O presidente da da Junta de Freguesia de Tramagal, António José Carvalho, e restante executivo, a par dos vereadores da Câmara Municipal de Abrantes, Raquel Olhicas e Luís Dias, presidiram no 1 de maio às várias celebrações que decorreram na vila, acompanhados por Rui Antunes, presidente da Assembleia de Freguesia de Tramagal, Maria e Francisco Duarte Ferreira, bisnetos do fundador da MDF, Nuno Oliveira, chefe do Agrupamento de Escuteiros de Tramagal, João Serafim, presidente da direção do TSU, dirigentes associativos, eleitos e demais entidades convidadas e populares, que juntaram-se para cumprir a tradição e prestar homenagem ao Comendador Eduardo Duarte Ferreira, no Miradouro da Penha, local onde foi edificado um monumento em sua memória.
António José Carvalho foi o primeiro a usar da palavra na sessão comemorativa, tendo destacado “a figura maior” da história de Tramagal e apontado ao futuro e a um caminho com novos voos.

“Estamos mais uma vez aqui no mirante, para homenagear a figura maior da nossa história, o exemplo de Eduardo Duarte Ferreira e nele todos os trabalhadores que construíram e constroem o Tramagal. Coincidindo com os 50 anos do 25 de abril de 1974, este 1° de Maio remete-nos para muitas reflexões, sobre a democracia, sobre o desenvolvimento, sobre a liberdade e a forma de a alcançarmos”, disse o presidente da Junta de Freguesia.
“Muito está por cumprir na comprida estrada de Tramagal. Objetivos genéricos, como melhorar a democracia e o quadro de tolerância em que vivemos, ou coisas práticas, como construir melhores ligações rodoviárias, melhorar serviços de saúde, educação, habitação, salários… enfim, alcançar vidas dignas e livres para todos”, notou.
“O Tramagal passou por profundas transformações nos últimos 50 anos, alguns momentos menos felizes…. mas como também escolheu Eduardo Duarte Ferreira para nosso símbolo a Borboleta… como ela sempre renascerá, afirmando novos voos”, afirmou António Carvalho.




“60 anos da linha de montagem, 30 anos do grupo diorama, atividade económica…voltamos a ser uma terra procurada para viver, temos este bom ar de que nos falava Carlos Duarte Ferreira, o ano todo, este ambiente magnífico. Vamos ao caminho. Viva Tramagal”, concluiu o presidente da Junta de Freguesia.
Presente na cerimónia, em representação da família Duarte Ferreira, estiveram os bisnetos do Comendador, Francisco e Maria, cabendo a Maria Duarte Ferreira usar da palavra, tendo duas jovens do Centro Escolar de Tramagal lido dois poemas da autoria de Maria Helena Duarte Ferreira.
“Era o meu tio Carlos que costumava dizer umas palavras neste dia. Devido ao seu falecimento, estou aqui hoje, em representação da família, pois queremos continuar a marcar presença nas festividades do 1º de Maio”, declarou.
“Queria em primeiro lugar agradecer mais uma vez todas as manifestações de pesar e carinho que recebi pelo falecimento do meu tio (Carlos Duarte Ferreira e principalmente da minha mãe (Maria Helena Duarte Ferreira). A minha mãe, enquanto viveu no Tramagal, e mesmo mais tarde, dedicou muito do seu tempo e conhecimento a causas sociais. Era uma pessoa discreta, inteligente e profundamente humana, muito ligada à família, aos amigos e preocupada em gerar o bem à sua volta”, lembrou.
“Não conheci o meu bisavô Eduardo, mas a sua visão, criatividade, espírito de iniciativa e dedicação ao trabalho eram muitas vezes citados lá em casa como exemplos a seguir. Era um homem humilde, que acreditou sempre no seu sonho. Acreditou sempre que podia ir mais longe. Julgo que terá sido também um exemplo mobilizador para todos aqueles que privaram com ele, que o ajudaram a edificar a sua obra e que estão aqui hoje representados pelas suas famílias”.

Para Maria Duarte Ferreira, “é um exemplo que se mantém atual. O mundo mudou, os tempos são outros, mas o Tramagal tem gente com muito valor, capaz de fazer frente aos desafios que hoje se apresentam”.
“Pela minha parte, e da minha família, enquanto Tramagalenses de coração, queremos e pretendemos continuar a participar e a colaborar, dentro da: nossas possibilidades, nas iniciativas e nos acontecimentos mais relevante da terra”, concluiu.
A vereadora Raquel Olhicas, por sua vez, em representação do presidente da Câmara de Abrantes, expressou na sua intervenção a “gratidão pelo fabuloso legado deixado por Eduardo Duarte Ferreira, nome maior desta nossa vila operária, e que marcou de forma indelével esta comunidade”, tendo destacado a sua “preocupação permanente com as questões sociais dos seus trabalhadores e com as suas condições laborais, mais do que meritório e louvável para a altura”.
Saudando a Filarmónica Riomoinhense, que musicou a cerimónia e interpretou o hino do 1º de maio, entre outros, o Agrupamento 273 do Corpo Nacional de Escuteiros de Tramagal, pelo seu 56º aniversário, e o TSU pelos 102 anos da sua fundação, Raquel Olhicas disse que o tecido associativo “é, e continuará a ser, motor de desenvolvimento social em Tramagal”, abordando depois os 50 anos do 25 de Abril e as comemorações do 1º de Maio na Vila Metalúrgica.




“Uma história como esta não pode nunca ser esquecida. Falamos de passado mas muito importante é colocar os olhos no futuro, nos indicadores de sucesso e naquelas que são as nossas prioridades”, declarou, tendo exemplificado com “a educação”, lembrando a “recente requalificação da escola Octávio Duarte Ferreira”, a “empregabilidade, com o exemplo das grandes empresas sediadas em Tramagal e que empregam, seguramente, mais de mil trabalhadores, num claro sinal de vitalidade económica”, ou “a habitação, com a aposta em novas construções para habitação a custos acessíveis, em claro compromisso com os jovens”.
Por outro lado, salientou a “qualidade paisagística e turística do território”, tendo apontado o percurso dos Caminhos do Tejo e a ribeira de Alcolobre, e a “cultura museológica, com o Museu MDF, que celebra hoje (dia 1 de maio) o seu 7º aniversário”.

“Tramagal tem o seu reconhecido e notável potencial. Que a estrada desta comunidade, que ainda é muito longa, seja percorrida com ambição, determinação e perseverança, ingredientes fundamentais para o sucesso dos territórios”, afirmou, tendo formulado votos que os tramagalenses “continuem a estar à altura e dignifiquem cada vez mais este grande nome que continua a voar além-fronteiras”, referindo-se ao legado de Eduardo Duarte Ferreira.
A vereadora, natural de Tramagal, concluiu a sua intervenção com vivas ao 1º de Maio, ao Comendador Eduardo Ferreira, à liberdade, ao Tramagal e aos tramagalenses.
Presente na sessão comemorativa, o vereador da Cultura do município de Abrantes, Luís Dias, destacou ao mediotejo.net a importância da história e do legado deixado por patrão e trabalhadores para a construção de um futuro em liberdade e progresso, tendo lembrado que a 1 de maio de 1974 Abrantes acolheu a maior manifestação de que há memória, com muitos populares de Tramagal a festejarem a conquista da liberdade e da democracia na cidade.




O programa em Tramagal foi vasto e arrancou às 9:00 do dia 1 de maio com uma largada de pombos pelo Grupo Columbófilo de Tramagal e a tradicional homenagem a Eduardo Duarte Ferreira, fundador da MDF, no miradouro da Penha, momento que foi abrilhantado pela atuação da Sociedade Filarmónica de Educação e Beneficência Riomoinhense, que seguiu em arruada até ao Largo dos Combatentes da Grande Guerra, onde prosseguiram as comemorações do 1 de maio e atividades desportivas integradas no 103º aniversário do TSU.
No Largo dos Combatentes, depois da entrega dos prémios da prova de atletismo e caminhada 10 km, organizada pelo Tramagal Sport União e Junta de Freguesia, e que este ano juntou cerca de 350 participantes, seguiu-se um almoço comemorativo e uma tarde desportiva no Campo de Jogos Comendador Eduardo Duarte Ferreira, com o torneio interconcelhio de escolinhas de futebol.





No discurso do 102º aniversário do TSU, na presença de perto de uma centena de associados, João Serafim, presidente da direção do clube fundado a 1 de maio de 1922, e que ostenta uma borboleta como símbolo, falou da importância social do clube na promoção da atividade desportiva junto dos mais jovens e apelou à união de todos no apoio ao crescimento e sustentabilidade do clube, apelando à inscrição de novos associados, como fez naquele dia a própria Maria Duarte Ferreira, dando conta que o TSU “será sempre aquilo que os sócios e os tramagalenses quiser” que seja.

Dia 1 de maio – Uma festa em Tramagal
O dia 1 de maio é uma data que se confunde com a própria história do Tramagal e que se comemora há 123 anos nesta vila, pela então Metalúrgica Duarte Ferreira (MDF) e pelos seus trabalhadores, que chegaram a ser mais de 2.600. Desde 1901 e até aos dias de hoje, 1 de maio de 2024, apenas por duas ocasiões o Dia do Trabalhador não foi celebrado na vila metalúrgica.
Em 1951, devido ao luto nacional pela morte do então Presidente da República, Óscar Carmona, e no dia 1 de maio de 1956, devido a um trágico acidente que ocorreu na véspera, a 30 de abril, com granadas no forno da fundição a provocarem duas violentas explosões e a causarem duas mortes e muitos feridos.
O episódio das duas explosões que abalaram o Tramagal nos fornos da fundição, devido a granadas que iam no metal a fundir, levaram a que o dia 1 de maio de 1956, dia que seria de festa, fosse transformado em luto, com mais de cinco mil pessoas a acompanharem o funeral dos malogrados trabalhadores da MDF.
O Dia do Trabalhador celebra-se no Tramagal desde 1901, ano em que os operários festejaram pela primeira vez a data, colhendo flores nos campos para enfeitar as máquinas. É um caso único no país e nem as ameaças da ditadura fizeram recuar os Duarte Ferreira, que assumiram o 1º de Maio como um grande dia de festa na empresa.
O Ministério do Interior chegou mesmo a proibir a manifestação por duas vezes, como se conta no livro “Metalúrgica Duarte Ferreira 1879-1997 – Uma história em constante metamorfose”, de Patrícia Fonseca (Ed. CM Abrantes, 2017).
Na primeira ocasião, no início dos anos 40, Eduardo Duarte Ferreira enviou o filho mais novo a Lisboa para falar expressamente com o ministro, tentando que este revogasse a decisão. Mas o governante mostrou-se irredutível, insistindo que não poderiam realizar a festa. “Estão rigorosamente proibidos!”, terão sido as suas palavras finais.
Eduardo Cordeiro ter-lhe-á respondido, segundo ficou registado num documento da empresa, de forma muito corajosa: “Pois saiba V. Exa. que nós vamos mesmo fazer a festa, porque a nossa comemoração nada tem de subversivo. Pode preparar a polícia para ir ao Tramagal prender mais de mil trabalhadores e os três administradores.” A festa fez-se, e ninguém foi preso.
Há 68 anos, o 1º de maio foi um dia de luto e de muitas lágrimas em Tramagal. Em vez da festa tradicional realizaram-se os funerais das vítimas (Assis Januário e Joaquim da Silva Manana), num cortejo fúnebre com mais de cinco mil pessoas, segundo a imprensa da época.
