Três meses após tempestade Kristin, falhas nas telecomunicações continuam a afetar Médio Tejo. Foto: DR

Nos concelhos de Mação, Tomar e Ferreira do Zêzere, alguns dos concelhos mais afetados pela tempestade de 28 de janeiro, o cenário ainda é marcado por fragilidades nas comunicações, com impactos diretos no quotidiano das populações e no funcionamento de serviços essenciais.

Em Ferreira do Zêzere, um dos territórios mais afetados pelo mau tempo que atingiu a região Centro a afetou gravemente vários municípios do Médio Tejo, a situação está longe de normalizada.

“A minha sensação é que temos mais de metade do nosso território com problemas por resolver a esse nível, com muitas pessoas que ainda não conseguem comunicar devidamente”, afirmou o presidente da Câmara, Bruno Gomes.

Segundo o autarca, persistem falhas quer na rede fixa, quer nas comunicações móveis, com dificuldades no acesso à internet e limitações no uso de dados móveis em várias zonas do concelho.

“Temos as várias operadoras com rede sempre com falhas, com pouca capacidade de aceder a dados móveis em muitos locais. Há muita fragilidade ainda nas redes e isso condiciona muito o normal dia a dia da nossa comunidade”, sublinhou.

Além das dificuldades técnicas, Bruno Gomes aponta também para a falta de meios no terreno para acelerar a reposição das infraestruturas.

“Vamos vendo operacionais a trabalhar, mas não têm um número suficiente. Esperava já outra robustez na capacidade de trabalho”, referiu, considerando improvável que os prazos apontados até final de abril para a normalização venham a ser cumpridos.

O autarca alerta ainda para o impacto desta situação num território do interior que já enfrenta desafios estruturais.

“O interior precisa de uma atenção maior. Precisamos de comunicações para sermos minimamente competitivos e para garantir qualidade de vida às populações”, frisou.

Também em Mação, os problemas mantêm-se generalizados e, em alguns casos, considerados graves, três meses após a tempestade.

“É vergonhoso aquilo que se está a passar no concelho de Mação. Temos montes de postes caídos, fios pelo chão e locais ainda sem comunicações”, afirmou o presidente da Câmara, José Fernando Martins.

O autarca denuncia falta de resposta por parte das operadoras e ausência de interlocutores no terreno.

“Não temos ninguém que dê a cara, não nos respondem, não fazem nada relativamente às nossas solicitações”, criticou.

Segundo José Fernando Martins, há freguesias particularmente afetadas, como Cardigos e Carvoeiro, onde persistem falhas significativas nas redes.

“Temos ainda locais sem comunicações, a própria Proteção Civil e os Bombeiros tiveram problemas com o telefone fixo. Não fossem as comunicações móveis e estaríamos numa situação de isolamento”, alertou.

Mesmo nas zonas onde os serviços já foram parcialmente repostos, a qualidade está aquém do esperado.

“Nota-se perfeitamente que as redes estão muito mais fracas, não permitem fazer determinadas operações. É dramático ainda aquilo que se vive aqui”, acrescentou.

O autarca fala mesmo em “abandono total” de algumas infraestruturas, apontando exemplos visíveis no terreno.

“Quem fizer o percurso da A23 para Mação vê postes partidos, tombados, que nunca ninguém olhou para aquilo”, referiu.

No concelho de Tomar, a situação apresenta algumas melhorias, mas continua longe de resolvida, com assimetrias significativas entre freguesias.

“Tem sido um trabalho muito lento das operadoras, mas as equipas estão no terreno e já há uma taxa de cobertura superior a 80% ou 85% em algumas zonas”, explicou Jorge Graça, presidente da União de Freguesias de Além da Ribeira e Pedreira.

Apesar dessa evolução, persistem muitos casos por resolver. “Há ainda muitos casos isolados, muitas situações específicas que estão por resolver”, afirmou.

Segundo o autarca, existem freguesias com maiores dificuldades, onde a recuperação tem sido mais lenta.

“Há problemas mais complicados, nomeadamente em Olalhas, Casais ou Alviobeira. Olalhas está com uma taxa de cobertura muito abaixo da nossa”, indicou.

Além das falhas nas telecomunicações, continuam a existir riscos associados a infraestruturas danificadas.

“Temos alguns postes que nos preocupam, que estão em perigo de cair para a via pública. E os cabos muitas vezes ficam baixos, voltam a ser cortados por viaturas e andamos nisto”, explicou.

Jorge Graça sublinha ainda que o processo de recuperação não se limita às telecomunicações, apontando atrasos significativos nos apoios à população e às instituições.

“Até ao momento, não recebemos qualquer tipo de apoio. Há associações que não têm qualquer linha de apoio e estão a suportar os prejuízos sozinhas”, afirmou.

O autarca refere que há ainda habitações por recuperar e famílias afetadas pela tempestade.

“Temos pessoas com casas danificadas e até famílias desalojadas. É uma situação que vai demorar meses ou até anos a ultrapassar, a este ritmo”, alertou.

A lentidão na resposta preocupa também face à aproximação da época de incêndios.

“Temos uma grande quantidade de material florestal no chão, o que aumenta o risco. Estamos a trabalhar com os meios que temos, mas estamos praticamente sozinhos”, disse.

A tempestade Kristin integrou um conjunto de depressões que atingiram Portugal entre janeiro e fevereiro, provocando milhares de ocorrências, destruição de infraestruturas, cortes de energia e comunicações, inundações e prejuízos avultados.

No total, pelo menos 19 pessoas morreram em Portugal na sequência destes episódios de mau tempo, que afetaram sobretudo as regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.

Três meses depois, no Médio Tejo, autarcas e populações continuam a aguardar uma normalização plena das telecomunicações, num processo que consideram demasiado lento face à dimensão dos impactos registados.

c/Lusa

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