Foto: Unidad Militar de Emergencias

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Vivo em Abrantes há 41 anos e os incêndios florestais quase sempre ‘marcaram’ negativamente este concelho durante todos (ou quase todos) os verões passados. Só que apareciam… e dominavam-se em meia dúzia de horas. Porém, como é sabido, as ‘coisas’ foram mudando de ano para ano, quer nas estratégias e nos meios utilizados para o combate aos incêndios, quer na duração desses mesmos incêndios, quer numa série de aspectos que hoje não farão parte deste meu texto.

E não farão parte, única e exclusivamente por entender neste momento ser mais importante abordar outros aspectos da problemática do “porquê” de alguns motivos, ou causas, da ‘grandeza’ dos incêndios que têm ocorrido em 2017.

Antes de os abordar, quero referir que trabalhei mais de 40 anos como técnico florestal e a problemática dos incêndios foi sempre um tema que muito me preocupou durante todo esse período da minha actividade profissional, o que, por diversas ocasiões me ‘levou’ a opinar e a propor medidas de acção, quer com colegas de profissão, quer com diversas individualidades ligadas ao sector, tanto com técnicos e responsáveis da extinta Direcção Geral de Florestas (mais tarde Instituto Florestal), quer também com ministros e secretários de Estado da Agricultura de alguns governos com quem tive oportunidade de contactar e dialogar, quase sempre na qualidade de membro directivo de uma associação ligada ao sector florestal.

Este ano – o de 2017 – e reportando-me apenas à zona e concelhos limítrofes àquele onde resido (Abrantes) e apesar de termos tido um Inverno e Primavera com pouca pluviosidade para o que é considerado normal, a verdade é que o número de incêndios florestais, a ‘grandiosidade’ dos mesmos e o tempo em que demoraram (e continuam a demorar) a ser controlados, ultrapassou em muito as piores previsões que iam sendo apontadas. Além disso, as enormes áreas ardidas e a constante ameaça à segurança de pessoas, animais e bens em aldeias (e à própria cidade)… foi ‘coisa’ nunca antes vista!

Tenho lido e ouvido os mais ‘incriveis’ e variados argumentos que ‘alguns’ tentam justificar tudo aquilo a que temos vindo a assistir, mas, neste momento, ‘não vou por aí’. Não vou por aí, mas aproveito para aqui deixar registado um pouco daquilo que me vai na alma sobre o porquê de tanta ‘desgraça’ e tristeza que, sob este tema, nos está a acontecer:

1º Em primeiro lugar, continuo a não entender a razão pela qual os bombeiros deixaram de ter a missão de coordenar e comandar as acções de combate aos incêndios florestais, se são eles as pessoas que mais sabem do ‘assunto’… mas isso talvez me obrigasse a considerações que neste momento também não pretendo abordar. Todavia, a aparente descoordenação e insucesso que parece existir em 2017 no combate aos incêndios… pelo menos, dá que pensar, digo eu.  É, ou não é verdade?

2º Para mim, a questão principal para o que tem ocorrido, passa por referir o facto de há muito tempo que a maior parte da nossa floresta não ‘obedece’ às variadíssimas disposições que as Leis existentes sobre a floresta exigem e obrigam, nomeadamente no que concerne às limpezas do sub-bosque, de extremas, de aceiros e de estradas florestais, sendo a falta de fiscalização uma das principais razões para que isso hoje aconteça.

A constante degradação no número de técnicos e de meios do que resta da antiga Direcção-Geral de Florestas (mais tarde Instituto Florestal) e o fim dos guardas florestais (uma classe profissional que controlava e fiscalizava as acções sujeitas ao cumprimento das boas regras definidas na legislação, além de muitas outras actividades importantes) são uma das causas do não cumprimento da legislação. É que, quando ninguém fiscaliza…

3º Uma outra realidade a registar é que, não havendo fiscalização por parte de quem em nossa opinião competiria fazê-lo, também nada, ou quase nada existe – nem de fiscalização, nem de actuação dentro do que está estabelecido na legislação – por parte das autarquias locais (Juntas de Freguesia e Câmaras Municipais) naquilo que lhes compete, sobretudo na actuação prevista pela Lei em relação aos terrenos ‘infestados’ de ervas e de matos que ‘rodeiam’ os prédios existentes dentro das zonas urbanas.

E quem quiser verificar este ‘incumprimento’ autárquico, basta dar uma volta pela sua cidade, ou freguesia e, com alguma facilidade verificará a realidade do que acabei de mencionar. Tão simples como isso!

Nota: Gostaria que este meu pequeno texto chegasse ao conhecimento dos autarcas do meu concelho, ficando à inteira disposição dos mesmos para qualquer dúvida ou esclarecimento sobre este tema. Se algum amigo meu tiver essa oportunidade e quiser fazê-lo, eu, na qualidade de munícipe e cidadão atento e preocupado… agradeço!

20 de agosto de 2017
Carlos Loureiro
Abrantes

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