Na oficina de carpintaria de César Grácio, em Tramagal. Créditos: mediotejo.net

Placas de madeira em contraplacado, lixas, elétricas e manuais, serras, limas ou grosas e vassouras aguardam o momento das mãos as procurarem para engrossarem a serradura que cobre o chão da oficina de César Grácio. Aquele é um espaço para um trabalho de mãos, que obriga a muita minúcia, detalhe e paciência. Um modelo pode levar um mês a elaborar. Mas também exige saber fazer contas e interpretar desenhos técnicos para que a peça resulte na perfeição.

César Grácio completa 76 anos no dia 11 de janeiro de 2023 e toda a sua vida trabalhou como carpinteiro de moldes para fundição. Durante mais de quatro décadas, exatamente dos 13 aos 57, trabalhou na Metalúrgica Duarte Ferreira, em Tramagal, idade em que se reformou, na oportunidade aberta por uma lei que permitia a reforma antecipada a quem tivesse mais de 40 anos de descontos para a Segurança Social.

“Mesmo assim, porque faltavam oito anos para a idade de reforma, que era aos 65, fui penalizado, por quatro anos, em 4,5% por cada ano”, lamenta.

Na oficina de carpintaria de César Grácio, em Tramagal. Créditos: mediotejo.net

Era o chefe da carpintaria quando pediu a reforma, por “trabalhar de dia e de noite” – na fábrica e na sua pequena oficina em parceria com um colega, que já terminou a atividade no final de 2021. Na realidade, César chegou a trabalhar em três locais no mesmo dia; depois da fábrica, ia trabalhar para a casa do senhor António Martins Pinheiro a que se seguia a casa do senhor Manuel Fernandes.

Por vezes saía da oficina às duas da madrugada e às 6h00 já lá estava para duas horas de corte e polimento antes da Metalúrgica. “Se o muito trabalho significasse riqueza…”, por certo estaria rico, observa. Independentemente disso, agradece a fortuna de ter uns vizinhos que “nunca fizeram um reparo” por conta do barulho a que o trabalho obrigava na oficina, mesmo fora de horas de expediente.

Afirma ter tido “bons mestres”, desde os 15 anos – durante dois cumpriu a função de paquete na MDF, entregando papeis e documentos onde era necessário -, mas considera ter ido “muito cedo” para a função de chefia, tinha 34 anos, e trabalhavam naquela secção cerca de 30 operários.

“Não queria mas as circunstâncias obrigaram-me a isso. Naquela época era preparador de trabalho ligado aos modelos. Vinham os desenhos mas às vezes não traziam tudo. O chefe, que não percebia muito daquele trabalho, dizia que inventávamos. Não tínhamos medo de arriscar mas às vezes, mesmo com muita experiência, emendávamos as peças”, recorda, insistindo ser “muito novo”, por isso não quis candidatar-se mas o chefe “obrigou-o” a meter a proposta para a ocupar a função.

“Era um concurso que não era um concurso, já sabia que ia ser escolhido”, completa.

Em Tramagal “quase toda a gente” iniciava a trabalhar na Metalúrgica Duarte Ferreira. “Só meia dúzia deles tinham possibilidade de ir estudar para Abrantes. Passado uns anos é que começaram a trabalhar na CP. Foram muitos! Nunca tive essa ideia… para já a CP não tinha moldes”, nota.

Mas ainda equacionou ir trabalhar na Associação Portuguesa de Fundição, no Porto, no entanto, o amor pela terra falou mais alto e “nunca quis sair de Tramagal”.

Na oficina de carpintaria de César Grácio, em Tramagal. Créditos: mediotejo.net

Refere que, neste momento as fábricas na única vila do concelho de Abrantes “empregam mais gente” do que era o número de pessoas a quem a Metalúrgica Duarte Ferreira dava trabalho, mas “morar no Tramagal… poucos. Praticamente todos os trabalhadores quer da Mitsubishi ou da Frutimetal, vêm de fora. Tramagal tem hoje muito menos gente do que tinha em 1940. Se fosse como antigamente, se todas as pessoas que trabalham nestas empresas morassem no Tramagal, era uma vila com muito movimento, assim não… Havia de tudo e agora tem estado tudo a fechar”, lamenta, enumerando os vários serviços existentes na altura, pertencentes à família Duarte Ferreira, como o edifício dos Correios, a Cooperativa, onde os trabalhadores se abasteciam de alimentos, o campo de futebol, e até um bairro residencial para os operários.

Os trabalhadores “de Rio de Moinhos, de Pucariça” e da outra margem, “tinham barcos para passar o Tejo. E era difícil porque o rio não era como é agora!”, salienta. “No inverno já sabiam como era. Tinham de fazer uma volta muito grande para depois a corrente os empurrar para o sítio que eles queriam”, lembrou.

Conta que para entrar na Metalúrgica os candidatos realizavam um exame de admissão. César, que havia estudado até à quarta classe, ficou em terceiro lugar. “Normalmente o primeiro e o segundo iam para o escritório principal, para a profissão de escriturário”, notou.

Aos 14 anos decidiu continuar os estudos em regime pós-laboral, na cidade de Abrantes, tendo estudado até ao oitavo ano, quando se viu obrigado a cumprir o serviço militar. “Não me autorizaram acabar o 9º ano”, conta. Mais tarde concluiu o 11º ano. O ano seguinte não teve conclusão por causa da “confusão instalada” no ensino após o 25 de Abril. Além disso, confessou nunca ter gostado de estudar.

Na oficina de carpintaria de César Grácio, em Tramagal. Créditos: mediotejo.net

Conquistado o terceiro lugar, pediu para trabalhar na carpintaria. Apesar de não ter carpinteiros na família, a função de paquete havia-lhe mostrado a profissão sempre que ia entregar papeis naquela oficina e “gostei”, embora fosse “muito exigente. Era ao milímetro. Agora há máquinas que fazem tudo nas peças, mas naquela altura as peças tinham de sair da fundição praticamente na medida, fosse em ferro fundido, aço vazado ou aço manganês”. Lembra que os fornos trabalhavam a carvão para aquecer os metais e que atualmente é tudo elétrico. “Não tem nada a ver”, assegura.

César foi tropa no Ultramar, especificamente em Malange (Angola) onde cumpriu o serviço militar como Operador de Informação, ou seja, “através de Código Morse escutava as transmissões do inimigo. O quartel general dava-nos a frequência que devíamos escutar. Estive 24 meses em Malange mas nunca fui para o mato nem sequer tive arma, a minha arma era o rádio. Era uma coisa bonita!”, considera, dizendo que ainda se lembra como se interpreta Código Morse, tendo recordado mensagens dos cubanos em Angola onde tinha de interpretar 120 letras por minuto.

Regressado a Portugal, as suas mãos conheciam e conhecem de cor a madeira, as formas das peças que servem de molde para outras peças geradas em fundição, as curvas, as linhas retas, os truques para que tudo bata certo e os olhos conhecem os desenhos que explicam as medidas e os formatos dos modelos. Sabe interpretar os desenhos e transferi-los para a madeira. Sabe também a importância de alargar as medidas, uma espécie de acrescento, para que tudo corra bem quando o metal é vazado no molde.

“Conforme vai arrefecendo vai encolhendo”, portanto, conclui, apontando para um desenho, “estes 1473 previsivelmente irá para os 1430”, calculou, tendo em conta também o material, no caso aço manganês com um coeficiente de retração mais elevado, diferente do ferro fundido, por exemplo, explica.

Na oficina de carpintaria de César Grácio, em Tramagal. Créditos: mediotejo.net

“Oitenta por cento das peças que fiz desde que saí da Metalúrgica Duarte Ferreira foi para uma empresa espanhola, a Metalaser, até final de 2019. Com a pandemia, as peças passaram a ser feitas na Fundição do Rossio, que continua a funcionar, com pouca gente. Os espanhóis nunca me falharam, pagaram sempre na hora… ao contrário de alguns”, critica, sublinhando que atualmente o trabalho complicou muito por conta do aumento do preço das matérias primas, especificamente a madeira que, notou, aumentou cerca de 50%.

Além da madeira, para este tipo de trabalho César utiliza pregos, parafusos, cola e betume. Retirando-se da atividade, em Tramagal resta um único carpinteiro de modelos para fundição. Esta profissão, tal como César Grácio a pratica “está em vias de extinção”.

Embora reconheça a existência de máquinas que executam muito do trabalho realizado pelas mãos do carpinteiro, também reconhece que o modelo em que trabalhava aquando da nossa visita – uma maxila cónica fixa, molde já replicado uma centena de vezes na sua oficina – “não é fácil” para uma máquina, sendo certo que “a pessoa que trabalha com as máquinas tem de ter conhecimentos.

“Há a máquina mas a pessoa tem sempre de lá estar. Provavelmente noutras funções que não obrigam a tantos conhecimentos de interpretação do desenho” e exige outro tipo de madeira, recusando aquela que trabalhada à mão comporta um menor custo, explica.

Na oficina de carpintaria de César Grácio, em Tramagal. Créditos: mediotejo.net

Ao mostrar-nos um desenho de uma maxila cónica móvel, a aguardar um novo trabalho, César refere que dá razão ao proverbio português ‘em casa de ferreiro espeto de pau’, porque apesar de ter trabalhado em mais de uma centena de peças, “nunca vi nenhuma a funcionar numa pedreira”, ri.

As placas de madeira em camadas e em diversas espessuras, ou seja, o contraplacado, “veio revolucionar o trabalho dos moldes. Antes quase que era ir cortar o pinheiro e fazer as tábuas”. No inicio da sua atividade como carpinteiro trabalhava “com madeiras maciças, que tinham de ser cortadas de outra forma, não havia máquinas para trabalhar e isto veio facilitar muito a nossa vida. Mais tarde, as máquinas lixadeiras de rolo e de prato, embora as serras já existissem”.

César como carpinteiro, logo especialista em trabalhos com madeira, mesmo em estado bruto ou maciço, assume que fazer modelos é o seu trabalho preferido. Outra função, como criar peças para uso em construções, desde móveis a artigos para construção civil, não faz nem gosta, exceto “um biscate” ou outro a pedido de um amigo.

Na oficina de carpintaria de César Grácio, em Tramagal. Créditos: mediotejo.net

Em jeito de balanço de uma vida garante ter gostado da profissão de carpinteiro. Com as mãos na madeira conseguiu que as duas filhas estudassem no ensino superior – uma é professora de inglês/português e outra é farmacêutica.

E depois, pelo meio, sempre há uns episódios caricatos. Recorda a história de uma senhora confeiteira especialista em broas dos Santos que chegou certo dia à sua oficina pedindo-lhe que lhe fizesse um molde, uma espécie de caixa que abria ao meio com uns fechos nas pontas.

“A preocupação da senhora: não queria que o modelo passasse para outra gente. Disse-lhe que lhe fazia o modelo mas depois era com o individuo da fundição. Aquele que fez as peças à senhora deu-lhe o molde que tinha feito mas já tinha tirado o molde para ele. A senhora que prometeu vir a Tramagal levar uma receita de broas e outra de tigeladas, nunca veio e a senhora entretanto faleceu. Penso que não veio porque ficou a saber que tinham sido vendidas 150 peças daquelas… mas eu não tive nada a ver com isso”, assegura.

Na reta final a caminho de 2023, no fim de dezembro encerra a atividade porque os joelhos já não permitem que permaneça muitas horas em pé como permitiam antigamente, e o trabalho de carpinteiro “é todo feito em pé”, nota.

Mas a vida de César não se resume a construir ou remodelar peças em madeira, gosta do associativismo e particularmente de futebol. Cumpriu a função de tesoureiro no Tramagal Sport União (TSU) durante 17 anos e continua a pertencer aos corpos dirigentes. Na oficina encontramos exposto numa parede o molde feito por si para a placa em bronze aplicada no edifício aquando da inauguração da sede da coletividade.

Equipa de Juniores do TSU 1963/1964, disputou os quartos de final do Campeonato Nacional de Juniores com o Sporting Clube de Portugal. Créditos: mediotejo.net

No TSU, jogou dois anos nos juniores, quando tinha 18 anos, “no primeiro ano fomos quase à final nacional, fomos às meias finais, jogámos com o Sporting, no tempo do Pedras. Cá perdemos seis/zero e lá perdemos dez/dois. Mas valeu pela experiência. O futebol foi uma escola, o treinador, o senhor Vieirinha, era bom”. César aparece na foto com o apelido de Dinis. E ainda jogou no Sporting de Malange – apesar de ser benfiquista.

Há alguns anos, especialistas em recrutamento e gestão de carreiras vaticinavam que, em 2020, toda a gente – independentemente da sua profissão – teria de saber programar. Tal não aconteceu e, pelo menos em Portugal, estamos longe dessa meta. Contudo havia outra certeza: as profissões tradicionais, julgadas em desuso, iam voltar a crescer, como é o caso da carpintaria. Convicções à parte, certo é que César Grácio, um dos últimos carpinteiros de moldes de Tramagal (Abrantes), vai encerrar a sua atividade no final deste ano 2022, e não tem aprendizes, embora encomendas continuem a aparecer.

Quando o visitámos construía um modelo para uma maxila cónica fixa que ia custar ao cliente mais de dois mil euros. Brevemente, em pleno gozo da reforma, faz planos para se entreter a cortar a erva do quintal. Contudo, idas à horta é demasiado tarde, nunca cultivou por conta da carpintaria e agora não o vai fazer porque “os joelhos não deixam”. Aliás, foram os joelhos que o convenceram a abandonar a profissão que abraçou durante toda a vida.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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