Tramagal entre tradição associativa e desafio de captar novas gerações. Foto: SUC

O Tramagal continua a afirmar-se como uma freguesia associativa, mas enfrenta uma transformação profunda marcada pelo envelhecimento populacional, pela mudança de hábitos sociais e pela dificuldade crescente em mobilizar os jovens para o dirigismo associativo.

Durante décadas, o Tramagal construiu a sua identidade coletiva em torno do associativismo. Das coletividades culturais aos clubes desportivos, das associações recreativas às iniciativas juvenis, a freguesia consolidou-se como um território de forte participação comunitária, onde a vida social se organizava em torno das associações.

Hoje, esse retrato mantém-se, mas com contornos distintos. A pergunta que atravessa a freguesia é simples, mas decisiva: onde estão os jovens do Tramagal e que papel ocupam na vida associativa?

Onde andam os jovens do Tramagal? Um retrato da dinâmica associativa atual

O associativismo continua a marcar profundamente a identidade do Tramagal, mas as mudanças demográficas, o afastamento dos jovens e os novos estilos de vida estão a transformar o funcionamento das associações e a levantar dúvidas sobre o futuro de algumas coletividades.

Para o presidente da Junta de Freguesia de Tramagal, António José Carvalho, a resposta começa por um diagnóstico claro: o associativismo continua vivo, mas mudou profundamente.

“Tramagal continua a ser uma terra de associações e associativa”, afirma, sublinhando, no entanto, que se vive “um novo tempo complicado para as associações”, resultado de mudanças sociais e demográficas profundas.

António José Carvalho, presidente JF Tramagal. Foto: mediotejo.net

Entre os fatores apontados estão o envelhecimento da população, a diminuição do número de jovens e a alteração dos estilos de vida. “Há aqui uma mudança social, sociológica, que também tem a ver com o envelhecimento da população e com a mudança do estilo de vida das pessoas”, refere.

Se antes as associações eram pontos centrais de convívio – com bailes, cinemas e atividades regulares – hoje esse papel foi parcialmente substituído por outras formas de entretenimento e socialização. “Hoje há internet, hoje as pessoas já não vão para a associação ver televisão a cores”, exemplifica.

Ainda assim, o autarca sublinha que o associativismo não desapareceu, apenas se adaptou. “Tem que haver adaptação aos tempos”, resume.

Entre tradição e renovação

A freguesia mantém atualmente cerca de duas dezenas de associações ativas, com níveis distintos de dinamismo. Algumas mantêm forte atividade cultural e recreativa, outras enfrentam maiores dificuldades de mobilização.

Entre os exemplos de vitalidade, o presidente da Junta destaca a Sociedade União Crucifixense e o Tramagal Sport União, este último com forte impacto na juventude através do desporto.

“Temos associações que continuam muito ativas e a cativar os seus sócios e a comunidade”, refere.

Rui Horta (à esquerda) assumiu em 2021 a liderança da Associação Juvenil Cistus. Hoje a associação está praticamente inativa. Foto arquivo: mediotejo.net

Mas há também sinais de fragilidade. A Associação Cistus, estrutura de natureza juvenil, encontra-se atualmente sem atividade e em crise diretiva, não tendo o seu presidente, Rui Horta, prestado declarações para esta reportagem.

A juventude entre presença e ausência

O lugar dos jovens no associativismo do Tramagal revela um quadro paradoxal: há juventude, mas o envolvimento não é homogéneo nem constante.

No desporto, por exemplo, o centenário Tramagal Sport União, fundado a 1 de maio de 1922, regista cerca de 150 jovens atletas em atividade regular.

Para o presidente João Serafim, o clube funciona como “um espaço de aprendizagem de valores, construção de identidade e participação cívica”.

Ainda assim, reconhece uma realidade distinta fora do campo: “De forma geral, o interesse dos jovens em assumir responsabilidades associativas é reduzido. Muitos participam essencialmente pela vertente desportiva”.

No entanto, o clube procura inverter essa tendência, promovendo o envolvimento gradual dos jovens na organização interna, como forma de garantir continuidade e espírito associativo.

A cultura entre a tradição e a reinvenção

Na Sociedade União Crucifixense (SUC), o cenário é mais equilibrado. Com uma equipa de 18 elementos, dez dos quais jovens, a associação apresenta um modelo intergeracional que mistura experiência e renovação.

“Começamos a ligar-nos ao associativismo ainda jovens”, explica Bruno Curado, presidente da anterior direcção, agora em comissão administrativa, lembrando a participação em atividades como teatro, marchas e festividades locais.

A associação promove atividades culturais e recreativas regulares, desde bailes e festivais gastronómicos a torneios e caminhadas. “As iniciativas destinam-se a toda a comunidade, com foco especial nos sócios”, refere.

Apesar do dinamismo, persistem dificuldades. “Não existe muita aderência da parte dos jovens”, admite Bruno Curado, sublinhando a dificuldade em mobilizar voluntários para apoiar eventos e estruturas organizativas.

Ainda assim, o futuro é encarado com optimismo, embora moderado. “Vemos o futuro da associação de forma positiva, com vontade de continuar a crescer e a desenvolver atividades úteis para a comunidade, e esperemos que venha uma nova direcção porque é importante a renovação e não nos eternizarmos nas direções”.

O desafio da continuidade e da renovação

A Associação de Melhoramentos da Freguesia do Tramagal representa hoje uma das expressões da liderança jovem no associativismo local. Com uma presidente de 28 anos, Mónica Ferreira reconhece o desafio da mobilização.

“Tem sido um pouco complicado manter os jovens ativos. Não há muita aderência da parte deles”, admite.

A associação mantém atividades tradicionais como noites de fados, festas e eventos comunitários, procurando abranger diferentes faixas etárias. Ainda assim, a dificuldade em encontrar voluntários é um problema recorrente.

“Um dos principais desafios é conseguir manter uma dinâmica regular ao longo do ano e conciliar ideias, recursos e disponibilidade”, explica.

Para a dirigente, o associativismo continua a ser uma experiência de vida. “Isto é uma experiência muito boa e acho que toda a gente deveria experimentar um dia fazer associativismo”.

SAT: entre a memória e a reinvenção cultural

A Sociedade Artística Tramagalense (SAT), com mais de um século de história, representa o desafio mais profundo da atual dinâmica associativa: a necessidade de reinventar uma instituição centenária sem perder a sua identidade.

O presidente Bruno Grácio, de 31 anos, reconhece a tensão entre tradição e renovação. “A sociedade foi feita para um conceito que hoje não é viável nos mesmos moldes”, afirma, sublinhando que a instituição precisa de se adaptar a novas gerações e novas formas de consumo cultural.

Com uma direção que mescla juventude e experiência numa estrutura pesada, a SAT enfrenta custos elevados e desafios de sustentabilidade. “Pessoas, dinheiro e vontade. Às vezes pode não haver dinheiro, mas com pessoas e vontade as coisas fazem-se”, resume.

A estratégia passa por captar novos públicos, incluindo crianças e jovens, e diversificar a programação cultural. “Em vez das pessoas virem ter connosco, nós vamos ter que ir com as pessoas”, afirma.

O objetivo é claro: renovar públicos sem perder a essência cultural e social da instituição.

“O papel da cultura vai muito além do entretenimento. A cultura é educação, é identidade e é uma forma de intervenção direta na sociedade. Quando promovemos diferentes expressões artísticas, estamos também a formar pessoas mais conscientes, mais críticas e mais ligadas à sua comunidade”, afirmou.

Escutismo: uma escola de cidadania em adaptação

O Agrupamento 273 do Corpo Nacional de Escutas (CNE) de Tramagal representa outro exemplo de continuidade do trabalho com os jovens na freguesia.

Fundado a 1 de maio de 1968, o agrupamento conta atualmente com cerca de 50 elementos, incluindo 12 dirigentes adultos e cerca de 38 jovens distribuídos pelas quatro secções do movimento: lobitos, exploradores, pioneiros e caminheiros.

Para Pedro Rodrigues, chefe do agrupamento, o escutismo continua a conseguir captar jovens, sobretudo nas idades mais baixas. “Temos sempre uma franja de jovens que aparece e depois traz o amigo. Andam na escola e depois vão para o escutismo”, explica.

Ainda assim, admite que a permanência dos jovens se torna mais difícil a partir dos 18 anos, quando muitos seguem estudos superiores fora da freguesia. “Quando vão para as universidades já há mais dificuldade em eles ficarem nos agrupamentos”, refere.

Padre Adelino Cardoso, pároco na freguesia de Tramagal, na cerimónia dos 50 anos dos escuteiros de Tramagal. Foto arquivo: Décio Dias

O dirigente reconhece também mudanças nos hábitos juvenis e maior concorrência de outras atividades, como o futebol, mas considera que o escutismo continua a desempenhar um papel importante na formação cívica. “O escutismo é sempre uma escola de cidadania e de aprendizagem”, afirma.

Ao mesmo tempo, o agrupamento procura adaptar-se às novas realidades e tecnologias. “Os tempos vão mudando”, admite Pedro Rodrigues, explicando que algumas atividades já recorrem a telemóveis, coordenadas GPS e iniciativas ligadas à internet e ao radioscoutismo. “Não proibimos as novas tecnologias, mas há regras”, sublinha.

Apesar da estabilidade do agrupamento, a renovação de dirigentes surge como uma preocupação crescente.

“Os que chegam ali aos 22 anos não querem fazer a formação dos escuteiros, porque isto é um compromisso grande e ocupa muitos fins de semana”, explica.

Segundo o responsável, esta dificuldade não é exclusiva do Tramagal, refletindo uma tendência mais ampla no movimento escutista e no próprio associativismo.

Uma leitura sociológica do presente

Para o presidente da Junta de Freguesia, António José Carvalho, a situação atual não pode ser analisada sem enquadramento demográfico e social.

Há menos população jovem, menos nascimentos e uma mudança estrutural na forma como se vive a comunidade. “Há aqui um processo de transformação profundo”, explica.

Ainda assim, o associativismo não desapareceu – transformou-se. Eventos pontuais organizados por jovens, como festas estudantis recentes, mostram que existe espírito associativo, embora menos ligado ao dirigismo tradicional.

António José Carvalho, presidente JF Tramagal. Foto: JFT

“O dirigismo é mais difícil”, reconhece, apontando a burocracia, os encargos financeiros e a complexidade administrativa como fatores que afastam novas gerações.

Entre adaptação e futuro

Apesar das dificuldades, o diagnóstico não é de ruptura, mas de transição. A freguesia continua a ter associativismo ativo, embora com ritmos e formas diferentes.

Há associações rejuvenescidas, outras em risco de envelhecimento estrutural, e outras ainda em fase de redefinição. “Temos que ir lidando com estas mudanças”, sintetiza o autarca.

O Tramagal continua a ser uma freguesia profundamente marcada pelo associativismo, mas o seu futuro depende da capacidade de adaptação das suas instituições e da vontade das novas gerações em assumir responsabilidades.

Entre tradição e modernidade, entre memória e reinvenção, o associativismo local escreve-se hoje num equilíbrio instável e a pergunta mantém-se em aberto: estará o Tramagal a conseguir passar o testemunho associativo às novas gerações?

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

Estudante de Comunicação Social. Desde muito nova percebeu que gosta de comunicar, ouvir e conversar com o outro. É fascinada por conhecer histórias de vida e acompanhar de perto novos projetos.

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