Vítimas ucranianas do Holodomor, em 1932.

O Governo ucraniano agradeceu, numa nota enviada à Lusa, a solidariedade de Portugal por ter, em 2017, aprovado uma resolução a classificar como genocídio o “Holodomor”, a fome que há 90 anos matou 7 a 12 milhões de pessoas na Ucrânia, segundo estimativas das Nações Unidas.

Esta mensagem do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Kiev, enviada na sexta-feira, foi motivada pela efeméride que hoje se assinala na Ucrânia: o 90.º aniversário da grande fome causada por Estaline no país, quando ordenou que as colheitas do país fossem confiscadas em nome da coletivização das terras.

“Amanhã (hoje), 26 de novembro, a Ucrânia recorda as vítimas do Holodomor de 1932-1933 (…) Em março de 2017, o parlamento da República Portuguesa aprovou a resolução n.º 233/XIII [intitulada] ‘Reconhecimento do Holodomor – a Grande Fome de 1932-1933 na Ucrânia’, que classifica o Holodomor de 1932-1933 como genocídio do povo ucraniano”, indicou uma fonte oficial do MNE ucraniano em nota enviada à Lusa.

A mensagem do Governo de Kiev nomeia mesmo alguns municípios portugueses que se aliaram à iniciativa, como “Grândola, Alcanena, Lagos, Águeda, Abrantes e Braga”, e que “reconheceram o facto do genocídio”.

“Muito agradecemos e respeitamos a solidariedade do parlamento e do povo portugueses com os ucranianos, que sofreram uma das maiores tragédias nacionais da sua história entre 1932 e 1933”, lê-se no texto sobre o “Holodomor” – que, em ucraniano, significa precisamente “exterminação pela fome”, e só nesse primeiro inverno fez mais de 3,5 milhões de mortos no país.

Hoje, será o primeiro dos quatro sábados de novembro em que a Ucrânia assinalará, com um Dia da Memória, o início do Holodomor, também designado como “A Grande Fome” ou “A Fome-Terror” da era do domínio soviético.

A memória do Holodomor ganha especial relevância num momento em que o país, em guerra há 9 meses, se prepara para atravessar um dos mais difíceis invernos da sua história, com os cortes de energia a serem usados estrategicamente pela Rússia para fragilizar a população ucraniana.

De acordo com o Museu Holodomor, situado em Kiev, até agora, só 16 Estados, além da Ucrânia, reconheceram oficialmente a grande fome como um genocídio: Austrália, Equador, Estónia, Canadá, Colômbia, Geórgia, Hungria, Letónia, Lituânia, México, Paraguai, Peru, Polónia, Portugal, Estados Unidos e Vaticano. Alguns outros países, como Argentina, Chile e Espanha, condenaram-no como “um ato de extermínio”.

Aos 17 se juntaram agora mais dois, a Roménia e a Irlanda, cujos parlamentos aprovaram esta semana resoluções nesse sentido. Deverá seguir-se-lhes pelo menos mais um, a Alemanha, que já anunciou para a próxima quarta-feira que a questão será debatida e votada na câmara baixa do seu parlamento (Bundestag).

A opinião académica continua dividida sobre se a grande fome de 1932-1933 constitui um “genocídio”, sendo a principal dúvida saber se Estaline tinha a intenção de matar ucranianos para anular um movimento de independência contra a União Soviética, ou se a fome foi sobretudo o resultado da combinação da incompetência oficial com as condições naturais.

Na nota enviada à Lusa, o MNE da Ucrânia faz ainda outro agradecimento ao país, sobre a ajuda que lhe tem sido prestada desde que a Rússia o invadiu, a 24 de fevereiro deste ano, fazendo um número ainda indeterminado de mortos e feridos e milhões de deslocados internos e refugiados noutros países europeus.

“Estamos gratos a Portugal pela solidariedade com o povo ucraniano na defesa da sua independência e integridade territorial e pela partilha das legítimas aspirações do povo ucraniano a fazer parte de uma Europa unida, no âmbito dos valores e princípios da defesa da democracia, da paz e da prosperidade dos povos.”


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Agência de Notícias de Portugal

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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