Tramagal cumpre tradição do 1º de Maio com os olhos postos no futuro. Foto: mediotejo.net

O presidente da da Junta de Freguesia de Tramagal, António José Carvalho, e restante executivo, a par dos vereadores da Câmara Municipal de Abrantes, Raquel Olhicas e Luís Dias, presidiram no 1 de maio às várias celebrações que decorreram na vila, acompanhados por Rui Antunes, presidente da Assembleia de Freguesia de Tramagal, Maria e Francisco Duarte Ferreira, bisnetos do fundador da MDF, Nuno Oliveira, chefe do Agrupamento de Escuteiros de Tramagal, João Serafim, presidente da direção do TSU, dirigentes associativos, eleitos e demais entidades convidadas e populares, que juntaram-se para cumprir a tradição e prestar homenagem ao Comendador Eduardo Duarte Ferreira, no Miradouro da Penha, local onde foi edificado um monumento em sua memória.

VIDEO/HINO DO 1º DE MAIO:

O dia foi muito preenchido, tendo incluído a homenagem ao fundador da MDF, na entrada de Tramagal, às 9h00, com musica e o hino do 1º de maio, largada de pombos e os discursos oficiais, prosseguindo nas ruas da vila com uma caminhada e provas de atletismo. O almoço foi dedicado ao TSU, na coletividade SUC, em Crucifixo, tendo a tarde prosseguido com um encontro interconcelhio de escalões de formação.

António José Carvalho foi o primeiro a usar da palavra na sessão comemorativa, tendo destacado “a figura maior” da história de Tramagal e apontado ao futuro e a um caminho com novos voos. Em declarações ao mediotejo.net, já no almoço do TSU, o autarca destacou a importância de celebrar a história mantendo os olhos postos no futuro da população e no desenvolvimento da freguesia.

Presente na cerimónia, em representação da família Duarte Ferreira, estiveram os bisnetos do Comendador, Francisco e Maria, cabendo a Maria Duarte Ferreira usar da palavra, tendo lembrado uma ligação umbilixal ao Tramagal, que se mantém com as cerimónias do 1º de Maio mas também com um prémio instituído com o Centro Escolar, tendo lido um poema da autoria de sua mãe, Maria Helena Duarte Ferreira, que, enquanto viveu no Tramagal, e mesmo mais tarde, dedicou muito do seu tempo a causas sociais.

O presidente da Câmara de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, por sua vez, expressou a gratidão pelo legado deixado por Eduardo Duarte Ferreira, nome maior da vila operária, e que marcou de forma indelével esta comunidade, tendo destacado a preocupação permanente com as questões sociais dos seus trabalhadores e com as suas condições laborais.

Em declarações ao mediotejo.net, já no almoço comemorativo do 103º aniversário do TSU, o autarca, que nasceu em Tramagal, lembrou as dinâmicas da freguesia no 1º de Maio, num dia marcado pela tradição, identidade, cultura, desporto e união, tendo apontado ainda a um futuro que acredita ser de desenvolvimento económico e social e de uma renovada afirmação da freguesia.

Manuel Jorge Valamatos, presidente CM Abrantes

No dia 1 de maio de 1974, Abrantes acolheu a maior manifestação de que há memória, com muitos populares de Tramagal e do concelho a festejarem a conquista da liberdade e da democracia. Em Tramagal, mesmo em alguns anos pós 25 de abril em que não havia festejos organizados, uma coroa de flores aparecia sempre junto ao busto do fundador da MDF, lembrando a história e a ligação entre patrão e trabalhadores.

O programa foi vasto e arrancou às 9:00 com uma largada de pombos pelo Grupo Columbófilo de Tramagal e a tradicional homenagem a Eduardo Duarte Ferreira, fundador da MDF, no miradouro da Penha, momento abrilhantado pela Sociedade Filarmónica de Educação e Beneficência Riomoinhense, que seguiu em arruada até ao Largo dos Combatentes da Grande Guerra e ao largo da Junta de Freguesia, onde decorriam atividades desportivas de atletismo integradas na festa do 1º de Maio.

No Largo dos Combatentes, depois da entrega dos prémios da prova de atletismo e caminhada 10 km, organizada pela Junta de Freguesia, e que este ano juntou cerca de 350 participantes, seguiu-se um almoço comemorativo do aniversário do TSU, na Sociedade união Crufixense (SUC) e uma tarde desportiva no Campo de Jogos Comendador Eduardo Duarte Ferreira, com o torneio interconcelhio de escolinhas.

No discurso do 103º aniversário do TSU, na presença de perto de uma centena de associados, João Serafim, presidente da direção do clube fundado a 1 de maio de 1922, e que ostenta uma borboleta como símbolo, falou da importância social do clube na promoção da atividade desportiva junto dos mais jovens e apelou à união de todos no apoio ao crescimento e sustentabilidade do clube, dando conta que o TSU “será sempre aquilo que os sócios e os tramagalenses quiser” que seja.

Em declarações ao mediotejo.net, o dirigente, que está a concluir o terceiro mandato (seis anos) à frente do TSU, lembrou o crescimento sustentado do clube, com mais jovens a praticar desporto, melhores infra-estruturas, e um aumento do número de sócios, que passou de 600, em 2022, para 900, em 2025. João Serafim, que deixou uma palavra de agradecimento à sua equipa, sócios e amigos do clube, apelou à presença de todos no apoio à equipa sénior, que no próximo domingo pode carimbar em casa, frente ao Riachense, a subida à 1ª divisão distrital, e deixou em aberto uma possível recandidatura a um novo mandato à frente dos orgãos sociais, nas eleições que estão agendadas para dia 9 de maio.

Dia 1 de maio – Uma festa em Tramagal

O dia 1 de maio é uma data que se confunde com a própria história do Tramagal e que se comemora há 123 anos nesta vila, pela então Metalúrgica Duarte Ferreira (MDF) e pelos seus trabalhadores, que chegaram a ser mais de 2.600. Desde 1901 e até aos dias de hoje, 1 de maio de 2025, apenas por duas ocasiões o Dia do Trabalhador não foi celebrado na vila metalúrgica.

Em 1951, devido ao luto nacional pela morte do então Presidente da República, Óscar Carmona, e no dia 1 de maio de 1956, devido a um trágico acidente que ocorreu na véspera, a 30 de abril, com granadas no forno da fundição a provocarem duas violentas explosões e a causarem duas mortes e muitos feridos.

O episódio das duas explosões que abalaram o Tramagal nos fornos da fundição, devido a granadas que iam no metal a fundir, levaram a que o dia 1 de maio de 1956, dia que seria de festa, fosse transformado em luto, com mais de cinco mil pessoas a acompanharem o funeral dos malogrados trabalhadores da MDF. 

O Dia do Trabalhador celebra-se no Tramagal desde 1901, ano em que os operários festejaram pela primeira vez a data, colhendo flores nos campos para enfeitar as máquinas. É um caso único no país e nem as ameaças da ditadura fizeram recuar os Duarte Ferreira, que assumiram o 1º de Maio como um grande dia de festa na empresa.

O Ministério do Interior chegou mesmo a proibir a manifestação por duas vezes, como se conta no livro “Metalúrgica Duarte Ferreira 1879-1997 – Uma história em constante metamorfose”, de Patrícia Fonseca (Ed. CM Abrantes, 2017).

Na primeira ocasião, no início dos anos 40, Eduardo Duarte Ferreira enviou o filho mais novo a Lisboa para falar expressamente com o ministro, tentando que este revogasse a decisão. Mas o governante mostrou-se irredutível, insistindo que não poderiam realizar a festa. “Estão rigorosamente proibidos!”, terão sido as suas palavras finais.

Eduardo Cordeiro ter-lhe-á respondido, segundo ficou registado num documento da empresa, de forma muito corajosa: “Pois saiba V. Exa. que nós vamos mesmo fazer a festa, porque a nossa comemoração nada tem de subversivo. Pode preparar a polícia para ir ao Tramagal prender mais de mil trabalhadores e os três administradores.” A festa fez-se, e ninguém foi preso.

Há 69 anos, o 1º de maio foi um dia de luto e de muitas lágrimas em Tramagal. Em vez da festa tradicional realizaram-se os funerais das vítimas (Assis Januário e Joaquim da Silva Manana), num cortejo fúnebre com mais de cinco mil pessoas, segundo a imprensa da época.

c/Jorge Santiago

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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