sairá do país, numa altura em que milhares de cidadãos ucranianos tentam abandonar as suas cidades, criando filas de trânsito, nomeadamente na capital, em Kiev.

A amarelo, Kiev, capital da Ucrânia.
A laranja, Donetsk e Lungansk, regiões sob controle dos pró-russos.
A vermelho a região de Zaporizhzhya, onde vivem os familiares de Irina Ferreira, e Dunaivtsi, cidade situada no Oblast de Khmelnytski onde vivem os familiares de Maksim Darmogray
Imagem: Google Maps

“Estão lá, é para ficar, e todos eles estiveram na tropa, estão na reserva, mas prontos para defender o país se for preciso”, assume convictamente Irina, que nos dá conta do distrito onde moram os seus familiares, na zona de Zaporizhzhya, onde também já se ouviu de perto o som dos bombardeamentos.

“Não é fácil, temo que possa acontecer algo mais grave”, confessa Irina, que descreve a forma como vive neste momento numa única expressão: “Com o coração muito apertado.

Também Maksim tem dificuldade em descrever o que sente: “Muito nervosismo. A minha mãe ontem passou o dia a chorar.”

Perante o escalar do conflito, Maksim diz não ter dúvidas de que o fim da guerra só acontecerá se for feita a vontade da Rússia.

“Se forem a negociações, é possível que recuem, mas será constituído um governo pró-russo. Vai ser tudo à base da Rússia, daquilo que a Rússia quer, não há volta a dar. Porque se o governo for contradizer as exigências russas, vai continuar [a guerra], como é óbvio.”

Ana Rita Cristóvão

Abrantina com uma costela maçaense, rumou a Lisboa para se formar em Jornalismo. Foi aí que descobriu a rádio e a magia de contar histórias ao ouvido. Acredita que com mais compreensão, abraços e chocolate o mundo seria um lugar mais feliz.

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