José Trincão Marques no gabinete da Presidência da Câmara Municipal de Torres Novas. Foto: mediotejo.net

É num edifício já quase deserto de funcionários que o novo presidente da Câmara Municipal de Torres Novas nos recebe. São seis da tarde e José Trincão Marques raramente sai antes das oito da noite do gabinete onde se começou a instalar há pouco mais de um mês. Também é dos primeiros a chegar, todos os dias. Os horários da advocacia, que exerceu durante 35 anos, eram mais longos que os da administração pública, mas não é apenas o hábito que o faz trabalhar mais horas, por estes dias. É a vontade de conhecer depressa “os cantos à casa” e de se inteirar do que há a resolver com maior urgência.

No gabinete, que ainda pretende decorar de forma mais personalizada, só alterou a posição da escultura de um busto feminino, representando a República, e que retirou de um canto para colocar no centro da sala, junto à sua secretária. Talvez porque se fundem naquele pedaço de mármore dois valores que defende desde sempre: a importância da Arte e a nobreza dos ideais inscritos na Constituição. Ouvindo-o, poderíamos até resumir o seu programa de ação ao respeito pelas duas linhas que abrem o documento fundamental da nossa democracia: “Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.”

Foram estas as orientações que nortearam o seu percurso pessoal, profissional e político, mas Trincão Marques quer ir mais além e abrir novos caminhos e dar outros horizontes aos cidadãos de Torres Novas – terra onde cresceu “feliz e em liberdade” no Bairro das Tufeiras, passando pelas escolas de música, clubes desportivos e associações culturais do concelho, locais onde diz ter aprendido o valor do trabalho em equipa, a importância de celebrar as vitórias e aceitar as derrotas, e também que, com empenho e disciplina, não há impossíveis.

José Trincão Marques, presidente da Câmara Municipal de Torres Novas. Foto: mediotejo.net

Sei que ainda se está a instalar, mas este ambiente minimalista traduz a sua personalidade? Fez alguma alteração neste gabinete? 
Ainda vou fazer algumas adaptações. Está um pouco despido, quero colocar aqui algumas obras de arte, mas para já só mudei de lugar aquele busto, que já cá estava, e que achei lindíssimo.

Como tem sido o trabalho desde que se sentou na cadeira de presidente? Já conseguiu tomar alguma das decisões que elegeu como prioridade para o seu mandato?
Têm sido dias muito intensos e a verdade é que sinto que ainda nem tivemos tempo para assentar arraiais, como se costuma dizer… havia muitas coisas em atraso para resolver, muitos assuntos do dia-a-dia a exigir decisões imediatas. E também fiz questão de reunir com os funcionários da Câmara (são cerca de 700), conhecer os vários departamentos e o trabalho que fazem, e isso leva tempo. Mas a cada dia, em cada reunião com as equipas, e até com os vereadores da oposição, estou também a trabalhar no sentido de concretizar as propostas que apresentei para o meu mandato, numa perspetiva de longo prazo. 

Como definiria o seu estilo de liderança? Estarei certa se disser que é alguém que ouve os outros antes de decidir, mas também inabalável nas decisões que toma? Prático, metódico, racional?
Não serei a melhor pessoa para responder, talvez. Mas sim, faço questão de ouvir outras pessoas e outras opiniões, inclusive tenho reunido neste gabinete com os vereadores da oposição, não falando com eles apenas nas reuniões de câmara… mas há uma altura em que é preciso decidir, e decido. Não gosto de arrastar as coisas. Sou determinado. É preciso ser prático, sim, e agir com a firmeza das minhas convicções. A advocacia ensinou-me que 90% dos casos se resolve com diplomacia. E que por vezes um mau acordo é melhor que uma boa demanda.

Sendo alguém que valoriza o diálogo, porque recusou a proposta do PSD para fazer uma coligação pós-eleitoral? Não vai ser mais difícil governar sem maioria?
Foi essa a vontade dos torrejanos e não me assusta nada não ter uma maioria absoluta. Vai ser preciso dialogar com a oposição, encontrar formas de trabalharmos em conjunto, é essa a lei da democracia. No meu entendimento não fazia sentido um acordo de governação, até porque acabei de ser eleito e daqui a quatro anos quero que possam julgar o meu trabalho. Quero responder pelas coisas que possa fazer bem e pelas coisas que possa fazer menos bem.

Capacidade de argumentação não lhe faltará, tendo passado mais de 30 anos na advocacia. Foi difícil fechar essa porta profissional, pelo menos por agora?
Muito difícil. O dia em que fui entregar a cédula à Ordem dos Advogados, em Lisboa, foi dos mais difíceis da minha vida. Gostava muito da minha profissão. 

Não quer dizer que não volte a exercer um dia, mas… foi o que mais pesou na hora de decidir ser candidato à Câmara Municipal? Como foi esse processo?
Quando fui convidado pelo Partido Socialista tive cerca de dois meses para decidir, e não foi fácil. Ouvi algumas pessoas, a minha família [é casado e tem dois filhos já adultos], e entendi que devia fazê-lo. Na minha profissão não tinha muito mais a provar e estou com 59 anos… ou era agora, ou depois poderia já não ter a energia necessária para fazer uma mudança tão exigente. E sei que pode parecer cliché, mas é a verdade: o que me fez decidir foi a vontade de contribuir para a causa pública. 

Pesou também o exemplo do seu pai? [Carlos Trincão Marques foi o primeiro presidente da Câmara de Torres Novas em democracia, entre junho de 1974 e janeiro de 1976.]
Sim, o meu pai foi sempre um exemplo para mim, mas eu não planeava ser presidente de Câmara, nem estava no meu horizonte até ao momento em que o PS me fez o convite, há alguns meses.

Teve pouco tempo para decidir a candidatura, mas fazendo parte da Assembleia Municipal há quase duas décadas, estava a par dos problemas e desafios do concelho. Podemos dizer que, de certa forma, já tinha na sua cabeça um programa de governação?
Sim, há questões sobre as quais tenho vindo a refletir há muito tempo. Não há soluções fáceis – e muito menos milagrosas –, mas penso que há um problema de fundo que tem de ser resolvido, primeiro do que tudo. A nossa região, em todo o Médio Tejo, tem sofrido alguma desertificação e empobrecimento económico. Torres Novas tem de mudar o paradigma. Há que contrariar isso, e há estratégias para isso. Torres Novas tem acessibilidades muito boas, tem uma centralidade geográfica excelente, é uma terra com qualidade de vida, com bons equipamentos públicos (embora alguns precisem de manutenção). Além disso, é a única zona do país que três áreas protegidas (o Paul do Boquilobo, a Serra de Aire e Candeeiros e as Pegadas de Dinossauros). Estes pressupostos dão-nos a possibilidade de pensar o futuro doutra forma. 

De que forma? 
Não é, na minha opinião, com empresas poluentes, nem com empresas que ofereçam remunerações baixas. Quero atrair empresas modernas, que por sua vez atraiam quadros qualificados, e que ofereçam remunerações razoáveis para termos uma classe média forte no concelho. Porque o que se verifica é que também não fixamos tantos jovens quanto queríamos porque os mais qualificados não têm aqui empregos com remunerações atrativas. Um dos desafios que eu quero resolver é precisamente esse: fixar mais jovens qualificados, mas não só fixar os daqui, como atrair também outros de fora. 

O novo presidente da Câmara Municipal de Torres Novas fez uma carreira de sucesso como advogado, envolvendo-se “pro bono” nas defesa de causas ambientais. Foto: mediotejo.net

Tem alguma ideia específica sobre o tipo de empresas que gostaria de atrair para Torres Novas? 
Empresas ligadas à investigação, à informática, à comunicação, à saúde… empresas ligadas aos mais variados tipos de serviços. Um pouco como fez Oeiras – não é por acaso que é o concelho do país que tem hoje o melhor rendimento ‘per capita’. Queremos desenvolver contactos, fazer um trabalho de captação de empresas e oferecer boas condições para se fixarem no concelho. Isto é a base de tudo. Sem isso… podemos requalificar o centro histórico, baixar taxas urbanísticas, e taxas para isto e para aquilo, mas sem pessoas nada se faz. O concelho desertifica. Portanto, economicamente, temos de mudar o paradigma.

Esse é um objetivo de longo prazo. E de forma mais imediata, o que podem os torrejanos esperar?
Há várias áreas em que haverá uma acção mais imediata, nomeadamente na questão da higiene urbana, da limpeza em geral, no cuidado dos jardins. Também na área do urbanismo, espero poder concluir a revisão do PDM (Plano Diretor Municipal), por exemplo.

Falou de empresas poluentes, e uma das questões que herdou para resolver é a da limpeza dos terrenos da antiga Fabrióleo. Está na sua lista de urgências?
Sim, é urgente resolver esse assunto. Infelizmente não é apenas competência da Câmara, há muitas entidades envolvidas, e por vezes é caótico. O que está ali é um perigo para a saúde pública, e tem que ser resolvido em cooperação com o governo central. Como também tem de ser resolvido o processo de alargamento do Parque da Serra d’Aire e Candeeiros.

Fala do alargamento da classificação da zona de Parque Natural?
Sim, há uma zona do arrife, muito importante do ponto de vista geológico e da biodiversidade, que faz parte do concelho de Torres Novas e não está incluída no Parque. Essa classificação está pendente no Ministério do Ambiente.

Torres Novas tem também um património arqueológico único, nomeadamente da pré-história, nas grutas do Almonda. É uma área a que também pretende dar mais atenção?
Acompanhei de perto o trabalho do Dr. João Zilhão e as suas descobertas, cruciais para o entendimento da evolução humana. Há ainda muito por estudar e a Câmara tem todo o interesse em apoiar e incentivar todas as iniciativas científicas que possam ser desenvolvidas. Torres Novas tem todas as condições para ser um centro internacional no estudo desta área. 

Voltemos um pouco atrás – não às origens da Humanidade – mas às suas origens. Foi eleito pelo Partido Socialista, e fazia parte da Assembleia Municipal há 20 anos também pelo PS, mas na sua juventude, como despertou para a política? 
Tive a sorte de haver na minha família várias sensibilidades políticas. O meu pai foi um homem de esquerda, e o meu avô, que além de advogado era agricultor, era um homem de direita. Esteve ligado à fundação da Feira da Agricultura de Santarém e chegou a ser condecorado comendador no regime do Estado Novo. Eu ouvia os argumentos de uns e de outros, e aprendi com eles a respeitar opiniões diferentes, mas não me envolvi verdadeiramente na política até à minha ida para a faculdade [de Direito, em Lisboa]. Aí também tive professores de vários quadrantes, entre eles o atual Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa. Uma das coisas que nos disse, logo no início das aulas, era que tínhamos de comprar jornais, ter cultural geral, saber o que se passava no mundo. É por causa dele que ainda hoje leio o “Expresso” todas as semanas.

Além dos professores que o marcaram na Faculdade de Direito, que outras referências políticas tinha nessa época? 
Foram anos com acontecimentos mundiais marcantes, como a queda do muro de Berlim, o fim do Apartheid… lembro-me de ver em direto a libertação do Nelson Mandela, que foi uma referência importante. Também o Olof Palme [primeiro-ministro sueco, assassinado em 1986], por exemplo. E mais recentemente o Papa Francisco, apesar de não eu não ser um católico praticante. Admirava o seu pensamento, como estadista.

E uma figura atual? Há alguém capaz de o entusiasmar neste momento?
Não… é triste, mas de facto não há figuras muito inspiradoras neste momento, a nível internacional.

Como é que se aproximou do PS?
Foi pouco depois da faculdade, quando se fez a primeira coligação de esquerda em Lisboa. Jorge Sampaio foi também uma referência para mim.

Nasceu em Coimbra mas mudou-se para Torres Novas com três anos de idade e viveu na cidade até entrar na Faculdade. Que memórias guarda da sua infância e adolescência?
Muito boas memórias. Tive uma infância feliz, em liberdade, na rua, a brincar com os amigos, no Bairro das Tufeiras. Estudei violoncelo e pratiquei vários desportos. Mais a sério, fiz atletismo, triatlo, pólo aquático e natação.

A disciplina de um desporto de competição foi importante na formação da sua personalidade?
Foi. Pelo lado da disciplina, mas também porque me ensinou que, mesmo que nos esforcemos ao máximo, não ganhamos sempre. E que é tão importante saber celebrar as vitórias como superar as derrotas.

A natação é um desporto muito forte em Torres Novas, com vários campeões, tal como o triatlo, que nos deu uma medalha de bronze nos últimos Jogos Olímpicos. Pensa investir mais nestas modalidades, e nomeadamente nas piscinas, que tiveram algumas obras mas muito criticadas?
Sim, as piscinas precisam de uma outra intervenção e há a questão da torre de saltos, que não faz sentido ficar como está. Teremos de avaliar melhor as necessidades e ver o que será possível fazer.

Está nos seus planos investir mais neste tipo de equipamentos públicos, que contribuem também para a qualidade de vida e para a fixação de famílias?
Sim, sem dúvida. E Torres Novas tem bons equipamentos públicos, embora alguns estejam a precisar de manutenção, e outros talvez tenham de ver os seus objetivos repensados, como é o caso do chamado “palácio dos desportos”.

Faz algum desporto, hoje em dia?
Não com a regularidade que gostaria. Corro, de vez em quando. Vou tentar voltar a nadar. Agora que estou perto das piscinas, gostava de conseguir encaixar uma hora na minha agenda.

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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2 Comments

  1. Sendo o presidente vereador do pelouro da cultura, na entrevista nenhuma palavra sobre o tema. Torres Novas tem, nesse campo, uma longa tradução sociocultural, muito dela pouco cuidada. Na poesia, na pintura, na fotografia, na escultura, na literatura, na música, no teatro, na dança, existe um mundo muito esquecido e abandonado. Esperemos que seja um ponto de debate deste executivo camarário.

  2. Espero que continue com a sua equipa na senda do pai como símbolo de causas justas, e a quem as povoações muito devem e eu em particular na defesa de minha terra.
    Que sejam mais relembrados os anseios das suas gentes. Que a burocracia tenha os dias contados e não tenhamos de esperar um ou dois anos pelo licenciamento de uma modesta moradia enquadrada num povoado . Que tenhamos em igualdada em perspetiva séria ordenada o problema do saneamento onde exceção a Fungalvaz quase não existe.
    As aldeia estão a ganhar nova vida assim sejam acompanhadas nas suas estruturas, desejos e qualidade de vida. É para isso que também pagamos impostos em igualdade, nalguns casos mais.

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