Do Leste para o Este
O Presidente do Turquemenistão assinou ontem um decreto presidencial no qual se lê que no dia 8 de Março, Dia da Mulher, as mulheres Turquemenas receberão um cheque-presente no valor de 40 manat (cerca de 10€). Um acto de generosidade pela parte de um Presidente cujo nome consegue ser mais difícil de pronunciar do que o do país a que preside: Gurbanguly Berdimuhamedow.
Ora o generoso Presidente Berdimuhamedow é Chefe de Estado desde 2006, tendo sucedido ao Presidente para a Vida, que chefiou o Turquemenistão entre 1985 e 2006 e, também ele, dono de um nome pouco atreito ao linguajar português: Saparmurat Atayevich Niyazov. Berdimuhamedow é não só Presidente mas também, desde o ano passado, “Arkadağ” (Protector da Nação).
O Presidente-Protector, que venceu as eleições presidenciais de 2007 com quase 90% dos votos e as de 2012 com mais de 97%, encabeça um dos regimes mais repressivos da Ásia Central, onde escasseiam regimes brandos. A liberdade de imprensa é ilusória, os mais básicos direitos sociais e políticos uma utopia e os direitos humanos são feitos de cristal. Ao mínimo achaque presidencial estilhaçam-se em mil pedaços…
A falta de interesse do regime comandado pelo Arkadağ em garantir padrões mínimos de segurança humana, ou em reduzir as gritantes desigualdades sociais, é compensada pelo zelo extremoso, de todo o aparelho do Estado, no culto da personalidade do Sr. Presidente. O Arkadağ acha-se tanto Khan, quanto Sisi se acha Faraó e Erdoğan Sultão.
Justiça seja feita a Berdimuhamedow, o culto da personalidade da sua Presidência é menos excêntrico do que o do seu antecessor. Niyazov, por exemplo, mudou em Agosto de 2002, por decreto presidencial, os nomes dos meses e dos dias da semana. Janeiro passou a ser Türkmenbaşy (título honorífico que Niyazov conferiu a si mesmo) e Abril passou a ser Gurbansoltan, em homenagem à sua mãe.
E se é verdade que em 2008, o Arkadağ reverteu os meses e dias da semana à nomenclatura original, também é verdade que o ano passado Berdimuhamedow presenteou Asgabat (capital do Turquemenistão) com uma estátua feita de bronze e revestida a ouro de 24 quilates, figurando ele mesmo (Berdimuhamedow) montado num cavalo, no topo de uma montanha feita de mármore. Um pequeno espectáculo visual de 20 metros!

O Turquemenistão faz parte daquele grupo de países perante os quais o olho crítico da União Europeia, tão afoita em apontar o dedo a Atenas ou a Sófia, se torna turvo. Isto porque os tão propalados planos da União Europeia de garantir independência energética da Rússia “má” liderada por Putin, dependem em larga escala da vontade e dos recursos energéticos, do Turquemenistão (bom?) do Arkadağ.
O Turquemenistão possui a quarta maior reserva de gás natural de todo o mundo, o que permite por exemplo que os Turquemenos não paguem por gás ou electricidade desde 1993. Nada como uma boa reserva de gás natural para baixar o volume da voz da tecnocracia de Bruxelas, ou mesmo para serenar o dedo acusatório de Washington. É aliás interessante como os EUA acham conveniente ter em Asgabat uma unidade do “Corpo da Paz” e do USAID…
Não me entenda mal o leitor, acho fantástico que a União faça um esforço para desenvolver parcerias com países como o Turquemenistão, o Azerbaijão e o Cazaquistão. Não acho é lá muito consistente e coerente que se ignorem os traços e trejeitos destes regimes sultanistas e que ao mesmo tempo se tenha sempre a voz pronta e o dedo em riste apontado à Rússia, a cada passo dado por Putin. Ou bem que somos coerentes, ou bem que não somos nada…
