Mais de um terço dos 308 presidentes de câmara estão impedidos de uma recandidatura nas próximas eleições autárquicas devido à limitação de mandatos. No distrito de Santarém, são 11 os municípios que vão mudar de presidente (sete do PS, três do PSD e um do PCP-PEV), entre os quais cinco do Médio Tejo; Entroncamento (PS), Mação (PSD), Sardoal (PSD), Torres Novas (PS), e Vila Nova da Barquinha (PS). Também Vila de Rei (Castelo Branco), Gavião e Ponte de Sor (Portalegre) vão eleger novos presidentes em 2025.
Ricardo Jorge Martins Aires, 52 anos, nasceu em Coimbra a 10 de abril de 1972, tendo concluído a licenciatura de Professor Profissional do Ensino Básico na vertente de Educação Física. Ingressou no quadro da Câmara Municipal de Vila de Rei em 2000, tendo passado a viver no concelho a partir de 2001. Em 2002 torna-se adjunto da presidente da Câmara Municipal de Vila de Rei e, um ano mais tarde, assumiu funções enquanto vice-presidente da autarquia. Em 2013, com a saída de Irene Barata, concorreu e venceu as eleições autárquicas, sendo eleito presidente da Câmara, cargo que desempenha até hoje.
Casado, com dois filhos, Ricardo Aires, após 20 anos de autarca, afirma que o futuro ainda é incerto, mas os planos passam por retomar a sua profissão, ligada ao ensino, enquanto professor de educação física.

Este é o seu último mandato, em 2025 não poderá recandidatar-se. Fica até ao final do mandato?
O ficar até o final nós nunca sabemos, porque pode haver sempre outras oportunidades e outras razões para nós tentarmos fazer algo em que possamos ser úteis noutro lado também. Claro que tenho um mandato, neste caso hoje a falar, é até ao fim do mandato, mas não posso nunca estar a dizer que que irei ficar até ao final, porque nunca sabemos. Até no primeiro mandato nós estamos para cumprir, é verdade, mas pode haver outras oportunidades, até pessoalmente, certas situações que às vezes nos podem acontecer na vida. Por isso, hoje em dia, quem está num mandato ou quem está num emprego, nunca pode dizer que vai até ao final desse contrato, penso eu.
Tem ambição de trabalhar em cargos governativos ou ser candidato a câmaras de outros municípios? E mais tarde regressar?
Não, neste momento aquilo que posso dizer é que coloquei o Partido Social Democrata, em Vila de Rei, à vontade para eles decidirem o que é que querem que eu seja. Sobre outras câmaras, não. Neste momento não me revejo a ir para outras câmaras. Não quer dizer que no futuro, um dia, nunca se sabe. Não faço a mínima ideia neste momento, aquilo que posso dizer é que irei fazer a minha vida, poderá ser um pouco diferente… vai ser de certeza absoluta diferente, visto que já sou autarca há mais de 20 anos. Irei para a minha vida, sou professor de educação física e depois vemos o que é que irá acontecer, porque tenho um vínculo também na função pública, em termos de professor de educação física. Depois vemos.
Porque é que escolheu esta vida de autarca? O que é que o motivou e como é que chegou até à Câmara Municipal?
Bom, isto é um longo percurso. Eu desde jovem que ando sempre no mundo associativo e no mundo associativo é para servir a comunidade. Desde os meus 12 anos pertenci a várias coletividades, associações. Fui fundador da JSD da Sertã, fui também fundador da primeira associação que houve da Escola Secundária da Sertã. Depois, aqui já em Vila do Rei, fui um dos promotores do aparecimento do Vilarregense Futebol Clube. Fui autarca na Sertã também, pela primeira vez em 1997, como membro da Assembleia Municipal. Depois vim trabalhar para Vila do Rei, onde a antiga presidente me convidou para ser vereador da Câmara Municipal de Vila de Rei, que fui até 2013, como vice-presidente da Câmara e depois conquistei a Câmara até hoje.
Por isso o meu percurso foi mais neste estilo que tive aqui a tentar dizer muito rápido, porque havia muitas coisas para dizer em termos pessoais e associativos. E a Casa do Benfica também, fui eu que fundei a Casa do Benfica em 2006, em Vila de Rei, entre outras coisas.

Como vê hoje o nome de Irene Barata, histórica autarca do PSD, integrar as listas do PS?
Não vou dizer muito, as atitudes são para quem as pratica. É a única palavra que tenho e lamento a situação.
Sente que o concelho está melhor depois do seu trabalho? As populações têm melhor qualidade de vida?
Bom, isso terão que ser as pessoas a dizerem se está melhor ou se não está melhor. A nível pessoal eu penso que sim, há mais qualidade de vida. Fomos um executivo que pensámos sempre primeiro nas pessoas e por isso, as nossas bandeiras são aquelas que muitas vezes o poder local, alguns colegas meus gostam dessas bandeiras, que são o social e educação. Se reparar, estamos a falar dos mais jovens até aos menos jovens. Nós pensamos sempre primeiro nas pessoas, queremos que se sintam bem no nosso concelho, queremos que as pessoas tenham o seu emprego no seu concelho e por isso fizemos variadíssimos regulamentos, de apoio ao empresário, apoio ao empregador, desde os apoios sociais, os apoios da educação que fizemos e em que inovámos, temos vários projetos… em termos do social, que é o “Esperança porta a porta” que é um projeto lindíssimo, um projeto muito sensível para as pessoas mais vulneráveis do nosso concelho e eu acho que foi uma aposta ganha e uma aposta certa para este concelho, visto que temos uma população bastante idosa.
Temos assistido a presidentes de câmara saírem antes do final do mandato, renunciam para assumirem outros cargos e colocarem na presidência aquele que poderá ser considerado o seu prolongamento, normalmente o vice-presidente. O que pensa dessa estratégia política? Acha que aos olhos do eleitor, este avanço, é censurável?
Eu não sei se é estratégia política, conforme disse no início da nossa entrevista, por vezes podem aparecer certas situações e o presidente da Câmara poderá ir para outros voos, para outros situações, onde pode melhorar também essas situações nesse sítio. Por isso não sei se é uma estratégia. Aquilo que posso dizer é, caso me apareça até ao final do mandato uma situação que me agrade, em que seja muito útil nesse sítio, porque não? E já agora, o nosso vice-presidente, o Paulo César Luís, vai ser nosso candidato à Câmara, toda a gente já sabe. Por isso, aqui em Vila de Rei não é nenhuma estratégia. Se acontecer, é um facto, tenho a certeza absoluta que ele é, neste momento, a melhor pessoa no concelho de Vila de Rei para liderar a Câmara Municipal de Vila de Rei, visto que é um homem com muita experiência. É um homem que é vereador desde 2005 e por isso penso que só isto diz tudo.

Como estão as contas do município, deixa uma boa herança financeira?
Sim, aí posso dizer que este município, no final de 31 de dezembro, em termos de dívidas a médio e longo prazo, não rondará mais de 400 mil euros. É uma situação financeira bastante boa para quem vier governar a Câmara Municipal de Vila de Rei. Sendo assim, penso eu, que quem tiver boas ideias, quem tiver um projeto para Vila de Rei, tem aqui uma situação muito favorável.
Qual é a herança de que se orgulha? Que obra gostaria de ter realizado e não vai conseguir?
A herança de que me orgulho foi ter trabalhado para os vilarregenses. Estes anos todos, todos me trataram bem e por isso há uma afinidade muito grande com a população vilarregense.
A obra, aquilo que posso dizer, é em termos turísticos. O Plano de Ordenamento da Albufeira de Castelo do Bode, que neste momento está em revisão, leva a que muitos investidores que queriam investir no concelho de Vila de Rei se deparem sempre com condições que para eles não são ideais. Havia uma obra, em Fernandaires e também na Arrancoeira, que idealizamos várias vezes, tivemos contactos com vários empresários, fomos à procura deles, mas deparámo-nos sempre com o Plano de Ordenamento da Albufeira de Castelo de Bode. Em tempos, os investidores estiveram cá pelo menos cinco anos, na zona da Cabecinha, e depois foram investir em Mértola, novamente por causa do Plano de Ordenamento da Albufeira de Castelo de Bode. Fizemos tudo por tudo, conseguimos até suspender o Plano de Ordenamento na altura, durante 3 ou 4 anos, simplesmente o PDM que está aí depois por cima, também não deixava. A pior coisa que eu levo de autarca é não ter conseguido esse investimento para o concelho, porque o concelho merece.
Em termos de turismo temos muita coisa já feita, ainda há outras coisas para fazer, mas isso os candidatos que venham para aqui saberão fazer as suas ideias depois, mas é uma daquelas que levo de não ter conseguido, mas em virtude do Plano de Ordenamento da Albufeira de Castelo de Bode não nos deixar, praticamente, fazer quase nada e é injusto, porque estão a prejudicar a nossa região, principalmente neste concelho, em que poderíamos ter um turismo de excelência e não conseguimos.
E qual foi o problema para o qual encontrou solução, que lhe deu maior satisfação?
Foi o lagar e a destilaria de Vila de Rei. O município de Vila de Rei, se calhar, é o único município do país que tem um lagar municipal e destilaria. Em 2015 ou 2016, mais coisa menos coisa, não queriam que fizéssemos esse lagar. A Direção Regional da Agricultura pôs obstáculos em todo o lado. Simplesmente graças a certos conhecimentos que vamos tendo ao longo da vida, conseguimos implementar este lagar e esta destilaria que é bastante útil para os vilarregenses. É uma forma de nós, indiretamente, dizermos às pessoas que façam a transformação da paisagem também em olival, em pomares, em medronheiros, para que haja essa silvicultura preventiva ao mesmo tempo. As pessoas também sabem que podem ter um extra no final do ano tendo estas culturas. Por isso, foi a maior dificuldade que eu tive, demorou muito tempo… houve outras, claro, mas esta foi, para mim, a que deu mais luta e o que dá mais luta é o que para nós é bom.

Nestes três mandatos como presidente de Câmara, 12 anos, portanto, qual foi o pior momento? Foram os incêndios?
Desde 2013 até hoje, se olharmos no tempo, nunca tivemos um mandato tranquilo. Começámos com uma Troika, seguidamente vieram os incêndios de 2017 e 2019, tivemos o Covid, depois a guerra da Ucrânia e seguidamente também de Israel. Se reparar, estamos a falar de todos os mandatos com dificuldades, que nós por vezes não sabíamos… Na altura, com os orçamentos municipais, não tínhamos consciência que ia haver algo e tínhamos que os adaptar, tínhamos que minorar certas coisas, tínhamos que tentar que a nossa população não tivesse tanto consequência indireta ou direta, nessas circunstâncias, e por isso tivemos que fazer várias revisões do orçamento, várias alterações ao orçamento.
Por vezes tivemos que alterar os nossos orçamentos para adiarmos certas obras que tínhamos em mente e sendo que o autarca de 2013 até 2025 teve que ser um autarca muito imaginativo, um autarca que tentasse, com a sua voz e com as suas equipas, com os colaboradores do município, demonstrar aos munícipes que as coisas estavam menos boas, mas nós íamos conseguir. E quando nós dizíamos que íamos conseguir, é que tínhamos certas preferências, certos apoios para os nossos vilarregenses, para eles estimularem e continuarem a sua vida e neste caso, que os empresários continuassem economicamente a produzir, porque senão era muito mau para o concelho de Vila de Rei e eles foram heróis também, porque nunca baixaram os braços e estiveram sempre do lado do município e nós do lado deles.
A grave crise no Serviço Nacional de Saúde, ao nível dos profissionais e do investimento, pelo que tem sido tornado público, inclusivamente pela concelhia do PSD, a questão dos cuidados de saúde primários no concelho tem sido uma dor de cabeça… Não há nesta área também uma responsabilidade dos autarcas?
Não e vou dizer porquê… Primeiro, o município de Vila de Rei não tem a descentralização da saúde, logo aí passa por aqui. Segundo, o SNS é uma competência do Governo central. Terceiro, a Câmara Municipal de Vila de Rei, e na minha pessoa, não quero falhar aqui datas, mas foi no tempo do senhor ministro Manuel Pizarro, salientei ao senhor ministro que entre 31/12/2023 e 31/12/2024 ia haver uma escassez de médicos de família no nosso concelho. Se não houve planeamento foi por parte do Governo central, não foi a autarquia. A autarquia avisou muito a tempo e tenho a certeza absoluta que se tivesse havido planeamento do Governo central, hoje Vila de Rei e o nosso país não estavam nestas condições e não digo mais, porque não vale a pena.

Acha que a região tem falta de investimento público ou aquele que merece? Se falta, onde deveria ser a aposta da administração central?
Como disse e disse muito bem, o investimento público faz sempre falta em qualquer lado do nosso país, especialmente nas zonas que estão mais desfavorecidas e quando digo mais desfavorecidas, não é por sermos os coitadinhos. Nós não somos coitadinhos, somos muito ricos, principalmente na nossa floresta e na água que passa nos nossos concelhos. Aquilo que posso dizer é que é completamente injusto nós, em Castelo de Bode, sermos uma reserva, não sei se é a palavra ideal, mas sermos uma reserva para Lisboa e depois não nos deixam fazer muita coisa. Posso dar-lhe exemplos como, por exemplo, até nos barcos… Os nossos barcos de recreio, que andam na Albufeira de Castelo Bode, só podem sair a 4 tempos. Não sei porquê, porque a tecnologia hoje em dia já suporta motores a 2 tempos, em que se consegue fazer também os barcos recreativos andarem em Castelo de Bode. Mas a APA, que é um organismo muito especial no nosso país, não deixa.
Em Annecy, França, na União Europeia, podem verificar quantos barcos andam nesse lago, que é tipo um lago de Castelo de Bode, uma água que se bebe conforme a nossa e eles têm barcos a 2 tempos, 4 tempos e elétricos. Só que Portugal, às vezes, é mais papista que o Papa. Seguidamente, em termos de urbanização, eles já podem construir a 100 metros e nós a 500 metros… Agora querem passar-nos para 1000 metros. É um erro estarem a prejudicar estes concelhos todos, estas gentes todas, que poderíamos ter economicamente evoluído muito e não temos porque certos senhores que estão em Lisboa não deixam.
Na sua opinião porque é que a coesão territorial não avança ao ponto de tornar o país mais igualitário. É falta de vontade, de capacidade ou de competência?
Eu penso que todos os governos têm essa intenção de querer que haja mais coesão. Simplesmente há muitos lobbies no país. Conforme disse anteriormente, por vezes certas circunstâncias não deixam o governante ter mais políticas de coesão para que haja essa coesão definitiva no nosso território e digo isto porquê? Porque nós para ver se também temos acesso a certas reuniões, onde conseguimos falar, onde a nossa voz até pode chegar ao Terreiro do Paço, simplesmente depois há outras coisas que nos transcendem e não é possível. Isso, claro, magoa, principalmente a nós que estamos aqui nestes concelhos que têm pouca gente e poderíamos conseguir algo mais para as nossas gentes e por vezes não é possível. Não estou a dizer que este governo ou outro governo não tenham coragem, mas é preciso fazer algo mais. Ainda ontem vi Pedro Passos Coelho no interrogatório sobre o caso do BES, se calhar vamos precisar de Primeiro-Ministros serem como ele, ter sabido que chegou a altura de dizer que não a um lobby muito grande.

Como encarou a mudança para outra região, para a Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa?
Foi uma mudança que nós não estávamos à espera. Houve muita mentira e posso dizer mesmo mentira, está gravado, por isso posso dizer isto… na Assembleia da República que nós não íamos ser prejudicados com a mudança do Médio Tejo para a Beira Baixa e é repararem nos orçamentos que nós temos hoje na Beira Baixa e o que tínhamos no Médio Tejo. Sempre nos disseram que poderia haver uma mudança, mas era no ano de 2027, no final do quadro comunitário que hoje já está aí, o 20-30. Afinal nós pensamos que temos autonomia, as autarquias locais, e não temos, porque houve uma mudança legislativa na Assembleia da República e fomos obrigados a ir para a Beira Baixa. Não tenho nada contra a Beira Baixa, eu sou da Beira Baixa, simplesmente não era desta maneira que deveriam ter feito. Os vereadores não foram ouvidos, a Assembleia Municipal não foi ouvida, a população não foi ouvida e isso acho que foi muito mau do Governo de António Costa, ter obrigado Vila de Rei a ir para a Beira Baixa.
Apesar disso Vila de Rei permanece com acordos na Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, designadamente ao nível da mobilidade. Porquê?
Porque era um projeto que já estava em andamento, já estava até aprovado e não tinha consequências de agora nós termos integrado aquele projeto, que estava mesmo a começar, e irmos para a mobilidade da Beira Baixa. Mas há umas candidaturas que ficámos sem elas, que é o Fundo de Transição Justa (FTJ). Com a mudança do Médio Tejo para a Beira Baixa, fomos impedidos do FTJ ter vindo para o concelho de Vila de Rei, que já estava. Isso aí não consigo perceber, já falei com os governantes atuais deste Governo, já mandei a minha exposição para lá e estou à espera que façam com que Vila de Rei e a Sertã, neste caso, voltem a ter o apoio da Transição Justa nestes concelhos. Porque nós tínhamos uma empresa que queria investir no âmbito do FTJ em Vila de Rei e depois foi impedida de concorrer e foi-se embora. Foi a CCDR Centro que chumbou a sua candidatura e acho que isso é injusto.
Acha que a CIMT poderia ter um papel mais reivindicativo, ou não tem porque todos os presidentes de Câmara são eleitos pelos partidos do poder: PS e PSD?
Penso que essa teoria dos presidentes de Câmara serem do arco do Governo é um bocadinho, por vezes, lamentável ouvir isto. Porquê? Sendo eu um autarca do PSD, já viu aquilo que eu disse sobre o Governo de Portugal em certas circunstâncias. É o que fazemos nas comunidades, não interessa quem lá está, nós estamos para defender o nosso território, seja o PS a estar lá, seja o PSD, seja outro partido qualquer. Tenho a certeza absoluta. Todos nós, que somos autarcas, defendemos a nossa região, seja estando lá o nosso governo ou não estando lá. Por isso lamento esse pensamento ainda existir.
Na região, alguns partidos tradicionais têm vindo a perder terreno e posição na oposição, como por exemplo o PCP, o BE ou o CDS. Em Vila de Rei não há, até agora, eleitos de movimentos independentes nem do Chega. Como antevê as eleições autárquicas de 2025? Acha que estas forças políticas podem baralhar os números no seu concelho?
Estamos em democracia e todos esses partidos podem concorrer em Vila de Rei. Ninguém aqui no concelho proíbe esses partidos de existirem no concelho, mas o PCP existe, tem candidatura própria, o CDS nas últimas eleições já não teve, mas o CDS até posso dizer que neste momento é um parceiro do Partido Social Democrata, por isso a consequência poderá ser essa. Estamos em democracia, não vou dizer algo mais, o baralhar por vezes até é bom. Se calhar até é bom para o partido do poder. Se reparar, quando há as contas do método D’Hondt, o partido por vezes com maior votação tem também essa prevalência no método. Por isso, não sei, é a democracia que tem que ditar se há esses partidos ou não, neste caso nas eleições autárquicas.
Acha que marginalizar a extrema-direita é bom ou mau para o sistema político?
Estamos em democracia… É como também estamos a marginalizar a extrema-esquerda, é igual. Como também estamos, por vezes, a marginalizar os partidos do centro. Por isso é a democracia que tem que ditar estas coisas. Eu acho que não deve haver instrumentos para marginalizar ninguém, a democracia é que tem que funcionar. Eu prefiro ter uma democracia menos boa, do que ter uma ditadura. Por isso sou democrático, sou republicano, tenho a minha ideologia social-democrata e a democracia é que tem que imperar.

Convidaria alguns dos vereadores da oposição para trabalhar consigo?
Nunca aconteceu, não digo que não, mas como eu também sou apologista de que a composição de uma autarquia seja monocolor, neste caso não havia ninguém a convidar. Eu penso que os poderes da Assembleia Municipal é que têm que ser vistos, porque haver uma vereação, neste caso em Vila de Rei, que somos quatro para um, claro que a oposição tenta ser também construtiva, mas é pouquinho. Por isso, eu penso que os poderes podiam estar também algo mais na Assembleia Municipal. Isto é uma guerra, desculpe o termo, que já vem de há muitos anos, que eu acho que os políticos na Assembleia da República deveriam rever esta lei das eleições autárquicas.
Que critica lhe merece a classe política do concelho?
Crítica não tenho nenhuma, cada um faz o seu papel. Quem está no poder faz o melhor possível e quem está na oposição penso que também deve fazer o seu melhor possível. Não tenho crítica nenhuma, é uma oposição que aceita os termos em que estamos a governar e quando não concorda, vota contra ou abstém-se. Cada um tem o seu papel.
Passados estes anos, a delegação de competências foi ou não um presente envenenado?
É assim, para mim não é ser um presente envenenado porque eu sou a favor da descentralização. Eu acho é que a descentralização foi muito pouquinho. Foi só uma passagem de verbas do poder central para as autarquias e, muitas vezes, essas verbas não são sinónimo de ótimas verbas para o poder autárquico. Como nós já tínhamos assumido muitas políticas do Governo central em Vila Rei, a educação, o social, principalmente, para nós até foi bom porque nós já gastávamos dinheiro do orçamento da Câmara nesses apoios ou nessas atividades. Por isso até foi ótimo, porque esse dinheiro veio colmatar algum orçamento municipal que já despendíamos. Agora foi uma descentralização muito pouquinha, espero que este Governo ou outros governos que venham sejam mais arrojados para que esta descentralização seja melhor.

A região do Médio Tejo – e provavelmente também a Beira Baixa – tem recebido, cada vez maior número de imigrantes. No seu concelho, tem esses números? Estão todos a trabalhar? Em que áreas? E o que pensa deste multiculturalismo?
Estamos num mundo global e hoje, ainda por cima, somos um país com muitos como emigrantes. Por isso Portugal, com o acordo que fez na União Europeia, teve de receber vários imigrantes. Vila de Rei claro que cresceu, tem mais imigrantes, vemos pela escola, temos pelo menos mais uma turma no Jardim de Infância, houve um aumento dos alunos no concelho. Posso-lhe dizer uma coisa: hoje, com os dados que tenho de ontem, no RSI não temos um imigrante [inscrito]. Isso é bom sinal, é porque estão todos a trabalhar.
Tem esses números, relativamente ao seu concelho?
Não, não tenho neste momento aqui a percentagem.
A habitação é um problema nacional. Mas em décadas não houve políticas de habitação. Sobre a Estratégia Local de Habitação, sente-se satisfeito com o trabalho realizado nesta área? Pode ou não correr o risco da habitação a custos acessíveis não ser uma realidade, quer pelo valor de construção estabelecido pelo IHRU quer pela falta de mão de obra, de empresas que se candidatem aos concursos públicos?
Sobre a habitação eu penso que somos um concelho que neste momento não tem nada a ver com essas situações e vou dizer porquê. A habitação acessível no concelho de Vila de Rei, neste momento temos 35 fogos que irão ser concretizáveis em agosto de 2025. Todas as obras que tínhamos de habitação acessível, Bolsa Nacional de Alojamento Urgente e Temporário (BNAUT) e 1º Direito já estão… temos o BNAUT e 1º Direito concluídas. A habitação acessível, estes 35 fogos vão estar concluídos em agosto de 2025.
Perguntam-me como fomos tão rápidos? Fomos rápidos porque já sabíamos que ia acontecer isto e então tínhamos os projetos já prontinhos. Isto é da experiência autárquica que tenho, que temos vários projetos em carteira e muitas vezes andar naqueles corredores em Lisboa, e com alguns conhecimentos que nós temos, poderemos estar um bocadinho mais à frente. Por isso nós não tivemos nenhuma obra deserta, porque antecipámos tudo. Claro que agora, quem está neste momento a pôr a habitação, o 1º Direito ou o BNAUT, por vezes têm os concursos desertos, visto que há muita obra agora e claro que os empreiteiros e as grandes construtoras elevam o seu valor de metro quadrado. Mas nós antecipámos, penso que foi uma estratégia nossa bem feita e, neste momento, temos o problema resolvido em termos de habitação acessível, BNAUT e também de 1º Direito.
No turismo, o concelho tem apostado nas mais-valias naturais que tem, como o miradouro de Fernandaires ou os passadiços do Penedo Furado, a classificação da Rota das Conheiras, um percurso pedestre que une a Aldeia do Xisto de Água Formosa à Praia Fluvial do Penedo Furado, por exemplo. O concelho tem sabido posicionar-se em termos turísticos? Acredita que pode ser a tábua de salvação dos territórios do interior ou não faz a diferença, nomeadamente em termos de emprego?
Como disse, poderá. O Plano de Ordenamento da Albufeira de Castelo de Bode tem que nos ajudar, porque se tivermos um plano que não nos deixa fazer algo no nosso lago é muito difícil depois impulsionar as outras coisas todas. Claro que, para lá de Castelo de Bode temos outras coisas, os passadiços, as nossas praias fluviais, os nossos percursos pedestres são muito importantes, os núcleos museológicos, o centro geodésico de Portugal, que traz muitas e muitas pessoas, e o nosso privado tem acompanhado isto.
Nós temos um Plano Estratégico de Turismo 2030 e esse plano estratégico foi idealizado com os nossos privados e também com o ensino superior. Porque nós vimos que Vila de Rei tem um potencial enorme para o turismo, agora necessitamos que o Plano de Ordenamento da Albufeira de Castelo de Bode também contribua para isso. Porque, se não, é difícil o nosso privado estar a investir e depois não consegue fazer uma parte do turismo em Castelo de Bode. Por isso, espero bem que o Governo de Portugal e a APA, que é a instituição que eu levo para fora da autarquia, que muitas vezes não nos deixa fazer certas coisas. Eu acho que é lamentável a APA, por vezes, não conseguir verificar que está a prejudicar altamente estes territórios e neste caso, o território de Vila de Rei.
O turismo é e poderá ser uma alavanca para este concelho, tenho a certeza absoluta. Por isso foi esse investimento que nós fizemos, públicos, e os privados também nos acompanharam. Nós passámos de 60 camas para 200 e tal camas e foi o privado, principalmente. O hotel que era de Vila de Rei foi vendido a um privado e hoje tem lá aquela obra em que gastou mais de um milhão e meio de euros, sem ter, penso eu, comparticipação a fundo perdido. Por isso ele acreditou nestas potencialidades que o concelho de Vila de Rei tem e neste caso, também a Nacional 2, estava-me a esquecer, que tem sido uma agradável surpresa para muita gente. Para nós não foi, visto que nós acreditámos logo na Nacional 2. Somos um município fundador da Rota da Nacional 2 e, por isso, tenho a certeza absoluta de que o turismo é uma alavanca para este concelho. Agora, o Plano da Albufeira de Castelo de Bode tem que nos ajudar.

Vila de Rei tem os alojamentos e os restaurantes que necessita para receber os turistas, ou precisa de investimento privado neste setor? E os profissionais do setor, estão preparados?
O Plano Estratégico de Turismo que nós temos tem essas vertentes também. Aquilo que eu sei, visto que o vice-presidente da Câmara é que está à frente desse plano estratégico, estamos no bom caminho. O nosso privado está por vezes a ter formações e estão a acreditar, conforme eu disse, o plano também foi realizado por eles, não é só pelo ensino superior. Houve aqui um casamento em que o privado, o ensino superior e o público, neste caso o município, fizemos um Plano Estratégico de Turismo para Vila de Rei e, por isso, é uma mais-valia, porque este plano também é deles. Sendo assim, tenho a certeza absoluta que o privado está mais preparado para receber estas pessoas, também tenho a certeza absoluta que eles querem aprender cada vez mais. Se reparar, temos um alojamento neste momento local muito bom e inter-gastronómico melhor.
Ao nível do emprego, este apresenta-se como o maior problema para a fixação de jovens no território ou há outra causa?
Ao nível do emprego, claro que aquilo que nós queremos é incentivar que todas as pessoas consigam ficar em Vila de Rei e atrairmos certas pessoas para o concelho. Aquilo que posso dizer é que nós, ao longo destes anos, e o município neste momento serve para isto, é criar condições boas para que os nossos empresários continuem a consolidar a sua empresa e a melhorar, para então ter mais emprego e atrairmos novos investidores para o concelho de Vila do Rei. Agora, quando às vezes as pessoas dizem “ok, tens uma zona industrial neste momento nova e ainda não conseguiste criar tantos postos de trabalho como tu querias?”. É verdade, mas lembrem-se de uma coisa, não nos podemos esquecer da guerra da Ucrânia e da guerra de Israel. O investidor hoje ainda está um pouco, e quando digo um pouco é até uma palavra que devia ser outra, mas ainda está um pouco expectante e não sabe se há de investir ou não.
Temos várias pessoas a aparecer no concelho de Vila de Rei, para ser sincero, mas neste momento ainda estão reticentes para fazer esse investimento. Eu tenho a certeza que se o país e o mundo entrarem aqui numa estabilidade, Vila de Rei vai crescer muito, tenho a certeza absoluta. Porquê? Porque temos estas condições ótimas para receber os investidores, temos uma zona industrial do Souto completamente nova, com todas as condições para receber estes investidores. Por isso, foi aquilo que nós fizemos, temos que criar condições. Não é o município que tem que criar emprego, isso é o privado. Quando há pessoas que por vezes dizem que o município tem que criar emprego, não. O município tem que criar condições para que o privado invista no concelho, e isso foi aquilo que nós fizemos.
O concelho também apostou muito na ação social, nos apoios municipais, mas também como veículo para a criação de emprego; com a criação de lares, centros geriátricos, unidade de cuidados continuados. Esta aposta tem feito a diferença em termos de fixação de população?
É uma política que já vem de há muitos anos, desde o fogo de 2003. Quando o concelho ardeu 80%, em 2003, foi uma das formas de nós, na altura, criarmos emprego para as senhoras. A verdade é mesmo esta, porque as senhoras, fixando-se no concelho, ficam com os seus filhos. Se um homem não tiver esse emprego no concelho, pelo menos vai depois a casa ter com a sua esposa e com os seus filhos. Foi uma forma que na altura, em 2003, se encontrou da criação dessas unidades sociais.
Claro que hoje em dia o concelho de Vila de Rei necessita de outras infraestruturas sociais, porque os lares por vezes têm pessoas que não deviam estar nos lares, deviam estar noutras unidades mais especializadas. Eu penso que a rede social de Vila de Rei está a fazer um bom trabalho neste momento e vamos ver se conseguimos que alguma instituição possa fazer essa estrutura. Posso dizer que também o município de Vila de Rei já falou com a Segurança Social, a nível nacional e com a senhora Ministra, quando estivemos na inauguração da Creche Municipal em Vila de Rei, no dia 19 de setembro, falámos com a senhora Ministra que o concelho precisa neste momento de outra instituição, mas acima dos lares. Não mais lares, os lares neste momento são suficientes para a adesão das nossas gentes. Neste momento, se calhar, se não fossem as pessoas que viessem de fora, se calhar já havia camas a mais. Mas neste caso está-se a conseguir ainda que haja uma lista de espera, principalmente de pessoas que estão fora do concelho. Agora, que é uma área que também emprega pessoas, claro, mas um concelho não pode estar sujeito só a uma área.
Um concelho tem que ter empregos de todas as áreas e quando digo todas, claro que não é todas, mas de várias áreas. Por isso é que eu digo que aquilo que fizemos na zona industrial, dar condições ótimas aos investidores, para que haja novas áreas a aparecer, tem que ser desta maneira. Mas claro que o social é muito importante no concelho de Vila de Rei.
Qual a razão destes territórios continuarem a perder população? Não são atrativos? Que medidas tomou durante os seus mandatos para estancar a sangria demográfica?
Isto passa por políticas nacionais. Nós, políticas locais, é dar presentes, desculpem o termo, mas é tentarmos dar um presente a quem fica cá. Agora, isto tem que passar por políticas nacionais. Não tenho dúvidas daquilo que eu estou a dizer. Se o Governo central não tiver medidas excecionais para estes territórios, as pessoas não ficam cá, visto que é muito mais difícil criar empresas. Um território sem gente, acaba. Por isso, eu penso que os governos, seja o atual ou os anteriores, estão a fazer medidas que eu acho que ainda são pouco. Tem que passar pelas políticas nacionais, claro que nós ajudamos naquilo que for possível…
Na educação ninguém paga nada. Desde a creche até ao 12º ano no concelho de Vila de Rei, praticamente não pagam nada, desde transportes, livros, livro de atividades, refeições até ao primeiro ciclo ninguém paga, explicações… Na creche municipal damos outras coisas específicas…
Esses apoios todos que o agregado familiar já não tem de despender fica no seu bolso, por isso é uma grande ajuda. No social também, fazemos desde os cartões etários, desde o jovem à idade ativa e o idoso, temos variadíssimos apoios que o concelho dá. Muitas vezes dizem “tens pouca gente”, mas também tenho um orçamento muito menor que os outros concelhos. É uma prioridade para nós, é aquilo que eu digo aos meus colegas. Nós gastamos cerca de um milhão de euros em apoios. Podia fazer uma obra ou duas, mas não, acho que não há necessidade. Eu prefiro dar esses apoios às pessoas e permitir que estas possam ficar com o seu dinheirinho, que tenho a certeza absoluta que irão aplicar o melhor que sabem.
Arrepende-se de alguma coisa? Se fosse hoje fazia tudo de novo?
Não me arrependo de nada. Porquê? Porque a informação que eu tinha anteriormente era a informação ideal para eu concretizar aquilo que fiz. Agora se me disserem assim, com a informação atual, modificava algumas coisas? Claro que sim. Mas claro que com as informações que eu tinha na altura foi o melhor que nós fizemos. Concretizámos certas medidas, certos apoios e obras para que fosse o melhor para o concelho de Vila de Rei. Por isso não me arrependo de nada. Agora, com a informação atual, se calhar tinha feito algumas coisas diferentes, não tenho dúvidas.
















