Ribeira de Rio de Moinhos. Fotos: João Paulo Carvalho

Exma. Senhora Diretora do Jornal Médio Tejo,

Na sequência da carta anterior, que o seu prestigiado jornal teve a amabilidade de publicar, junto apresento sugestões para a requalificação do projeto da ribeira de Rio de Moinhos.

A ribeira de Rio de Moinhos é uma das pouquíssimas ribeiras do concelho de Abrantes que corre durante todo o ano. Não é expectável que, no futuro, surjam novos fluxos de água permanentes, nem no concelho, nem em lado nenhum. São um património natural em extinção, muito ameaçado, a par com toda a biodiversidade que garantem.

Só por isso, a nossa ribeira é um ativo importantíssimo que compete a todos – proprietários, cidadãos, Agência Portuguesa do Ambiente e Câmara Municipal de Abrantes – proteger.

Existem responsabilidades políticas da Câmara Municipal de Abrantes ao não ter promovido o debate público sobre o projeto. Algo completamente inesperado em 2023, em democracia, com uma vereação experiente e do Partido Socialista. Tal secretismo é até anacrónico, numa sociedade com elevada consciência ambiental, preocupada com a biodiversidade e onde o papel da água e da qualidade da água está permanentemente a ser sublimado.

Existem responsabilidade técnicas da Agência Portuguesa do Ambiente, ao não exigir e até evitar um estudo de impacte ambiental, e ao não ver a questão numa perspetiva holística. Isto é, não apenas as cheias, mas também, até porque muito mais relevantes, a seca, a ameaça à biodiversidade e o impacto negativo na pequena economia local.

Rio de Moinhos é totalmente resiliente em relação às cheias tradicionais, sejam as pequenas, provocadas pela nossa ribeira, sejam as enormes, quando o Tejo chega aos primeiros andares. Rio de Moinhos guarda até alguma memória desses momentos complicados, como os azulejos espalhados por toda a aldeia com representações dessas cheias, demonstram. Mas já está por demonstrar que resista a novos tipos de cheia, provocados artificialmente pelo alargamento e linearização da ribeira.

Em poucos dias, as máquinas podem destruir irreversivelmente o que a natureza demorou milhares de anos a criar e o que os nossos antepassados foram cuidando ao longo de séculos.

A prazo não distante, esta destruição inviabiliza a pequena economia local, que se baseia precisamente na beleza natural do vale, atraindo novos residentes e visitantes e assim dando emprego à restante população.

Note-se que a dinâmica do vale, com a introdução de fibra ótica, recuperação de casas e até com novas obras de conceituados artistas plásticos ia, até agora, neste sentido. Urge, por isso, repensar o projeto, debatendo com todas as partes interessadas o que deve continuar, o que deve ser evitado e o que deve ser acrescentado.

Obra de Bordalo II, em Rio de Moinhos

Primeiro que tudo, o projeto deve manter tudo o que ele tem de positivo para as populações: a reconstrução de pontões e a remoção e o controlo de canas, que constituem a parte mais significativa da obra.

O projeto deve ser expurgado de tudo o que nele é devastador para o meio ambiente, a paisagem e a biodiversidade:

  • O alargamento da ribeira.
  • A linearização e a mudança de leito da ribeira.
  • O abate de sobreiros e de árvores que sustêm as margens.
  • O revestimento artificial, designado no projeto como “engenharia natural”.
  • A introdução de pedra exótica.
  • A utilização de plásticos, designados no projeto como “geotêxtil”.

Seria benéfico adicionar ao projeto:

  • Soluções de retenção da água a montante, onde se inicia a intervenção, em vez da perigosa abertura da estrada para livre passagem da água.
  • O pontão da estrada municipal no local de entrada da ribeira do Vale das Mós, atualmente
    excluído do projeto, mas crítico por ser o que corresponde a uma bacia de acumulação maior, ter a passagem mais estreita e estar mais perto de casas.
  • Promover ainda maior diversidade, disponibilizando marmeleiros, vimeiros e outras espécies locais, para os proprietários colocarem em zonas mais críticas de contenção das margens da ribeira.

Este projeto, requalificado, tem todas as condições para ser um exemplo de que todos, proprietários, cidadãos, projetistas, Agência Portuguesa do Ambiente e Câmara Municipal de Abrantes, se irão orgulhar no futuro.

João Paulo Carvalho
Pucariça, Aldeia do Mato, Abrantes

Deixe um comentário

Leave a Reply